A solidariedade antirracista como urgência em tempos de pandemia

angela yuri

Angela Davis e Yuri Kochiyama, duas ativistas reconhecidas, conversam sobre suas lutas pela liberdade e justiça que atravessaram fronteiras (Mountains that Take Wing – documentário de Griffith&Quad, 2009)

Texto escrito por Angela Maria de Souza, Laura Satoe Ueno e Yasmin Yonekura 

 

Este exercício de escrita parte da experiência de três mulheres, com distintos pertencimentos étnico-raciais, uma mulher negra, uma mulher asiático-brasileira e uma mulher negra-asiática, lançando olhares sobre a pandemia que vivenciamos com o Covid-19

A proposta de escrita conjunta surgiu da discussão sobre os usos do termo racismo para definir discriminações vivenciadas por pessoas negras e asiáticas em tempos de pandemia. Quando estamos falando de racismo, a que nos remetemos? Quem são as pessoas por ele atingidas? Quais as consequências para estas pessoas? Quais os impactos sociais de todas estas formas de discriminação que presenciamos? Enfim, estes são alguns dos questionamentos que nos acompanham nas reflexões que seguem.

Uma segunda perspectiva que nos move nesta construção de uma escrita conjunta refere-se a uma perspectiva interdisciplinar. O que, cada uma de nossas áreas de formação acadêmica, pode contribuir para refletirmos sobre os impactos do racismo em tempos de pandemia? Viemos da Antropologia, Psicologia e Letras para refletir sobre algo que nos atinge de forma contundente, a pandemia provocada pelo novo coronavírus. Como nossas vidas são atingidas e como conseguimos olhar, a partir de nossas formações acadêmicas para este cenário? Como nossos corpos, racializados, vivenciam e se percebem neste universo de incertezas? 

Que encontros, conexões, fluxos ou rupturas, relativas a pandemia, podemos perceber a partir de nossas formação acadêmica? Que lugares ocupamos neste cruzamento entre conhecimentos acadêmicos e experiências pessoais, com perspectiva racial, que possam refletir sobre este contexto local/nacional/internacional que nos atinge?

Estas são algumas das inquietações que nos movem no sentido de pensarmos e construirmos uma escrita partilhada sobre os impactos do coronavírus. 

 

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Arte de Gustavo Nascimento (@gstnsc)

Angela Souza

Sou uma mulher negra, antropóloga e docente da UNILA – Universidade Federal da Integração Latino Americana, uma universidade que fica na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, em Foz do Iguaçu. Enquanto uma mulher negra, me chama atenção a forma como a pandemia atinge nossos corpos negros. E quero refletir aqui sobre como termo o racismo vem sendo atualizado em tempos de coronavírus. O racismo foi um instrumento determinante para colocar em prática todo o empreendimento colonialista-escravocrata (Fanon, 2008; Césaire, 2010) que marcou a estrutura de sociedades em todo o continente americano. O tráfico escravocrata foi a maior movimentação intercontinental de pessoas, fruto de violência, já registrado durante quase quatro séculos de existência. As pessoas traficadas foram africanas de distintos pertencimentos étnicos, os quais foram negados enquanto cultura. Fomos todas e todos transformadas(os) em negras(os) e isso tem consequências até hoje. As teorias raciais do século XIX entram de forma contundente no Brasil e criam sua hierarquização eugênica, como podemos ver nas teorias, e seus teóricos, apresentados por Schwarcz (1993) no Brasil do século XIX, que dá os passos iniciais na construção acadêmica de formação superior.

Clique aqui para ler a parte 1/3 na íntegra

 

livia

Arte de Lívia Liu (@liviap.liu)

Laura Ueno

Sou brasileira amarela, neta de imigrantes japoneses, lavradores no interior de São Paulo. Lembro-me que meus avós se recusavam a falar português. Na infância, soube que no período nacionalista de repressão aos estrangeiros do eixo, vistos como suspeitos, a polícia inspecionava os sítios das famílias. Antes que ela chegasse, porém, meus avós maternos cavaram um buraco, enterraram a espingarda e os livros em língua japonesa para que estes não fossem apreendidos.

Cresci num limbo envergonhada por não conseguir me comunicar em japonês e, ao entrar na escola, onde eu era um corpo estranho, nem em português, assim me tornei uma criança silenciosa até o penúltimo ano do ensino médio. Sofrimentos emocionais, violências domésticas, lutos e adoecimentos psicossomáticos de asiático-brasileiros não tiveram o devido reconhecimento nos divãs da linguagem psicanalítica. A Psicologia em meu percurso – um resgate ao terreno da subjetividade, talvez? – foi reconstruída após o desencontro com suas bases epistemológicas europeias e o mundo elitista da universidade.

Clique aqui para ler a parte 2/3 na íntegra

 

benitta

Arte de Rebecca Nitta (@benittad)

Yasmim Yonekura

Em um texto certeiro e profundo do filósofo e ativista camaronês, Achille Mbembe, evidencia algo muito explícito sobre a atual pandemia do coronavírus: O fato de que muito antes dele, a humanidade estava sufocando. Uma parte de nós já era sufocada e massacrada por outros males biológicos e sociais há séculos, mas o coronavírus promoveu algo inédito na humanidade em seus tempos contemporâneos: Atingir corpos e sujeitos de forma indistinta no aspecto biológico, embora, claro, no âmbito social e econômico, as diferenças aparecem. Obviamente, os impactos foram distintos pelas questões sócio-econômicas desses continentes. Suas relações coloniais ainda vigentes evidenciam contradições difíceis de ignorar; os países nórdicos que estão lidando bem com a pandemia são também alguns dos que mais exploram e destroem áreas como a Amazônia, nos países subdesenvolvidos por relações de subalternização, que agora amargam suas mazelas “de sempre” e o coronavírus.

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Conclusões

Angela, antropóloga, aponta que a pandemia evidencia a necessidade de uma solidariedade na luta antirracista, na luta contra a misoginia, na luta contra toda e qualquer forma de preconceito e discriminação. A pandemia evidencia o óbvio, que as pessoas brancas passam ilesas pela discriminação gerada pela pandemia, o que deveria gerar nelas o protagonismo na luta anti racista, mas, ao contrário, ouve-se o silência da maioria. Poucos são os corpos brancos que desafiam esta fórmula. E outro aspecto que a pandemia evidencia, é justamente o protagonismo das narrativas. As narrativas negras, indígenas, quilombolas LGBT+, ciganas, asiáticas sobre a pandemia precisam se ampliar e ganhar visibilidade. A diversidade que marca nossos corpos precisa ser proporcional as narrativas sobre como vivenciamos a pandemia. E a luta e solidariedade antirracista precisa ser fortalecida, não somente pelos corpos atingidos de forma trágica ou discriminatória, mas por todos(as). Trago estas indagações para pensarmos a partir da produção de narrativas dentro da própria Antropologia, marcada pela diversidade sobre quem se narra, mas não de quem narra.

Laura acredita que é momento para asiáticos fazerem perguntas em direção a construções coletivas: Quem somos nestas dinâmicas raciais? Evitar a memória da discriminação e não falar de raça faz com que magicamente ela deixe de existir? Se nos tornarmos bem sucedidos financeiramente, “mais brasileiros” nos hábitos culturais e comportamento, isso nos preservará da estigmatização que se dá pelo fenótipo asiático? Que diálogos interétnicos e identificações seriam possíveis de começar a construir entre nacionalidades e etnias leste-asiáticas no Brasil? Saindo da culpa paralisante para a responsabilidade participativa, vamos nos envolver na garantia de direitos de cidadania da população negra e indígena?

Para a psicóloga, tudo isto também determinará nosso futuro pós-pandemia e a força necessária de resistência solidária: “Em meio às incertezas e ameaças externas, que trazem a urgência de reinvenção e de reestruturações, a qualidade com que vamos explorar o território interno fará a diferença. No medo de contágio pelo outro diferente, são projetados nesse outro os aspectos inconscientes evitados de si próprio e representados como “sujos”. Assim, ser antirracista representa diagnosticar o quanto antes as máscaras que usamos para ocultar aspectos de nossa alteridade mais profunda.”

Segundo Yasmim, doutoranda em estudos linguísticos e literários, a grande questão para nossa discussão é: Como construir ações práticas (e coletivas) de solidariedade antirracista? Nesses tempos, essa não é uma resposta simples. Não há um caminho apenas para isto, existem várias possibilidades; Dar continuidade, de forma interseccional, aos debates acadêmicos e em redes sociais em espaços sobre as lutas dos grupos racializados e marginalizados. Nessa lógica, eventos não acadêmicos entre essas comunidades seriam fundamentais, principalmente num país tão violentado pela colonização. Feiras, rodas de conversa, exposições, etc, em espaços populares como escolas, centros comunitários, praças públicas, seriam importantes para levar o diálogo a população. Outro ponto central seria a reformulação do debate sobre a diversidade racial nos currículos de escolas públicas e privadas brasileiras, contemplando de forma mais completa a história dos povos negros e indígenas, e passando a incluir os asiáticos (chineses, japoneses, coreanos, árabes, indianos, etc) no Brasil, também focando na integração política da América Latina. Devemos também buscar a maior participação maior das comunidades amarelas na defesa das pautas dos povos negros e indígenas, como protestos. De forma virtual, o uso das redes sociais para destacar o racismo estrutural e dar visibilidade a pautas anti-racistas. Unirmos-nos contra candidatos com o perfil de Bolsonaro e Weintraub, que atacam grupos marginalizados-racializados. Por fim, também devemos buscar um trabalho crítico de investigação das relações afro-asiáticas; não podemos ignorar o ataque chinês aos africanos e a natureza racista e imperialista da política chinesa de exploração econômica do continente africano. Não podemos defender a China se esta replica os métodos imperiais da branquitude estadunidense no âmbito geopolítico. Temos que lutar por um mundo horizontal e não por um mundo de substituições convenientes.

Existem outras possibilidades, que devem ser propostas e pensadas em coletivo. O que não podemos fazer é ignorar a necessidade que criemos esse elo entre nós para lutar contra a supremacia branca e as estruturas racistas do capitalismo, para derrubar a retórica do “país vira-lata” e do “paraíso da miscigenação”. Um novo mundo é possível e ele vai começar e ter mais força se estivermos juntos, ajudando uns aos outros.

 

De tal forma, para já ter esse texto como um ponto de partida, deixamos links abaixo para divulgação e/ou doação de iniciativas em apoio a comunidades vulnerabilizadas

  Para denunciar ataques xenofóbicos e racistas a chineses e pessoas de origem asiática e descendentes, acesse a Central de Denúncias da IBRACHINA.   

 

As autoras

angela

Foto: Adriana Farias

Angela Maria de Souza

É Docente da UNILA no curso de Antropologia e no Mestrado PPG-IELA – Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos Latino Americanos. Coordena o NEALA – Núcleo de Estudos Afro Latino Americanos. É associada da ABA – Associação Brasileira de Antropologia e da ABPN – Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as. Mestrado (1998) e Doutorado (2009) em Antropologia Social e Pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (2010) e graduação em Ciências Sociais (1994) pela Universidade Federal de Santa Catarina angelas2508@gmail.com.

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Laura Ueno

Psicóloga asiático-brasileira, fez estágio em pesquisa de campo na Universidade Tohoku, em Sendai. Gosta de escrever como forma possível de falar sem ser interrompida. Concluiu um estudo sobre casamentos inter-raciais de amarelos com negros e brancos em SP no Doutorado em Psicologia Social pela USP. laura.ueno@gmail.com

 

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Yasmim Yonekura

Mulher amazônica, de origem afro-indígena e japonesa, nascida  em Belém do Pará. Possui graduação em Letras – Licenciatura Plena em Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Pará (2014), onde também atuou como bolsista, pelo Departamento de Língua e Literatura (DLLT), no programa de Monitoria. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Estudos Culturais.Foi pós-graduanda e bolsista CAPES no Mestrado do Programa de Pós Graduação em Inglês, na Universidade Federal de Santa Catarina, de março de 2015 até agosto de 2017. No mês de agosto de 2017, defendeu a dissertação e obteve o título de mestrado em Estudos Linguisticos e Literários pelo Programa de Pós Graduação em Inglês da Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente, é estudante de doutorado no referido programa, sob orientação da professora doutora Alessandra Brandão. Também é técnica-administrativa educacional no Colégio de Aplicação da UFSC, trabalhando com crianças entre 6 e 12 anos. yasmimdeschain@gmail.com

Yasmim Yonekura: “A conjuntura desafia-nos a criar elos para nos protegermos e nos defendermos.”

benitta

Arte de Rebecca Nitta (@benittad)

Texto por Yasmim Yonekura

Em um texto certeiro e profundo do filósofo e ativista camaronês, Achille Mbembe, evidencia algo muito explícito sobre a atual pandemia do coronavírus: O fato de que muito antes dele, a humanidade estava sufocando. Uma parte de nós já era sufocada e massacrada por outros males biológicos e sociais há séculos, mas o coronavírus promoveu algo inédito na humanidade em seus tempos contemporâneos: Atingir corpos e sujeitos de forma indistinta no aspecto biológico, embora, claro, no âmbito social e econômico, as diferenças aparecem. Obviamente, os impactos foram distintos pelas questões sócio-econômicas desses continentes. Suas relações coloniais ainda vigentes evidenciam contradições difíceis de ignorar; os países nórdicos que estão lidando bem com a pandemia são também alguns dos que mais exploram e destroem áreas como a Amazônia, nos países subdesenvolvidos por relações de subalternização, que agora amargam suas mazelas “de sempre” e o coronavírus. 

Assim como são diferentes os efeitos nos países, também o são nos corpos, sujeitos e comunidades. O impacto do coronavírus tem sido brutal para os afro-descendentes do EUA, que, junto com os latinos, têm respondido pela maior quantidade de casos fatais. No Brasil, sabe-se, que por estarem em condições mais precarizadas e em trabalhos de base, pessoas negras também estão mais expostas e não poderão entrar em quarentena. Também entre os indígenas, a quantidade de casos vem subindo de forma alarmante e o governo federal vem omitindo-se no amparo a estas comunidades. Enquanto os efeitos sócio-econômicos do coronavírus em questões de quem vive e quem morre tem evidenciado as já conhecidas e correntes desigualdades étnico/raciais e sociais em diversos continentes,  também tem trazido à memória o ataque e preconceito a corpos e sujeitos não-brancos que figuram em posição diferenciada em relação às comunidades anteriormente citadas. Tendo histórias semelhantes de violências e segregações em suas diásporas do século passado, a reação social a categorização dos sujeitos asiáticos e seus corpos como sendo o “corpo hospedeiro” e encarnação viva do coronavírus – devido ao fato de que o vírus começou a propagar-se de forma conhecida na China – gerou uma onda de ataques globais a pessoas asiáticas e seus descendentes. 

Escrevo isso falando como alguém que ocupa um lugar múltiplo. Eu sou tanto filha de mulher negra ‘cabocla’ (o termo amazônico para nossa formação demográfica afro-indígena e mestiça, muitas vezes misturada com brancos também) quanto filha de um japonês imigrante que chegou ao Brasil em 1955. Ocupo o lugar que o IBGE até os anos 2000 chamou de mestiça. Ser filha da mistura é muitas vezes estar nesse não lugar, pois já sofri ataques – de todos os níveis, tanto sutis quanto explicitamente agressivos – das comunidades japonesas (em SC) quanto da parte afrocentrada radical do movimento negro, para quem a mestiçagem não é senão uma mancha a ser desconsiderada na história do povo negro em diáspora. 

 Minhas ansiedades e agonias estando nesse lugar múltiplo vem da falta de ver a solidariedade entre essas comunidades “não-brancas”, racializadas pelo capitalismo, falando especificamente da realidade brasileira. Nos EUA, há maior consciência da necessidade e prática desta solidariedade, visto que processos de segregação e violência atingiram – em maior ou menor grau – os diversos grupos racializados (exemplo: Chineses foram legalmente impedidos de entrar nos EUA e japoneses foram encarcerados em campos de concentração). Mesmo com isso, há muitos registros de afro-americanos e latinos atacando asiáticos no país. Contudo, a peculiaridade da formação miscigenatória de um país que passou por fortes projetos eugenistas e embranquecedores sem viver uma posterior avaliação dos danos deste, muito pelo contrário, implementou-se o culto às origens que nos vinculam ao colonizador, como se vê em movimentos separatistas como “Sul é meu país”, que fez com que as consciências das pessoas desses grupos racializados por muito tempo fossem sequestradas pela mentalidade hegemônica pró-colonizador. Assim, naturalmente, a falta da autoconsciência também tolheu esses grupos de serem solidários entre si.

Nos, EUA, o elo entre os ativistas Malcolm X e Yuri Kochiyama demonstra a importância da solidariedade anti-racista. Kochiyama é uma militante nipo-estadunidense que foi encarcerada e após sua liberação dos campos de concentração anti-japoneses, engajou-se na luta anti-racista. Ela foi presa junto com Malcolm X em 1963, em um protesto. Foi Kochiyama quem acompanhou Malcolm em seus últimos momentos de vida, quando ele foi atacado. Em “capitalismo negro”, Langston Hughes reconhece a opressão anti-japonesa nos EUA pós-segunda guerra como parte estruturante das ferramentas de hegemonia da branquitude. Inclusive, traz um momento particularmente prolífico das relações entre asiáticos e negros e dá um significado radical e político a solidariedade anti-racista (que alguns chamam de “cooperação política interétnica”), devido ao nível de extrema violência que atingia estes grupos. Hugh McBeth, um advogado negro que liderava a comissão de debates raciais em Los Angeles, mostrou engajamento ao posicionar-se contra o encarceramento de japoneses e seus descendentes, classificando este ato (o episódio do encarceramento japonês a partir da Ordem Executiva 9066, nos EUA) “a maior desgraça da democracia estadunidense desde a escravidão”, também se opondo ao uso do termo “Jap”, uma gíria ofensiva para designar os japoneses e seus descendentes. Além de Kochiyama, outros ativistas japoneses como Joe Ishikawa e Ina Sugihara se envolveram ativamente na luta anti-racista ao participarem da organização da luta pelos Direitos Civis. O jornal da comunidade asiático-americana dos EUA, chamado Gidra, também foi um meio importante e potente que se engajou na luta pelos direitos da população negra estadunidense.

Contudo, a situação no Brasil é bem diferente. Aqui as comunidades amarelas têm um perfil mais conservador e performam o papel de minoria modelo por vários mecanismos históricos de violência e trauma para supressão de identidade e memória. Soma-se a isto, a não discussão e a dificuldade do país de lidar e discutir a própria formação populacional e seu processo de mestiçagem que é único no mundo. Contudo, a pandemia do coronavírus realocou os amarelos e seus descendentes, sendo vistos como corpos hospedeiros. Casos de ataques racistas e xenofóbicos contra pessoas amarelas foram registrados principalmente no eixo Sul-Sudeste do país. O mais notório deles partiu do ministro da educação do país, que usou das tirinhas da Turma da Mônica para atacar os chineses (um dos maiores parceiros comerciais do país), e teve um processo aberto contra ele no STF, posteriormente. Assim, a conjuntura desafia-nos a criar elos e colaborações virtuais e materiais para nos protegermos e nos defendermos. Nós, os não-brancos, os que pertencem de forma condicionada, os que são legitimados como seres humanos quando convém a branquitude; são inúmeras possibilidades; desde a construção de debates conjuntos como nesse texto quanto ações práticas. Isso envolveria a rediscussão do currículo do ensino público no Brasil, a união política em torno de candidatos anti-racistas e a consciência e engajamento na criação de uma conexão muito maior que esta pandemia.

 

 

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Yasmim Yonekura

Mulher amazônica, de origem afro-indígena e japonesa, nascida  em Belém do Pará. Possui graduação em Letras – Licenciatura Plena em Língua Inglesa pela Universidade do Estado do Pará (2014), onde também atuou como bolsista, pelo Departamento de Língua e Literatura (DLLT), no programa de Monitoria. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Estudos Culturais.Foi pós-graduanda e bolsista CAPES no Mestrado do Programa de Pós Graduação em Inglês, na Universidade Federal de Santa Catarina, de março de 2015 até agosto de 2017. No mês de agosto de 2017, defendeu a dissertação e obteve o título de mestrado em Estudos Linguísticos e Literários pelo Programa de Pós Graduação em Inglês da Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente, é estudante de doutorado no referido programa, sob orientação da professora doutora Alessandra Brandão. Também é técnica-administrativa educacional no Colégio de Aplicação da UFSC, trabalhando com crianças entre 6 e 12 anos. yasmimdeschain@gmail.com

 

Parte 3 de 3 da série “A solidariedade antirracista como urgência em tempos de pandemia”.

Laura Ueno: “A branquitude, a orquestrar as hierarquias, lucrará cada vez mais”

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Arte de Lívia Liu (@liviap.liu)

Texto por Laura Ueno

Sou brasileira amarela, neta de imigrantes japoneses, lavradores no interior de São Paulo. Lembro-me que meus avós se recusavam a falar português. Na infância, soube que no período nacionalista de repressão aos estrangeiros do eixo, vistos como suspeitos, a polícia inspecionava os sítios das famílias. Antes que ela chegasse, porém, meus avós maternos cavaram um buraco, enterraram a espingarda e os livros em língua japonesa para que estes não fossem apreendidos.

Cresci num limbo envergonhada por não conseguir me comunicar em japonês e, ao entrar na escola, onde eu era um corpo estranho, nem em português, assim me tornei uma criança silenciosa até o penúltimo ano do ensino médio. Sofrimentos emocionais, violências domésticas, lutos e adoecimentos psicossomáticos de asiático-brasileiros não tiveram o devido reconhecimento nos divãs da linguagem psicanalítica. A Psicologia em meu percurso – um resgate ao terreno da subjetividade, talvez? – foi reconstruída após o desencontro com suas bases epistemológicas europeias e o mundo elitista da universidade.

Minhas vivências não se reduzem à especificidade da cultura de origem, mas à história das diásporas asiáticas e das assimilações ocorridas nas relações com a branquitude, entre projeções de raça/gênero que se alternam: dócil-delicada-submissa X fria-rígida-vilã. Tendo meu processo de socialização se dado numa sociedade racista, a politização das relações étnico-raciais se iniciou através da escuta, leitura e formações com mulheres negras. O lugar privilegiado de brancos nas estruturas hierárquicas se mantém preservado com suas imagens associadas à maior racionalidade – que seria ausente nos negros – e à capacidade de comando no espaço público – que seria ausente nos asiáticos. Neste e em outros diversos estereótipos construídos, negros e asiáticos são mantidos em lugares opostos e, também hierarquizados.

Processos psíquicos atemporais do racismo são responsáveis por gatilhos transgeracionais acionados na subjetividade de amarelos nesse momento de crise pandêmica, quando escutam “Porcos, vieram trazer o vírus pra cá” ou “Volte pro seu país!”. Ilustram os lugares demarcados que corpos racializados ocupam no mundo. Como observou Achille Mbembe, mesmo na era digital dificilmente haverá humanidade sem corpo. E como o assunto é saúde, seguirão adiante algumas pílulas, episódios para a vitalidade de nossa memória: 

 

Corpos e silenciamentos.

(1) Os debates em torno da viabilidade ou não das imigrações chinesa e japonesa foram pautados nas hierarquias do racismo biológico-científico, onde se teciam comparações físicas e comportamentais entre esses grupos “intermediários” e as características de brancos e de negros, argumentando-se às vezes semelhanças entre a raça “mongólica” e os indígenas. Decorrentes de necessidades econômicas, essas diásporas nunca serviram à política do branqueamento: uma possível miscigenação entre amarelos e negros era algo temido. (2) Chamados de “leitõezinhos” pelos lusitanos antes do embarque no porto de Macau, caçados por cães quando fugiam, centenas de chineses no século XIX serviram como experimento de transição do trabalho escravo para a mão-de-obra livre. As condições de tratamento desumanas se assemelhavam a ambas as modalidades laborais. Nada dóceis, mas rebeldes, seus nomes não tiveram registro na historiografia brasileira.¹ (3) A atuação da polícia política na ditadura do Estado Novo e no período da 2ª Guerra Mundial teve papel estratégico na discriminação institucionalizada contra famílias japonesas. Em 1942, a presença dos japoneses, apresentados em contraposição aos chineses como os “brancos da Ásia”, foi motivo para que o jornalista Vivaldo Coaracy, colaborador de “O Estado de São Paulo” publicasse O perigo japonês.² Alertando os leitores quanto à ameaça que os nipônicos representavam, utilizou em seu livro a expressão “vírus”, em analogia a um tumor invasivo que, sem detecção prévia, destruiria os tecidos do organismo da nação. (4) Na segunda metade do século XX, nipodescendentes e novos imigrantes asiáticos tiveram a possibilidade de estruturar ativamente suas comunidades étnicas, utilizando as vantagens do enquadre no discurso da minoria exemplar, assimilando-se à sociedade brasileira de hegemonia branca, e se diferenciando de predicados negativos associados aos negros.

¹  Azevedo, C. M. M. (2012). Dois estudos sobre imigração e racismo. São Paulo: Annablume.

²  Coaracy, V. (1942). O perigo japonês. São Paulo: José Olympio.

 

Corpos e anatomias.

Com algumas edições em São Paulo, em 2007 e 2010, a exposição internacional intitulada “Corpos” na Oca, Parque Ibirapuera, exibiu cerca de 36 cadáveres chineses, conservados por meio da técnica de polimerização, em posições que simulavam atividades físicas. A procedência suspeita desses cadáveres foi denunciada na Alemanha, onde o espetáculo foi interditado, assim como Paris, em 2009. Mas os traços dos olhos caracteristicamente asiáticos não impediram a insensibilidade do público brasileiro, e milhares de pessoas formaram longas filas de espera. A mídia nacional aclamou a exposição como lúdica, científica e didática. Raça e racismo não foram palavras pronunciadas.¹

¹https://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult3891u31.shtml

 

Corpos e violências institucionalizadas.

Em setembro de 2019, na Vila Joaniza – zona sul de São Paulo – nas dependências de uma das lojas da rede Ricoy, um jovem negro foi chicoteado por dois seguranças como castigo por ter furtado uma barra de chocolate. Os proprietários, nipo-brasileiros, legitimavam práticas sabidamente recorrentes e naturalizadas naquela região periférica. No protesto organizado por entidades de movimentos negros, em frente ao supermercado, eu e um grupo de jovens amarelos antirracistas tivemos recepções de surpresa e de intensa gratidão por parte de participantes negros no decorrer do ato na rua. Era uma comunicação eloquente da presença rara de asiáticos nestas ocasiões, conferindo-nos o peso de uma responsabilidade que deveria ser compartilhada por milhares de brasileiros amarelos.

 

Corpos e o covid-19.

#EuNãoSouUmVírus. O fenótipo leste-asiático, principalmente feminino, se tornou o rosto da doença no Brasil, antes mesmo dos primeiros casos diagnosticados, que foram de pessoas brancas que retornaram infectadas da Itália. A pandemia foi racializada, mas não temos visto muitas organizações socioculturais das comunidades asiáticas declarando publicamente repúdio às agressões explícitas que se tornaram mais frequentes. Atualmente, o Art.140, §3 do Código Penal, define a injúria racial como ofensa à honra de alguém que se vale de palavras depreciativas referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Segundo a Lei n° 7.716/1989, o crime de racismo, imprescritível e inafiançável, implica conduta preconceituosa e/ou discriminatória dirigida a determinado grupo ou coletividade.Cabe refletir que amarelos não tem se engajado enquanto grupo na defesa de mecanismos jurídicos e institucionais de combate a esse tipo de violência, nem na defesa de instituições e políticas de igualdade racial, que vem sendo amplamente atacadas nos últimos anos. Como se as leis contra o racismo tivessem a ver apenas com os outros grupos racializados.

Microagressões também são exercidas entre grupos racializados.¹ Certos episódios têm me chamado a atenção. Noto que nesse contexto muitos nipo-brasileiros e coreanos reafirmam sua distinção dos chineses e a estigmatização destes. Amarelos em geral passaram a falar mais de racismo para se referirem às suas experiências. Com acesso a privilégios de classe média, tem naturalizado, como se brancos fossem, as mortes contínuas de pretos e de pardos, as populações mais atingidas pela pandemia em vários sentidos. Em algumas denúncias de agressões verbais a asiáticos, registradas em fotos e vídeos publicadas nas mídias sociais, há pessoas negras perpetrando esses ataques, sozinhas ou em grupos com amigos brancos. Alguns asiático-brasileiros, entretanto, não tardaram a tecer comentários de ódio a esses indivíduos negros, num teor explicitamente racista e de modo mais incisivo do que expressariam aos ofensores brancos. A desumanização dos amarelos permanece, assim, não só ao sofrerem as consequências do sentimento antiasiático, mas também ao reproduzirem o sentimento antinegro.

O racismo, como o vírus, se manifesta após ficar incubado, tem alto poder de mutação ao longo do tempo. O mito da democracia racial brasileira presente nos discursos de várias comunidades asiáticas que se assimilaram a essa ideia, aqui profundamente incrustada, foi colocado em xeque. É preciso reconhecer este fato, saindo da negação. A supressão emocional, que tem sido a estratégia adotada pelas gerações precedentes, traz prejuízo à identidade coletiva, não produzindo saúde emocional nem transformações sociais. A participação em grupos com objetivos que transcendem a esfera privada é, em contraste, uma forma ativa de pertencimento e enfrentamento.

Temos não só a crise da pandemia, mas a crise de suas consequências globais já em curso. As diversas opressões, em cenário de adversidades e disputas, tendem a ser mais escancaradas em meio à recessão econômica pós-covid 19, que se segue aos anos de retrocesso na capacidade de pensamento sistêmico e nas políticas públicas sociais brasileiras. A Ásia tem sido uma ameaça à hegemonia ocidental, grandes potências europeias em decadência no cenário geopolítico se sacodem contra o poder e a presença da China, os EUA contra-atacam. A esta república socialista, tem sido atribuída uma falta de condições para adentrar a racionalidade moderna.² A branquitude brasileira que não parece ter aterrissado na América Latina, almeja um dia ser parte do Ocidente.

Chineses têm reproduzido o racismo antinegro nas práticas econômicas imperialistas em países do continente africano, e ainda, nas discriminações às comunidades africanas em território chinês em tempos de coronavírus, como a dominação fosse a única forma existente de estabelecer relações inter-raciais. As noções de raça, racialização e as dinâmicas do racismo na Europa ou nos EUA não são idênticas às dos países leste-asiáticos em ascensão. Há uma nova complexidade a ser analisada e a branquitude, a orquestrar as hierarquias, lucrará cada vez mais, não só com a opressão de asiáticos sobre africanos, da qual sai inocente, ilesa, até salvadora,³ mas com essa repetição de compreensões baseadas em oposições maniqueístas e nocivas, que sempre foram argumentos do sistema simbólico de dominação.   

 

¹  Sue, D.W., Capodilupo, C.M., Torino, G.C., Bucceri, J.M., Holder, A.M., Nadal, K.L., & Esquilin, M. (2007). Racial microaggressions in everyday life: implications for clinical practice. The American psychologist, 62 4, 271-286.

²   Stuart Hall destacou que a própria constituição das ciências sociais teve como quadro de referência a modernidade e a formação das sociedades ocidentais, e que o colonialismo capitalista segue cegamente considerado como necessário para o progresso e a “iluminação” do “resto”, ou seja, daquilo que não é considerado ocidental. Ver: Stuart, H., David, H., Don, H., & Kenneth, T. (1996). The West and the rest: discourse and power. Formations of Modernity, 275-332.

³ Refiro-me às configurações triangulares do racismo, construídas pela branquitude, cuja dinâmica é mencionada por Grada Kilomba. Ver: Kilomba, G. (2019). Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Editora Cobogó.

 

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Laura Ueno

Psicóloga asiático-brasileira, fez estágio em pesquisa de campo na Universidade Tohoku, em Sendai. Gosta de escrever como forma possível de falar sem ser interrompida. Concluiu um estudo sobre casamentos inter-raciais de amarelos com negros e brancos em SP no Doutorado em Psicologia Social pela USP. laura.ueno@gmail.com

 

Parte 2 de 3 da série “A solidariedade antirracista como urgência em tempos de pandemia”.

Angela Souza: “Questionar a branquitude neste contexto de pandemia é determinante.”

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Arte de Gustavo Nascimento (@gstnsc)

Texto por Angela Souza

Sou uma mulher negra, antropóloga e docente da UNILA – Universidade Federal da Integração Latino Americana, uma universidade que fica na fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, em Foz do Iguaçu. Enquanto uma mulher negra, me chama atenção a forma como a pandemia atinge nossos corpos negros. E quero refletir aqui sobre como termo o racismo vem sendo atualizado em tempos de coronavírus. O racismo foi um instrumento determinante para colocar em prática todo o empreendimento colonialista-escravocrata (Fanon, 2008; Césaire, 2010)¹ que marcou a estrutura de sociedades em todo o continente americano. O tráfico escravocrata foi a maior movimentação intercontinental de pessoas, fruto de violência, já registrado durante quase quatro séculos de existência. As pessoas traficadas foram africanas de distintos pertencimentos étnicos, os quais foram negados enquanto cultura. Fomos todas e todos transformadas(os) em negras(os) e isso tem consequências até hoje. As teorias raciais do século XIX entram de forma contundente no Brasil e criam sua hierarquização eugênica, como podemos ver nas teorias, e seus teóricos, apresentados por Schwarcz (1993)² no Brasil do século XIX, que dá os passos iniciais na construção acadêmica de formação superior. 

¹ FANON, Frantz. Pele negra, Máscaras brancas. Bahia.EDUFBA.2008

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o Colonialismo. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2010

² SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Na Antropologia e poderia dizer nas Ciências Humanas, e falo a partir de meu processo de formação,a grande parte da produção teórica visibilizada na academia sobre as questões raciais é realizada por pesquisadores(as) brancos(as), o que esteve presente durante a grande parte de minha formação acadêmica. Falo visibilizada porque há uma grande produção intelectual negra muito pouco citada e reconhecida na academia e, quando há a emergência e visibilização desta produção, esta é realizada por pesquisadoras(es) negras(os). E este foi um incômodo que sempre me acompanhou durante meu processo de formação nas ciências sociais e antropologia. Um incômodo que fala sobre os estereótipos construídos para os corpos negros e que negam ou diminuem sua intelectualidade. Este silêncio, negação, invisibilidade são produzidos academicamente por corpos brancos. Falo isso para pensar sobre o quanto a discussão sobre os impactos do racismo ainda é negligenciada e isso emerge de forma contundente nesta pandemia. E deixo aqui algumas inquietações, quem são os autores, que ganham destaque, que vão escrever sobre a pandemia? Quem são os pesquisadores que emergem neste cenário? Mais uma vez temos a mesma lógica hierárquica racializada que se repete. Falo aqui das relações de poder que colocam a branquitude no topo desta estrutura. E a pandemia atualiza esta estrutura racializada e racista.

A notícia da primeira morte causada pelo Covid-19 no Rio de Janeiro, ocorria dia 17 de março, é de uma mulher (provavelmente não branca) empregada doméstica, de 62 anos, moradora distante mais de 100km da casa onde trabalhava, no bairro do Leblon – Rio de Janeiro. Uma mulher que continuou (ou teve que continuar) trabalhando mesmo depois que seus patrões (muito provavelmente brancos) tiveram que ficar em isolamento por suspeita de Covid-19, ao retornarem de uma viagem da Europa. Suspeita que foi confirmada com o resultado dos exames. Esta mulher, empregada doméstica, procurou o serviço médico mas não resistiu e veio a óbito. Quero ressaltar neste caso, que esta mulher, representa muitas das mulheres que são empregadas domésticas neste país, mulheres negras moradoras das periferias. Mulher esta que poderia ser minha tia, minha irmã, minha prima, já que em minha família muitas mulheres atuam ou atuaram em trabalhos domésticos, servindo e cuidando. Trabalho este que traz em si fortes heranças escravocratas e que marca os corpos de quem nele trabalha, inclusive na relação direta que estes corpos vão ter com a contaminação gerada pelo Covid-19.

Quando a pandemia atinge de forma mais contundente os EUA, muitas das notícias que nos chegam dizem respeito a maneira como os corpos negros são atingidos, gerando índices de letalidade assustadores. Poderíamos dizer que o vírus atinge a todos indistintamente. E é verdade. Mas é impossível não chamar atenção para as condições de vida das pessoas, e a forma como elas são atingidas pelo vírus em função de suas condições sócio-econômicas, de trabalho, de saúde. E aqui estamos falando diretamente dos impactos do racismo em nossos corpos negros.

O impacto que a pandemia gera nos corpos negros expõe, de forma contundente como o racismo atua em sociedades como a brasileira ou estadunidense, assim como muitas outras. Mesmo que o racismo e as definições de ser negros(as) sejam distintas nestes contextos nacionais, os impactos da pandemia nos aproximam exatamente pela forma como o racismo age em nossos corpos negros. Mas, assustadoramente, muito pouco se discute sobre estas questões. É como se tudo isso não estivesse acontecendo ou que não importasse. As mortes são contabilizadas, mas pouco se discute sobre como estas mortes são causadas por sociedades com estruturas racistas e racializadas em que as desigualdades marcam quem vive e quem morre em tempos de pandemia. E quando esta discussão emerge, salvando-se raras exceções, é realizada por pessoas negras, sejam pesquisadores, intelectuais, gestores, etc. A desigualdade é racializada e os impactos desta pandemia evidenciam isso. 

Trago aqui estas situações para pensarmos como a sociedade brasileira negligencia o racismo, consequentemente nega seus impactos. Impactos estes que emergem de forma contundente em tempos de pandemia. Para além de qualquer explicação biológica, o que está aqui evidenciado são os grandes índices de desigualdade que atingem as populações negras em suas condições de vida, consequentemente as colocam num lugar de maior vulnerabilidade e exposição ao vírus, trazendo consequências fatais. Junto a estas questões está a evidência de que pessoas negras ocupam trabalhos domésticos, como acima apontado, e são grande número de trabalhadoras(es) na saúde que atuam diretamente com pacientes, como enfermeiras e serviços de limpeza, e os impactos são mais uma vez aterradores. Se as mortes estão atingindo de forma desigual a população negra precisamos discutir quais os impactos do racismo nesta pandemia. E é urgente!

No debate sobre a racialização dos corpos em tempo de pandemia, apenas um deles não é questionado, o corpo branco, justamente porque a branquitude o preserva. Precisamos pensar sobre os corpos porque ao falarmos de corpos brancos estamos falando de corpos racializados. São os corpos brancos que realizaram a entrada do vírus no Brasil, por exemplo. Mas, a discriminação recai justamente sobre os corpos mais atingidos sobre eles, falo aqui principalmente dos corpos negros, acumulando grande número de óbitos, e os corpos asiáticos, por todos os impactos que recebem pela forma como as primeiras notícias sobre o vírus foram veiculadas, gerando forte impacto sobre corpos asiáticos, genericamente definidos como “chineses”.

Como nos aponta Patrícia Hill Collins (2016)³ a imagem construída sobre a mulher negra, está perpassada pelos estereótipos racistas que desumanizam e retiraram o poder de falar sobre si. Falar sobre si, coloca a mulher negra no lugar de sujeito desta fala, o que também se aplica para a população negra de forma ampla. A sociedade cria e reproduz estereótipos de pessoas negras, asiáticas, indígenas, principalmente mulheres, o que reflete o quão racista-patriarcal são as estruturas de nossas sociedades. Em qualquer destas situações, o corpo branco permanece inquestionável e isento de tudo isso. Porém, esta isenção não existe. Nenhuma pessoa branca foi discriminada por ter trazido o vírus de alguma viagem realizada a Europa, mas asiáticos são discriminados por terem sua descendência relacionada a origem do vírus. Mesmo contaminadas, pessoas brancas fazem com que suas/seus empregados permaneçam trabalhando em suas casas e muito pouco se questiona sobre este “poder” de expor as pessoas e ampliar a contaminação. Por sua vez, a pessoa que trabalha nesta casa, ali permanece por necessidade o que implica numa relação de dominação*.

Questionar a branquitude neste contexto de pandemia é determinante. Sem cair nas essencializaçoẽs, é necessário discutir qual o papel dos corpos brancos no contexto de pandemia. Num país como o Brasil, onde as grandes desigualdades são extremamente racializadas, consequentemente a população negra é muito mais impactada pela pandemia. Mas é necessário pensar também sobre a produção de conhecimento sobre a pandemia, sobre a produção de narrativas sobre este contexto que vivenciamos e sobre como a discussão racial é muito pouco debatida nessas teorizações e análises. O corpo branco não é questionado a partir do lugar que ele ocupa nesta estrutura. Por isso o exercício desta escrita a partir de outros olhares que vivenciam a pandemia a partir de nossos corpos racializados negros e asiáticos. 

Que corpos importam? Que vidas importam? Se você é idosa(o), mulher, negro, indígena, quilombola, suas vidas não serão vistas como importantes ou que mereçam a devida atenção nesta pandemia. Porque? Porque continuamos vivendo sob a lógica escravocrata-colonial-patriarcal. E essa fórmula define as vidas que importam. E caso exemplar deste desprezo por todas estas pessoas está na fala do próprio governante maior deste país: “E daí?” Afinal de contas, como homens brancos no poder, suas demandas, brigas, prioridades e vidas são vistas, por eles mesmos, como muito mais importantes e prioritárias, como bem nos aponta o texto Luciana Brito, intitulado “Quem morre enquanto os homens exercem seus podres poderes?” (https://www.nexojornal.com.br/colunistas)

Sempre que leio o ouço que médicos terão ou já optam por quem vai viver ou morrer em decorrência da falta de equipamentos nesta pandemia, penso que a grande maioria destes médicos(as) são brancos(as). Quem eles escolheriam entre um(a) paciente branco e outro negro ou indígena com as mesmas condições de viver ou morrer? Infelizmente não precisamos nem responder esta questão porque a sociedade já faz suas escolhas num país que mata seus jovens negros de forma alarmante ou que vê os casos de feminicídio aumentando durante o isolamento social, que tem comunidades quilombolas e indígenas sendo atacadas que forma vergonhosa e que tem um governo que diz: “E, daí?” E daí, que assiste-se a um massacre que aumenta ainda mais os impactos da pandemia num governo que reforça uma estrutura racial excludente e perversa. O racismo é aqui atualizado de forma eficiente e silenciosa. As estruturas de poder que definem o termo racismo (Munanga, 2003) emergem e deixam suas marcas de perversidade.

 ³ COLLINS, P. H. Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro. Revista Sociedade e Estado (2016).

*Mais um exemplo destes absurdos emerge com a morte de uma criança negra, Miguel, ao “cair” do nono andar do prédio onde sua mãe, empregada doméstica, trabalhava. Além de todas as perversidades que este caso evidencia, a mãe da criança “permanecia” trabalhando em plena pandemia, mesmo sem ter onde e com quem deixar seu filho, já que as escolas estão fechadas.

 

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Foto: Adriana Farias

Angela Maria de Souza

É Docente da UNILA no curso de Antropologia e no Mestrado PPG-IELA – Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos Latino Americanos. Coordena o NEALA – Núcleo de Estudos Afro Latino Americanos. É associada da ABA – Associação Brasileira de Antropologia e da ABPN – Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as. Mestrado (1998) e Doutorado (2009) em Antropologia Social e Pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (2010) e graduação em Ciências Sociais (1994) pela Universidade Federal de Santa Catarina angelas2508@gmail.com.

 

Parte 1 de 3 da série “A solidariedade antirracista como urgência em tempos de pandemia”

Desejo, estereótipos e fetiche racial

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Para começarmos a pensar e aprofundar um debate em torno do fetiche racial, é-nos necessário entender, primeiramente, como os desejos da branquitude se articulam na pós-modernidade a partir da sua crise identitária que levou pessoas brancas a olhar para o Outro de uma maneira diferente da de seus ancestrais. Será preciso também recuperarmos um debate sobre as práticas representacionais de estereotipagem, que criam um imaginário sobre a pessoa racializada, reduzindo-a, consequentemente, à sua raça. E, por fim, adentrar, de fato, nas dinâmicas de fetiche racial. Continuar lendo

Para além da fábula das três raças: uma introdução à percepção racial do amarelo e do japonês no Brasil

(O texto original foi submetido como trabalho final da disciplina de Formação e Desenvolvimento da Sociedade Brasileira da Unesp-Araraquara. Está disponível em PDF para download e citação neste link.)

  1. Introdução

Este trabalho pretende ser uma introdução às nuances do papel atribuído e desempenhado pelo imigrante japonês e seus descendentes nas relações raciais brasileiras. A fim de compreender como se configura a discriminação ambivalente para com o fenótipo amarelo, o texto percorre brevemente alguns momentos históricos para questionar a ideia de brasilidade e de pertencimento, e a instrumentalização do mito da minoria modelo enquanto ferramenta racista contra as populações negras e indígenas.

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Entrevista com Rosa Miranda: a primeira mulher negra, no Brasil, a se formar em licenciatura no curso Cinema & Audiovisual.

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Rosa Miranda

Rosa Miranda formou-se em licenciatura em Cinema & Audiovisual pela UFF, sendo a primeira mulher negra no Brasil a conquistar este feito. Cineasta, arte-educadora e ativista, idealizou e fundou o Coletivo Kbça D’ Nêga, que produz audiovisual racializado interseccional e militante de forma independente. Entre os filmes produzidos pelo coletivo, há o mais recente curta-metragem documental, intitulado Privilégios (2018), descrito como “uma provocação sobre as desigualdades sociais mantidas por um seleto grupo social”, que estará disponível para exibição a partir de agosto deste ano.
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Gaijin – Caminhos da Liberdade: o cinema nipo-brasileiro e a preservação da memória.

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(Trabalho de Hugo Katsuo, escrito para a disciplina de História do Cinema Brasileiro, ministrada pelo professor Rafael de Luna, e apresentado oralmente na 5ª Semana de História da UFF)

O cinema brasileiro, a partir dos anos 80, passou a ter como tema recorrente uma
nova ideia: a de que nós, brasileiros, nos sentíamos estrangeiros no nosso próprio país (HEFFNER, 1995). Era indispensável que, para tratar desta temática, os cineastas Continuar lendo

Por que achei Master of None meio pombo, mas bem melhor do que os lances que os meus amigos brancos curtem

Alternativamente, sobre performance e masculinidade do homem asiático

Antes de começar a assistir Master of None, vi algumas mulheres criticando a série. Fiquei com preguiça de me envolver no assunto até um amigo — muito querido, cis, bi e asiático — atestar que era incrível, eu tinha que dar uma chance. Respondi que talvez, porque sou taurina e lembro que ele gostava bastante de (500) Dias com Ela, um filme que sempre abominei com todas as minhas forças; romance nunca foi meu forte e fiquei apreensiva de Master of None ser só mais uma história de amor. Apesar dos pesares, comecei a assistir por amor à nossa amizade.

Um tempo depois, comentei que não curti muito os primeiros episódios com outro amigo — igualmente querido, cis, hétero e asiático — e ele defendeu que a segunda temporada estava fenomenal. Confio nele, então batalhei para chegar nela, mas continuei achando meio… pombo.

Claro que não é ruim. Na verdade, foi uma experiência infinitamente melhor do que muitos filmes e séries recomendados por amigos brancos. Existe uma sensibilidade na abordagem de muitos assuntos que torna o enredo de Master of None cativante: conflitos intergeracionais de filhos com seus pais imigrantes; a falta de representações genuínas de pessoas não brancas na mídia; a subversão de um homem indiano protagonizar releituras de cenas de inúmeros filmes; o episódio da Denise. Todos os momentos que fazem Master of None valer a pena são genuínos e verossímeis justamente por serem vivências de quem os escreve.

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