Entrevista com Rosa Miranda: a primeira mulher negra, no Brasil, a se formar em licenciatura no curso Cinema & Audiovisual.

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Rosa Miranda

Rosa Miranda formou-se em licenciatura em Cinema & Audiovisual pela UFF, sendo a primeira mulher negra no Brasil a conquistar este feito. Cineasta, arte-educadora e ativista, idealizou e fundou o Coletivo Kbça D’ Nêga, que produz audiovisual racializado interseccional e militante de forma independente. Entre os filmes produzidos pelo coletivo, há o mais recente curta-metragem documental, intitulado Privilégios (2018), descrito como “uma provocação sobre as desigualdades sociais mantidas por um seleto grupo social”, que estará disponível para exibição a partir de agosto deste ano.
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Ocupando espaços: o não-pertencimento e a solidão em “Pele Suja, Minha Carne”.

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(Resenha escrita por Hugo Katsuo)

– Contém spoiler –

Em seu curta-metragem, Bruno Ribeiro mistura o conflito de sexualidade e raça ao retratar um menino negro e gay de classe média que se apaixona pelo seu melhor amigo branco. Continuar lendo

Gaijin – Caminhos da Liberdade: o cinema nipo-brasileiro e a preservação da memória.

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(Trabalho de Hugo Katsuo, escrito para a disciplina de História do Cinema Brasileiro, ministrada pelo professor Rafael de Luna, e apresentado oralmente na 5ª Semana de História da UFF)

O cinema brasileiro, a partir dos anos 80, passou a ter como tema recorrente uma
nova ideia: a de que nós, brasileiros, nos sentíamos estrangeiros no nosso próprio país (HEFFNER, 1995). Era indispensável que, para tratar desta temática, os cineastas Continuar lendo

Nós, feministos e esquerdomachos: comentários sobre o caso Aziz Ansari

Acompanhamos na última semana a denúncia de assédio sexual contra Aziz Ansari, ator e autor da série “Master of None”, aclamada pelas suas formas narrativas e atuações, pelo trato que dá a diferentes pautas “progressistas” da contemporaneidade e devidamente criticada pela Kemi nesse artigo: Por que achei Master of None meio pombo. Para além da obra, a persona pública do artista também se pronuncia em defesa do feminismo e contra as opressões de gênero, colocando-se como apoiador de mobilizações como #MeToo e #TimesUp, contra o assédio sexual na indústria de entretenimento. Esse é um dos motivos pelos quais esse caso específico gerou tanta comoção. Para além disso, a confusão das repercussões nas redes sociais e o fato de Aziz ser um homem de origem asiática e muçulmana também engrossaram o caldo. Por isso, resolvemos pautar aqui um debate, a partir de nós, homens de esquerda, às vezes asiáticos, que usam redes sociais. Reforço também  que a discussão proposta vem a partir de um olhar heterossexual, sem o intuito de invisibilizar discussões LGBT, mas com a cautela de não se fazer qualquer apropriação inadequada de debates com outras especificidades. Continuar lendo

Por que achei Master of None meio pombo, mas bem melhor do que os lances que os meus amigos brancos curtem

Alternativamente, sobre performance e masculinidade do homem asiático

Antes de começar a assistir Master of None, vi algumas mulheres criticando a série. Fiquei com preguiça de me envolver no assunto até um amigo — muito querido, cis, bi e asiático — atestar que era incrível, eu tinha que dar uma chance. Respondi que talvez, porque sou taurina e lembro que ele gostava bastante de (500) Dias com Ela, um filme que sempre abominei com todas as minhas forças; romance nunca foi meu forte e fiquei apreensiva de Master of None ser só mais uma história de amor. Apesar dos pesares, comecei a assistir por amor à nossa amizade.

Um tempo depois, comentei que não curti muito os primeiros episódios com outro amigo — igualmente querido, cis, hétero e asiático — e ele defendeu que a segunda temporada estava fenomenal. Confio nele, então batalhei para chegar nela, mas continuei achando meio… pombo.

Claro que não é ruim. Na verdade, foi uma experiência infinitamente melhor do que muitos filmes e séries recomendados por amigos brancos. Existe uma sensibilidade na abordagem de muitos assuntos que torna o enredo de Master of None cativante: conflitos intergeracionais de filhos com seus pais imigrantes; a falta de representações genuínas de pessoas não brancas na mídia; a subversão de um homem indiano protagonizar releituras de cenas de inúmeros filmes; o episódio da Denise. Todos os momentos que fazem Master of None valer a pena são genuínos e verossímeis justamente por serem vivências de quem os escreve.

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Asadoya Yunta: da resistência ao amor pelo colonizador

Capa: ilustrações da zine “KANPU” de Tamy Gushiken: Tumblr/Instagram

(O texto original foi submetido como trabalho final do curso de Antropologia Cultural da Unesp-Araraquara.)

Introdução

Músicas folclóricas comumente expressam sentimentos generalizados entre aqueles que as criam e interpretam: ora transmitem o espírito de celebrações e rituais, ora articulam sofrimento e resistência política.

Asadoya Yunta, das ilhas Yaeyama (Okinawa), é um exemplo de insatisfação popular para com as empreitadas colonizadoras[1] conduzidas pelo Japão, particularmente no século XIX; mas, quando é traduzida para o japonês, a temática anticolonialista desaparece, dando lugar a uma canção de amor, inofensiva em seu conteúdo.

Este trabalho procura demonstrar, através do estudo de caso de Asadoya Yunta, como a retirada de elementos contextuais de textos criativos serve um propósito estratégico em relações de dominação, esvaziando o texto de sentido e despolitizando seu significado.

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1°Sarau TROCA & AÇÃO: imigrantes, refugiados e artistas LGBTI

Data: Sábado, 11 de novembro às 18:00 – 21:00

Local: Galpão da Casa 1 – Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista

Divulgação:

O projeto TROCA & AÇÃO surge da necessidade de oferecer ações concretas que beneficiem de forma prática a comunidade LGBTIQ, tanto de imigrantes e refugiados de São Paulo como da comunidade LGBTIQ local, através de: atividades de sensibilização e aproximação e projetos artísticos culturais criados em parcerias entre esses dois grupos.
Pessoas imigrantes e refugiadas procedem, na maioria das vezes, de lugares e culturas nas quais ser homossexual, bissexual, intersexual ou travesti e pessoa trans é sujeito a forte discriminação, quando não a ameaça da integridade física.
Acreditamos que a comunidade LGBTIQ local pode e deve acolher as pessoas imigrantes e refugiadas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero existentes na cidade de São Paulo. Queremos incentivar, a través da atuação conjunta, a troca de informações, oferecer uma rica experiência de criação colaborativa e fomentar a sensibilização da comunidade local perante as necessidades e desafios enfrentados pelos imigrantes e refugiados.

Em parceria com o Centro de Referência e Atendimento ao Imigrante (CRAI), que atua em convenio com a Secretaria Municipal dos Direitos Humanos, e com o apoio da Casa 1, realizaremos este Sarau de lançamento do TROCA & AÇÃO e contaremos, dentre outras participações, com:

Shows musicais:

– Danna Lisboa e DJ Nelson D. Pocket show do novo álbum “Ideais”.

– Kimberly Romay. Dançarina e coreografa.

– Cria Close: Maluvitta, Maldita Geni e Naomy Fox.

Shows de performance:

– Flip Couto. Artista e ativista com a apresentação pocket da sua performance “Sangue”.

Exposição de pinturas e desenhos.

IMPORTANTE: Será um evento aberto para todos os públicos, incluindo crianças, pois achamos que o momento pede um posicionamento claro da abertura destes espaços para que, no futuro, possamos ter pessoas mais acolhedoras e conscientes na nossa sociedade.

Contato: keyllenn@yahoo.com

Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/338256483313807/?active_tab=about#

A importância da presença asiática no movimento LGBT+: Integra da fala de Alex Tso na Câmara Municipal de São Paulo

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“Isto é muito simbólico, o fato de eu, filho de imigrantes chineses, bissexual, estar onde estou, diz muito mais não do discurso mas da minha presença em si como um ato político.”

Em decorrência do Dia Internacional Contra a LGBTfobia (28/junho), nosso camarada Alex Tso foi convidado a fazer uma fala em uma Audiência Pública na Câmara Municipal de São Paulo, na presença de representantes da sociedade civil, membros da Comissão de Direitos Humanos do Município, e vereadores como Eduardo Suplicy, Toninho Vespoli, Soninha e Sâmia Bomfim.

Em sua fala, nosso colega, cuja trajetória de luta no movimento LGBT é de longa data, abordou o tema da noite “Políticas LGBTs: Avanços e Retrocessos” com uma inquietação muito peculiar – “Como lidamos com a diversidade dentro da diversidade que tanto defendemos?” Falando em nome da Primavera Bissexual, Alex pontuou a necessidade de bissexuais se visibilizarem enquanto grupo e também reforçou a necessidade de uma articulação conjunta entre várias frentes para que a atuação política possa subverter suas próprias limitações e atingir um público maior.

Não obstante, como membro da Asiáticos pela Diversidade, grupo de militância LGBT asiático, indagou aonde estavam os asiáticos na luta, e como é preocupante ainda estarmos operando em uma “militância majoritariamente masculina, branca e cisnormativa”. Reiterou seu princípio de busca pela pluralidade e cobrou das autoridades e dos movimentos sociais que “é preciso falar sobre a população negra, é preciso falar sobre o recorte asiático, é preciso falar sobre transfobia, bifobia e tantos outros apagamentos.”

Em tempos de Kataguiri e tantos outros ‘representantes’ asiáticos na vida política que se associam largamente com bancadas retrógradas e pautas conservadoras, é um alento ver um de nossos poder representar a solidariedade que almejamos enquanto movimento político. Pela intersecção de pautas, pela sensibilidade para que se haja respeito, empatia, e principalmente construção coletiva entre demais movimentos, nosso sincero voto é de que mais e mais possamos ocupar estes espaços formais de política. Segue abaixo transcrição integral da fala do querido Alex Tso, na audiência pública em memória à todos que lutaram e lutam contra o fim da LGBTfobia.

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“Nunca vi nada parecido com isto”: Sobre as repressões aos LGBT+ da Indonésia

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Marcha realizada por militantes LGBT+ no Dia Internacional contra a Homofobia em Jakarta no ano de 2013

Matéria de Ben Westcott originalmente postada no site da CNN.

Tradução de Luana Duyen Nguyen.

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Em menos de 18 meses, ser gay na Indonésia, algo amplamente tolerado, passou a ser claramente perigoso.

Uma onda de batidas policiais, ataques de vigilantes e o chamado para a criminalização de sexo homossexual sem precedentes tem deixado muitos da comunidade LGBT do país preocupados com sua própria segurança. “(Gays indonésios) estão exaustos e horrorizados,” Kyle Knight, um pesquisador da Human Rights Watch no programa de direitos LGBT, disse à CNN.
“Mesmo os ativistas que conheço que começaram suas primeiras organizações nos anos 80 dizem que nunca viram nada parecido com isto.”
É uma reviravolta negra para um país que PR décadas s orgulhava pela sua diversidade e sociedade heterogênea.
A maior democracia muçulmana do mundo, a Indonésia é frequentemente considerada como o refúgio da tolerância em meio a ascensão do conservadorismo em outros lugares do mundo islâmico.
Porém essa percepção está mudando dentre o aumento de ataques verbais em grupos minoritários e o crescimento da implementação de leis islâmicas por governos regionais.
Em menos de duas semanas, dois jovens foram capturados por vigilantes que invadiram sua casa na província de Aceh. Jakarta não faz parte de nenhuma província: ela é controlada pelo governo central.
Uma semana atrás, O Chefe de Polícia do Oeste de Java, Anton Charliyan, anunciou que ele criaria uma força tarefa especial no combate de pessoas LGBT.
“Eles enfrentarão a lei e pesadas sanções sociais. Eles não serão aceitados pela sociedade,” disse ele.

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Pessoas LGBT+ vítimas de abuso ainda sofrem em silêncio

Tradução da matéria de Chie Matsumoto para o Japan Times.

Aviso de gatilho: Apesar de não ter nenhuma imagem gráfica, a matéria traz a descrição em texto de diversos tipos de violências infringidas dentro de relacionamentos abusivos.

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Itens de divulgação decoram o Centro de Recursos para Mulheres e Pessoas Queer na cidade de Osaka

A risada aguda de Ray Tanaka é contagiosa. Mas, essa pessoa de 51 anos carrega sinais visíveis de um tempo não tão feliz. Cicatrizes através do seu cabelo curto são evidências dos constantes espancamentos que sofria nas mãos do parceiro que havia transicionado para homem.

Enquanto o cavanhaque esfarrapado de Tanaka é um símbolo de sua masculinidade, aquela risada é claramente feminina. Tanaka se identifica como genderqueer, ou seja, uma pessoa que define o seu gênero como não sendo nem masculino nem feminino.

Os espancamentos que Tanaka sofria eram desencadeados pelos motivos mais triviais possíveis. A primeira vez que o abusador o socou, ele afirmou que Tanaka havia agitado a mesa durante um jantar com amigos. Com meros 1,60 de altura, Tanaka teve dificuldades para se defender.

O parceiro de Tanaka podia chutar portas e quebrar vidros, e fazer um escândalo caso encontrasse livros sobre violência doméstica dentro da casa. Tanaka se lembra de ouvir o parceiro afirmar que “ver você (Tanaka) lendo livros como esses me deixa louco”.

“Qualquer dia eu poderia acabar morto” era o que Tanaka lembra ter pensado nesses momentos. Tanaka manteve-se passiva por um ano e meio, tentando não arranjar problemas. Parte do problema, diz Tanaka, é que esse tipo de abuso ainda não é levado a sério como os infringidos às mulheres por seus maridos.

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