Representatividade e racismo na mídia brasileira: #asiansontv

Em novembro de 2015, o ator estadunidense de origem tamil Aziz Ansari estreou Master of None, uma série co-produzida com o diretor e roteirista estadunidense de origem chinesa Alan Yang.  A série conta a história de Dev, um ator de propagandas nos seus trinta e poucos, vivendo a vida nova-iorquina que, para nós que assistimos Friends e todos seus derivados, deve ser basicamente a vida do estadunidense médio. A diferença é que, em Master of None, não são só brancos. Ansari e Yang pautam o tempo todo a diversidade na TV. Além da namorada branca de Dev, o outro único ator branco que integra regularmente o elenco aparece como um token white friend. Assim como muitas séries que apresentam um personagem secundário engraçadinho e estereotipado pra cumprir a cota de 1 (hum) asiático possível – o token asian friend – os produtores reservaram um espaço especial para que um ator branco pudesse cumprir esse papel. A produtora de Dear White People (2015), Lena Waithe, também integra o grupo de amigos. Originalmente, esse papel não era reservado a uma negra lésbica, mas os autores reescreveram a personagem, para também refletir a experiência da própria atriz.

A questão da representatividade na mídia é especialmente trabalhada no episódio 4, intitulado Indians on TV. Alguns conflitos emblemáticos são desenvolvidos na trama, como o casting que obriga os atores estadunidenses de origem indiana a forçar um sotaque que não lhes é natural, para representarem em um comercial o estereótipo que lhes é cabido. Há também a desconfortável trama da produção de uma série de TV que não deseja contratar dois atores de origem indiana, apesar de seus talentos, porque isso significaria assumir que a série seria um programa de nicho. É exatamente isso que Master of None desconstrói, jogando na mídia convencional um elenco não-branco que é capaz de falar de temas “universais” (olha só que surpresa), assim como temas específicos, mas que são capazes de atingir o público geral mesmo assim.

A abertura do episódio é um copilado de excertos da TV em que indianos são representados de forma racista. Tipo o Apu dos Simpsons, todo mundo conhece ele. Ou tipo aquela vez em que o Ashton Kutcher fez brownface em um comercial. Inspirados e empoderados por esta iniciativa, resolvemos transportar a crítica para a nossa realidade no Brasil e demos luz a este pequeno vídeo.

Para ajudar quem tá começando, sem preguiça, preparamos um pequeno guia de ideologias recorrentes na representação das/os asiáticas/os na TV brasileira, no intuito de dar um panorama pelo qual podemos começar os nossos debates.

Ashton

Ashton Kutcher na propaganda de Pop Chips em 2012

 

Asiáticas/os na mídia brasileira:

Never go (full) geisha!

Um tipo bem conhecido do público ocidental é a tal da geisha. Uma das poucas formas que o público branco aceita a representação da mulher asiática é cumprindo este papel. A mulher submissa, devota à sexualidade do homem. Para quem assistiu ao musical de sucesso Miss Saigon, emprestado da Broadway para o nosso Teatro Abril, é basicamente só isso, um soldado branco que vai colonizar o seu país, matar tudo o que tiver de homem por lá, seduzir e levar pra casa a mulher, que obviamente, era uma prostituta.

O blog Angry Asian Man faz um comentário sobre isso e deixa um aviso ‘never go full geisha!’ (https://www.youtube.com/watch?v=CHGxAlMczpw). A gente vai um pouco além e pede encarecidamente que só, simplesmente, não o faça em nenhuma medida.

never go full geisha

“Geisha” no clipe Ching Ling da banda Santroppê

 

Xing Ling

Parece engraçado e já faz parte do vocabulário. Mas ser xing ling é basicamente ter todo um universo linguístico cagado em cima e ser associado a tudo que é falsificado, mal-feito ou indigno.

xingling

Comercial da Eletrocity, com Thiago Pinhati.

 

“Fingir que é japonês é fácil”

Acho que a essa altura do campeonato, todo mundo já fica desconfortável quando uma raça/etnia é usada como fantasia, acompanhada de todos os dispositivos racistas que vêm no pacote. Blackface, yellowface, brownface, redface. Não é legal se fantasiar de índio no dia 19 de abril, fazer a dança da chuva para protestar contra a crise hídrica do Alckmin, ou se maquiar com tinta preta na desculpa de que é um artifício histórico do teatro de vaudeville. É ofensivo, racista e desnecessário. Quem ainda não se incomoda, é bom começar a se incomodar.

yellow

Comercial “Japonês” da linha Talent, da Semp Toshiba.

 

Sobre a tecnologia

Associar imediatamente asiáticos a tecnologia também parece normal. Inclusive, se o homem asiático não está praticando artes marciais na TV, ele provavelmente está vendendo uma TV. Ou fazendo coisas científicas e tecnológicas em geral. Contrariamente ao que se pensa, de que esse é um tipo de estereótipo positivo, vale a pena dizer que nenhum estereótipo é positivo. A ideia de que o asiático é inteligente, por isso é capaz de criar muita tecnologia e ser engenheiro, tirar boas notas e fazer coisas de qualidade reforça o mito da minoria modelo (sobre o qual vocês ainda vão ouvir falar muito), criando degraus na estrutura de discriminação racial através da noção de meritocracia que o embranquecimento promove. Além disso, a discriminação afeta quem simplesmente não quer ou não atinge estas expectativas impostas, às vezes por uma questão de classe, acesso à educação, ou só falta de afinidade mesmo.

tecnologia

Comercial da Bridgestone “Feito no Brasil, com tecnologia japonesa”

“Os nossos japoneses são mais criativos que os japoneses dos outros”

Resta alguma dúvida de como o capitalismo se vira bem com as estruturas de dominação racial? Quer dizer, então, que os japoneses são um ativo de posse do mundo branco que gera valor para o seu produto. OS NOSSOS JAPONESES, aquelas pessoas – sabem – que a gente detém.

os nossos japoneses

Comercial “Ofurô” da linha Talent, da Semp Toshiba.

 

A bestialização e a incomunicabilidade

Uma das formas de entender a operacionalização do racismo é entendendo o domínio do corpo. Um corpo domesticado é um corpo passível de controle e, em um cenário mais generalizado, é o objeto ideal da colonização. Uma das formas de construir isso é colocando no imaginário das pessoas a percepção de que aquele corpo é menos humano. É meio besta. Meio amorfo. A pessoa não-branca é quase um animal. Comporta-se como tal. A mecânica de seus corpos é exagerada, caricata, previsível.

Outra coisa que colabora para reduzir a humanidade de uma pessoa e, eventualmente, de todo seu grupo étnico-racial, é a destituição do emprego da linguagem. Dentre os vídeos que selecionamos em nossa coletânea, em pelo menos 7 deles, as/os asiáticas/os só conseguem emitir grunhidos e sons indistintos para se comunicar.

A dominação pela língua e pela linguagem é um mecanismo clássico do colonialismo e da expansão do imperialismo ocidental. Quando o estado turco decide se modernizar e se ocidentalizar, a partir da década de 30, a língua curda começa a ser perseguida, sendo banida oficialmente da comunicação pública em determinadas épocas. A representação do colonizado no imaginário do colonizador sempre passa por um modo caricato de se expressar verbalmente, isso significa, na maioria das vezes, o fardo de ter de substituir uma série de grunhidos por uma língua civilizada. Vide continente africano.

bestialização

Comercial “Sukitaaa”

 

Hipersexualização, objetificação, exploração, dominação, fetichização, alienação, mortificação do corpo da mulher

Quem não se incomodou com o Sushi Erótico não tem jeito mesmo, pode sair do blog.

hiperssex

“Sushi erótico” no Faustão, 1997

 

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4 comentários sobre “Representatividade e racismo na mídia brasileira: #asiansontv

  1. Tem uma coisa que falta nesse texto que é a estereótipo sexual dos homens japoneses/asiaticos, que sempre são zoados por causa do tamanho do pênis e diminuídos sexualmente por causa disso. Essa piada é amplamente divulgada através da propaganda e da cultura pop. Sei disso já que eu escuto várias piadas por causa do meu namorado.

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  2. Perdi a conta de quantas pessoas já tiraram sarro de mim na rua balbuciando palavras sem nexo ou as poucas palavras em japonês que elas sabiam (tipo arigatô). Mas há também muitas que me falaram coisas escrotas sem saber o quanto estavam sendo ofensivas, pois adquiriram aqueles preconceitos sem perceber, já que o único contato delas com uma cultura/etnia diferente foi por meio de estereótipos da mídia.

    Representatividade importa.

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