Boicote o Oscar descobrindo o Cinema e a TV feitos por asiáticos e asiáticas

Com a colaboração de Lucas Pascholatti e Walter Porto

O Oscar é uma celebração branca, e ninguém aguenta mais. Por isso, nas últimas semanas vimos crescer uma mobilização, partindo de artistas e coletivos negros estadunidenses, para boicotar a festividade, reivindicando maior representatividade de minorias. Jada Pinkett Smith, Spike Lee e Snoop Dogg foram porta-vozes de peso nesta movimentação. Alguns artistas brancos também resolveram se posicionar, por vezes favoráveis ao boicote, e algumas vezes bastante fora da realidade – nesta categoria, estão Charlotte Rampling, que disse que se tratava de ‘racismo contra brancos’  e o apresentador de um programa de auditório, Bill Maher, que atribuiu a falta de diversidade no cinema americano aos “asiáticos racistas”, que supostamente gerariam uma demanda exclusiva para consumo de histórias brancas.

Chegando à sua 88ª edição, o Oscar conta uma história na qual as minorias não participam. Atores e atrizes negras foram nominadas 56 vezes e premiadas apenas 15 vezes. Latinos e latinas, 14 nominações e 5 prêmios. Asiáticos e asiáticas, 11 nominações e 3 prêmios. Indígenas, somente 4 nominações e uma premiação. Esses números não dizem respeito somente à falta de apreciação do público geral a respeito da projeção artística de pessoas não-brancas, mas explicita também uma crise gerada pelo mercado de representações da cultura branca. A participação de artistas racializados na mídia muitas vezes fica restrita ao cumprimento de papéis ‘étnicos’, coadjuvantes, complementares, acessórios. Enquanto toda história contada, interpretada e representada por pessoas brancas serve de apologia a experiências e valores universais, se há uma história representada por mais de uma pessoa asiática, por exemplo, ela automaticamente se torna uma produção de nicho. O racismo institucionalizado na indústria cultural afeta a todos e todas, pois silencia as narrativas das minorias, violenta e instrumentaliza seus corpos e impede que nós, público não-branco, possamos nos reconhecer na vida cultural compartilhada.
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Vini Oliveira e Bolsonaro: de mãos dadas na instrumentalização do racismo

No dia 10/01, o deputado fascista Jair Bolsonaro veiculou em sua página do Facebook um vídeo intitulado “LIVROS do PT ensinam SEXO para CRIANCINHAS nas ESCOLAS. O vídeo conta com uma série de fatos falsos – desmentidos pela revista Nova Escola –, buscando deslegitimar a campanha “Escola sem homofobia”, do Governo Federal. Na compreensão de Jair Bolsonaro, educação contra a discriminação é “uma porta aberta para a pedofilia”. Enquanto o Brasil frequentemente aparece como líder de rankings de países que mais matam homossexuais e transexuais, ainda há gente que resiste às iniciativas de promoção da diversidade e combate aos discursos de ódio e à violência.

No vídeo, Bolsonaro veste a camisa da seleção japonesa de futebol, justificando-se pelo fato de o país ter, supostamente, um currículo escolar que dá ênfase à matemática avançada, e que isso dispensaria a necessidade da educação para a diversidade. Para além das atrocidades que comete em relação à luta LGBT, o deputado reproduz uma série de estereótipos sobre a sociedade japonesa, que fetichiza e distorce a complexidade de todo um povo, de forma a colocá-lo a serviço de seu ideal de civilização. É assim que opera o mito da minoria modelo, reduzindo e instrumentalizando um povo, para a manutenção de valores capitalistas e do domínio do mundo branco.   Continuar lendo

Kataguiri, Sakamoto e o Japonês da Federal: experiências de pessoas públicas racializadas

Quando uma pessoa branca se posiciona publicamente, ela geralmente é interpretada e julgada de acordo com o seu posicionamento. Por outro lado, quando uma pessoa racializada está exposta publicamente, ela é reduzida a estereótipos, tratada pelo todo de sua raça, silenciada e violentada. Note-se que estas pessoas assumem um papel praticamente passivo no processo comunicativo, pois por mais que bradem suas convicções, o interlocutor – o crivo branco – só receberá uma mensagem: o evidente sinal de sua raça exposta.

O diálogo público com brancos sempre é um pouco ruidoso, em maior ou menor grau. Digamos que a pessoa esteja discorrendo sobre um tema qualquer, como a extinção das abelhas ou o aquecimento global. A pessoa organiza argumentos, apresenta encadeamentos lógicos. E tudo o que passa na cabeça do interlocutor branco é… “Jackie Chan”.  Ou coisas piores.

É recorrente que, em situações públicas, as pessoas filtrem as informações que recebem a partir de estereótipos e concepções pré-arranjadas. O estereótipo é um mecanismo cognitivo que simplifica as relações sociais e, em determinadas situações, sustenta a ilusão de que se está preparado para a interação. É importante entender que todas e todos operam seus vieses cognitivos, só que, enquanto uma pessoa branca pode se encaixar em quantas categorias existirem, as pessoas racializadas encontram o destino manifesto de um limitado imaginário branco.  No fim, o problema não é individual, mas, justamente, público. Quantas negras vemos ocupando espaços de poder? Quantos negros vemos na universidade? Quantas asiáticas vemos na televisão sem que lhes seja relegado um papel sexualizado? Enquanto a vida pública se organizar em torno do mundo branco, o diálogo é impossível.

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Bowie, identidades e transgressões asiáticas

Eu nasci no Japão. Vivi por lá até aproximadamente o auge do meu um ano e meio de vida, quando vim para o Brasil. Dentre as boas memórias que eu guardo desse período, a lembrança definitiva da minha vida no Japão está em um VHS velho que meu pai montou com recortes de cenas da minha primeira infância. A trilha sonora é Space Oddity, de David Bowie. Sempre que eu perguntava aos meus pais sobre o Japão, eles me mostravam este vídeo. Até hoje, eu não sei diferenciar muito bem o que é Japão e o que é David Bowie e quem sou eu. Mas acho justo, afinal, Bowie passou por aqui para embaralhar as nossas identidades. – Fábio

Mais ou menos aos treze anos, meu despertar para música e estética além do óbvio se deu com uma música do David Bowie, baixada ilegalmente através um dos serviços p2p da época. Space Oddity soava diferente de tudo o que eu havia ouvido até então, e me abriu um mundo de possibilidades para minha expressão pessoal, livre de restrições de gênero ou do que era ‘normal’. Não muito tempo depois ele se tornou meu artista preferido e principal referência estética de moda. E desde que eu reparei que nascemos no mesmo dia, em todos os meus aniversários eu secretamente ficava pensando em como ele havia comemorado, se tinha comido bolo também e onde estava nos dias 8 de janeiro. Na minha imaginação sempre me fazia feliz saber que de alguma forma, em algum lugar do mundo ele também comemorava mais um ano. Assim, é justo dizer que ele representa para mim uma grande influência intimamente ligada à construção de identidade pessoal. – Emi

Curiosamente, não sabemos se por ironia do destino ou pelo fato de compartilharmos o mesmo sol em capricórnio, ascendente em signos de ar, o nosso querido Davy Jones também construiu muito da sua identidade transitando no universo Japão, e no universo Ásia, como um todo. Teve a época em que Bowie quase se tornou um monge budista, acompanhando fielmente o Lama tibetano Chime Rinpoche. Teve a maquiagem kabuki que Bowie aprendeu diretamente com Bandō Tamasaburō V no Japão e que inspirou fortemente a estética de Ziggy Stardust. Teve aquela faixa de Earthling que ele canta em mandarim, orientado por Li Xin. Continuar lendo

Tempo de festas , tempo de racismo

Ano novo. Na praia com dois amigos brancos, cantando e tocando violão. Um estranho branco se aproxima, pedindo para integrar a roda, entusiasmado com a animação do trio. Pergunta os nomes. Fulano, prazer. Ciclano, prazer. Ah, você eu não vou guardar o nome mesmo, posso te chamar de japa? Você vai ser O Japa, ok? Certamente pelo menos um dos meus amigos percebera e se incomodara, mas como eu não havia reagido, resolveram também não se manifestar a respeito. E então, em um acordo tácito, deixamos quieto e resolvemos seguir a festividade. No dia seguinte, comentamos com a outra amiga que viajava conosco sobre a noite anterior, sobre como uma personagem bizarra tinha nos abordado e falado tanta merda, mas nos restringimos a contar sobre o fato dele ser milico, de fazer um beatbox estranho e de cantar como o Rogério Flausino.

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