Bowie, identidades e transgressões asiáticas

Eu nasci no Japão. Vivi por lá até aproximadamente o auge do meu um ano e meio de vida, quando vim para o Brasil. Dentre as boas memórias que eu guardo desse período, a lembrança definitiva da minha vida no Japão está em um VHS velho que meu pai montou com recortes de cenas da minha primeira infância. A trilha sonora é Space Oddity, de David Bowie. Sempre que eu perguntava aos meus pais sobre o Japão, eles me mostravam este vídeo. Até hoje, eu não sei diferenciar muito bem o que é Japão e o que é David Bowie e quem sou eu. Mas acho justo, afinal, Bowie passou por aqui para embaralhar as nossas identidades. – Fábio

Mais ou menos aos treze anos, meu despertar para música e estética além do óbvio se deu com uma música do David Bowie, baixada ilegalmente através um dos serviços p2p da época. Space Oddity soava diferente de tudo o que eu havia ouvido até então, e me abriu um mundo de possibilidades para minha expressão pessoal, livre de restrições de gênero ou do que era ‘normal’. Não muito tempo depois ele se tornou meu artista preferido e principal referência estética de moda. E desde que eu reparei que nascemos no mesmo dia, em todos os meus aniversários eu secretamente ficava pensando em como ele havia comemorado, se tinha comido bolo também e onde estava nos dias 8 de janeiro. Na minha imaginação sempre me fazia feliz saber que de alguma forma, em algum lugar do mundo ele também comemorava mais um ano. Assim, é justo dizer que ele representa para mim uma grande influência intimamente ligada à construção de identidade pessoal. – Emi

Curiosamente, não sabemos se por ironia do destino ou pelo fato de compartilharmos o mesmo sol em capricórnio, ascendente em signos de ar, o nosso querido Davy Jones também construiu muito da sua identidade transitando no universo Japão, e no universo Ásia, como um todo. Teve a época em que Bowie quase se tornou um monge budista, acompanhando fielmente o Lama tibetano Chime Rinpoche. Teve a maquiagem kabuki que Bowie aprendeu diretamente com Bandō Tamasaburō V no Japão e que inspirou fortemente a estética de Ziggy Stardust. Teve aquela faixa de Earthling que ele canta em mandarim, orientado por Li Xin.

Decerto, essa relação de Bowie com a Ásia beira à exotificação, cheira a Orientalismo e dá uma trupicada na apropriação cultural. No entanto, quando cartografamos todas essas personagens que caminharam juntas na construção desse ícone, podemos enxergar além do que parece um projeto pessoal individual. Mapear estes outros pontos de agência nos permite enxergar um projeto cultural compartilhado, da proposição de uma outra modernidade, de uma  outra política estética, com suas implicações nas políticas de gênero e sexualidade, de uma outra formulação a respeito do que é identidade, construída não só pelo batizado David Robert Jones, mas por toda uma geração de pessoas asiáticas transgressoras. Não há, por exemplo, como falar da estética de David Bowie, sem falar da estética de Kansai Yamamoto, estilista responsável por aquele traje vinil da turnê de Alladin Sane.

A morte de Bowie nos afeta gravemente e decidimos fazer um tributo. Entretanto, escolhemos fazê-lo ao legado coletivo que ele construiu ao lado das pessoas, com a generosidade que lhe é comumente atribuída. Nesta tributo, homenageamos também as/os artistas asiáticas/os que se envolveram de alguma forma na criação do universo de Bowie, propondo conjuntamente novos desvios de cultura, e que frequentemente são apagados por trás do mito.

Kansai Yamamoto

Estilista da moda contemporânea japonesa, radicado nos anos 1970 e 1980, Kansai estabeleceu um legado de inovação em sua estética hiperbólica. Suas releituras avant-garde de influências da vestimenta tradicional japonesa fizeram dele um ícone, e muitas de suas peças foram vestidas por Bowie em suas turnês de Ziggy Stardust e Alladin Sane

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Bowie e Kansai


Bandō Tamasaburō V

Ator onnagata (atores que interpretam papeis femininos no teatro kabuki) mais celebrado da atualidade, tendo dedicado sua vida ao teatro desde criança, ele atuou em inúmeras peças ao redor do mundo, inclusive realizando uma apresentação ao lado do celebrado cellista Yo-Yo Ma, e alguns filmes. O visual andrógino dos onnagata foi uma grande referência estética para Bowie, que foi ensinado por Bandō a aplicar a maquiagem utilizada nas performances.

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Processo de maquiagem

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Bowie, também se maquiando


Michi Hirota

Membra do grupo Red Buddha Theatre, formado nos anos 1970, colaborou com Bowie na música “It’s No Game”. Na época, enquanto o grupo realizava performances em Londres, Bowie escrevia músicas para o álbum Scary Monsters and Super Creeps. Em “It’s No Game”, ele idealizou uma vocalista feminina estridente que gritasse a letra em japonês se alternando com a mesma letra cantada por ele mesmo traduzida para o inglês. Bowie mais tarde diria sobre a música: “Eu queria desconstruir um tipo particular de atitude sexista sobre mulheres. Eu pensei que [a ideia da] a ‘menina Japonesa’ tipificava isso, onde todos as imaginam como geishas, muito doces, tímidas e não-pensantes, quando na verdade é absolutamente o oposto do que mulheres são. Elas pensam bastante, com tanta força quanto qualquer homem. Eu queria uma caricatura dessa atitude com uma voz japonesa muito forte.(…)”.


Ryuichi Sakamoto

Um artista multiplataforma, Ryuichi é músico, compositor, produtor, cantor, pianista, ator e escreve letras de música. Conhecido tanto por participar do grupo Yellow Magic Orchestra e por sua carreira solo, ele contracenou com Bowie no filme “Merry Christmas Mr. Lawrence” e compôs sua trilha sonora. No vídeo, Ryuichi toca com Bowie no piano a música tema do filme.


Li Xin

Autor de letras de música, Li Xin já escreveu mais de 2500 músicas e é o autor por trás de “Beijing Welcomes You”, música das Olimpíadas de 2008. Ele colaborou com Bowie no álbum “Earthling”, com a versão em mandarim da música “Seven Years in Tibet”.

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Li Xin


Tomoyasu Hotei

Guitarrista, produtor, cantor e compositor, Tomoyasu já fez colaborações com inúmeros artistas e é imensamente celebrado na cena musical japonesa. “Battle Without Honor or Humanity”, por exemplo, é composição dele (se pelo nome você não lembra da música, veja esse vídeo). Hotei colaborou com Bowie durante sua turnê de 1996 pelo Japão, se apresentando com ele no famoso Budokan.

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Hotei e Bowie


Masayoshi Sukita

Fotógrafo que trabalhou com Bowie por mais de 40 anos, excelente retratista que lista nomes como Irving Penn em suas influências, Sukita é o responsável por imagens como a capa do álbum “Heroes”. Acompanhando Bowie por quase todas as suas transformações artísticas, é seguro dizer que Masayoshi é uma grande influência artística na estética mutante de David Bowie.

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Masayoshi e Bowie

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Masayoshi e o retrato que se tornaria a capa do álbum “Heroes”


Yasuko Takahashi

Stylist que conheceu Bowie através de uma das sessões de fotos de Masayoshi Sukita, acompanhou Bowie como assistente de guarda-roupa durante a era Ziggy Stardust e foi a ponte entre ele e o previamente mencionado Kansai Yamamoto.

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Bowie e Yasuko


Chime Rinpoche

Monge do budismo tibetano, Chime fugiu do Tibete por conta da ocupação chinesa, e ganhou cidadania britânica em 1965. Enquanto ainda era conhecido por David Jones, Bowie estudou budismo tibetano com Chime durante algum tempo, tendo inclusive considerado se juntar ao monastério. O Budismo permaneceria uma grande influência na vida de Bowie, e mais tarde ele escreveria “Silly Boy Blue” em homenagem ao antigo professor.

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Chime Rinpoche


Nagisa Oshima

Cineasta do new wave japonês, conhecido principalmente pelo filme “Império dos Sentidos”, dirigiu “Merry Christmas Mr. Lawrence”, sua primeira tentativa de inserção no mercado internacional, seu primeiro filme em língua inglesa e um filme marcado pelas tendências pós-colonialistas. Em sua narrativa, o autor desconstrói as representações clássicas da Ásia, não mais sobre a ótica ocidental. Desta vez, é o Leste que olha para o Oeste. Ao mesmo tempo, Oshima nos coloca para refletir sobre a construção da masculinidade em um mundo colonizado e aí se encontra o casamento perfeito com a persona de Bowie.

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Bowie e Oshima


Ellie M. Hisama

Para compensar a falta de mulheres na lista, e para a mão da problematização que tá tremendo, Hisama é asiática-estadunidense, professora de música na Columbia University, e publicou um artigo problematizando o retrato que Bowie faz da mulher asiática na música “China Girl”. Em “Postcolonialism on the make: The music of John Mellencamp, David Bowie and John Zorn”, ela critica o olhar colonialista e objetificante presente na letra da música, que exotifica a mulher através de sua raça.  


Para quem quiser mais problematizações, sugerimos a leitura de: David Bowie: Critical Perspectives (2015), edited by Eoin Devereux, Aileen Dillane and Martin J. Power, Routledge (New York). 

Não necessariamente na linha da problematização, mas também recomendamos a leitura:

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