Kataguiri, Sakamoto e o Japonês da Federal: experiências de pessoas públicas racializadas

Quando uma pessoa branca se posiciona publicamente, ela geralmente é interpretada e julgada de acordo com o seu posicionamento. Por outro lado, quando uma pessoa racializada está exposta publicamente, ela é reduzida a estereótipos, tratada pelo todo de sua raça, silenciada e violentada. Note-se que estas pessoas assumem um papel praticamente passivo no processo comunicativo, pois por mais que bradem suas convicções, o interlocutor – o crivo branco – só receberá uma mensagem: o evidente sinal de sua raça exposta.

O diálogo público com brancos sempre é um pouco ruidoso, em maior ou menor grau. Digamos que a pessoa esteja discorrendo sobre um tema qualquer, como a extinção das abelhas ou o aquecimento global. A pessoa organiza argumentos, apresenta encadeamentos lógicos. E tudo o que passa na cabeça do interlocutor branco é… “Jackie Chan”.  Ou coisas piores.

É recorrente que, em situações públicas, as pessoas filtrem as informações que recebem a partir de estereótipos e concepções pré-arranjadas. O estereótipo é um mecanismo cognitivo que simplifica as relações sociais e, em determinadas situações, sustenta a ilusão de que se está preparado para a interação. É importante entender que todas e todos operam seus vieses cognitivos, só que, enquanto uma pessoa branca pode se encaixar em quantas categorias existirem, as pessoas racializadas encontram o destino manifesto de um limitado imaginário branco.  No fim, o problema não é individual, mas, justamente, público. Quantas negras vemos ocupando espaços de poder? Quantos negros vemos na universidade? Quantas asiáticas vemos na televisão sem que lhes seja relegado um papel sexualizado? Enquanto a vida pública se organizar em torno do mundo branco, o diálogo é impossível.

NADA ACOTECE FEIJOADA

Na última segunda-feira (19), amanhecemos surpreendidxs pela notícia de que Kim Kataguiri tornara-se colunista da Folha de S. Paulo. Que os grandes canais de jornalismo brasileiro estão caidaços, nós sabemos, assim como já não esperamos nada de respeitável da direita brasileira. A mensagem foi dada com muita clareza, o que me chamou atenção, no entanto, foi a outra ponta da comunicação. Como reagiram os interlocutores? E a resposta foi mais ou menos essa:

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Sobre esse meme: e pensar que alguém deliberadamente usou de seu tempo para fabricar um estereótipo de “angry asian man” bestializado, privado de capacidade comunicativa. E pensar que isso circula tranquilamente pela internet, provocando reações de ódio e NADA ACONTECE.

Fica evidente que a grande sacada aqui é comparar duas pessoas amarelas que, porventura, não gostam da Dilma e do Lula. AFINAL, NÃO SÃO TODOS IGUAIS? Não é tudo a mesma coisa? Há na internet um número razoável de manifestações a respeito de Kim Kataguiri, positivas ou negativa, que foram processadas pelo viés racial, às vezes mesmo independentemente do conteúdo. Os parâmetros de avaliação da aparição pública de uma pessoa não-branca são inevitavelmente construídos a partir de sua raça.

Sobre o meme, já gastei o meu arsenal de paciência denunciado racismo em grupos e páginas principalmente “progressistas” no Facebook. Praticamente todas as reações que o mundo branco teve em relação a “nada acotece feijoada” foram racistas. Criativos e autênticos “Volta pra Coreia”, “pastel de flango”, “come cachorro” foram aplicados sem constrangimento por todos os cantos da rede. Racismo é o único idioma comum.  KIMss

 

Identidades Negociadas

Outra figura pública que lida com esse tipo de ataque é o jornalista Leonardo Sakamoto. Em seu artigo “Em terra de tosco, quem tem olho puxado pode levar pedrada” , Sakamoto divaga sobre algumas agressões que identifica em seu cotidiano – “Sakamoto desonra a sua raça”, alguém comentou em seu blog. No entanto, toma um posicionamento não incomum frente a estas manifestações e se omite: “Eu prefiro conceder ao máximo o benefício da dúvida. E mesmo quando comprovada a má fé e vejo que não há diálogo para uma mudança de comportamento, opto por – não raro – não alimentar os pombos..

Desde quando precisamos comprovar má fé pra identificarmos um ato racista? Não seria o racismo um sistema de valores e crenças que age de forma estrutural na manutenção dos privilégios de uma raça em detrimento das outras? Se o racismo é sistêmico e sua aplicação subjetiva é quase um espasmo cognitivo, porque deveríamos atestar motivação antes de denunciá-lo?

Sakamoto, diferentemente do que eu esperaria, não menciona uma só vez o termo racismo. Pelo contrário, a sua reação é na defensiva. “Tive um casal de avós paternos japoneses, mas contei com bisavô alemão (nascido em Bonn), pai da minha avó materna italiana (nascida em um vilarejo na Calábria) que se casou com meu avô materno grego (de Thessaloniki). Ou seja, sou difícil de catalogar.” Para se esquivar de ataques racistas, Sakamoto se justifica: veja bem, sou quase-branco. Um quase-branco de olho puxado. Posso até levar pedrada.

O Professor Silvio de Almeida uma vez disse: Ser negro é ser tratado como negro. E essa é a mágica da racialização em um mundo de identidades negociadas, ninguém sabe a que raça pertence, até quando todo mundo tem certeza. Além de sustentar o mito da democracia racial, a reação de Sakamoto ilustra muito bem o mito da minoria modelo aplicado na vida real. Ele acha que é branco – e negocia seu embranquecimento -, por isso, acredita viver em outro patamar. Mas continua sendo tratado como amarelo.

Na contrapartida, em “Prazer, eu sou o Kim” – seu artigo de estreia no Huffpost  Brasil -, Kataguiri negocia a sua cor de forma perversa. “Também não tenho nada contra negros. A cor da pele é tão relevante quanto a cor do rim. Não sei se perceberam, mas eu sou um japonês preto. Acho bom. Posso tomar sol sem ficar vermelho.“. Tentando justificar o seu universo político injustificável, Kim reivindica-se colorblind, diz-se indiferente à cor, ao mesmo tempo em que evoca sua própria cor para provar algum ponto. O colorismo existe e as diferenças de tonalidade de pele com certeza estão presentes na construção étnico-racial asiática. Entretanto, assumindo o caráter sócio-histórico da racialização das pessoas negras e das pessoas asiáticas, tentar inadequadamente a comparação entre as experiências identitárias destas duas populações é no mínimo muito desonesto.  

Apesar dos esforços da barganha identitária, as minorias não-brancas continuam sendo percebidas como diferentes. E não somente isso, aquele marcador da diferença vai ser a principal e talvez a única informação processada pela percepção do interlocutor médio branco. Lembremos do Japonês da Federal, aquele da Lava-jato, que virou marchinha de carnaval, porque era muito engraçado o fato dele ser japonês. Porque não teria graça ser “o policial da Federal”, ou “o homem branco da Federal”. Será que é racista?

Se você é uma pessoa racializada vivendo uma vida pública, ou simplesmente uma vida – também – em público, uma hora dessas você vai ter de escolher o papel que você vai cumprir no sistema racial. Não dá pra sair na rua sem estar armado de consciência racial, porque, pelo bem ou pelo mal, sempre vai ter alguém pra te lembrar do que a sua cara representa no imaginário dele e do grupo dele. É por isso que não adianta só não ser racista, o sistema que rege e orquestra a nossa vida pública, os nossos espaços, a nossa cultura e a nossa comunicação deve ser combatido, trincheira por trincheira.

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6 comentários sobre “Kataguiri, Sakamoto e o Japonês da Federal: experiências de pessoas públicas racializadas

  1. Excelente. É por isso que, na internet, eu não digo se sou homem ou mulher, branco, negro, brasileiro, mexicano e o diabo a quatro. Enquanto não tenho essa sorte na vida real, sigo fazendo virtualmente. Confunde um pouco as pessoas, elas não têm pedras contra o que não veem e isso é ótimo.

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