Vini Oliveira e Bolsonaro: de mãos dadas na instrumentalização do racismo

No dia 10/01, o deputado fascista Jair Bolsonaro veiculou em sua página do Facebook um vídeo intitulado “LIVROS do PT ensinam SEXO para CRIANCINHAS nas ESCOLAS. O vídeo conta com uma série de fatos falsos – desmentidos pela revista Nova Escola –, buscando deslegitimar a campanha “Escola sem homofobia”, do Governo Federal. Na compreensão de Jair Bolsonaro, educação contra a discriminação é “uma porta aberta para a pedofilia”. Enquanto o Brasil frequentemente aparece como líder de rankings de países que mais matam homossexuais e transexuais, ainda há gente que resiste às iniciativas de promoção da diversidade e combate aos discursos de ódio e à violência.

No vídeo, Bolsonaro veste a camisa da seleção japonesa de futebol, justificando-se pelo fato de o país ter, supostamente, um currículo escolar que dá ênfase à matemática avançada, e que isso dispensaria a necessidade da educação para a diversidade. Para além das atrocidades que comete em relação à luta LGBT, o deputado reproduz uma série de estereótipos sobre a sociedade japonesa, que fetichiza e distorce a complexidade de todo um povo, de forma a colocá-lo a serviço de seu ideal de civilização. É assim que opera o mito da minoria modelo, reduzindo e instrumentalizando um povo, para a manutenção de valores capitalistas e do domínio do mundo branco.  

Em resposta, no dia 17/01, o ‘cartunista de esquerda’ Vini Oliveira publicou uma ‘charge’ na qual a camiseta de Bolsonaro do time do Japão vem estampada com um patrocínio fictício de uma boneca sexual para pedófilos. Bolsonaro segura em mãos uma publicação com os dizeres ‘Espantalho Português’ e ‘É do Méqui’ [sic]. Após um certo esforço interpretativo, concluímos que o objetivo de Oliveira era critica-lo a partir da afinidade do deputado com o país da Ásia, lembrando-o que Esqueceu de tirar a camisa do país da pedofilia pra poder mentir’. Aparentemente, para o autor, as críticas de Bolsonaro associando diversidade sexual à pedofilia eram pura hipocrisia, já que o mesmo expressou admiração ao sistema educacional do ‘país da pedófilia’.

Antes de mais nada, jamais podemos deixar de problematizar as falhas do Japão em relação ao seu próprio modelo de patriarcado e infantilização de mulheres adultas. Entretanto, declarar o Japão como ‘país da pedofilia’, baseado em uma notícia de que uma empresa japonesa planejava fabricar bonecas sexuais para pedófilos, não contribui em nada além de exotificação, reducionismo e etnocentrismo. Reducionismo, porque a partir de uma única notícia, representa-se o Japão como ‘país da pedofilia’, o que contribui à construção da imagem de um país bizarro, perverso, exótico. Etnocentrismo, porque não se reconhece que a pedofilia e as mazelas do patriarcado estão presente em todos os cantos do mundo. A partir dos casos da Valentina do MasterChef e da Mc Melody, poderíamos também criticar o Brasil pela sua cultura patriarcal, seus casos de pedofilia e sua cultura de estupro, mas restringir a crítica a um país ‘outro’ é continuar a operar dentro da mentalidade colonial.

As imagens da perversidade e dos desvios da normalidade sexual foram constantemente parte integrante dos discursos colonizadores, e o construção de narrativas ocidentais sobre a sexualidade dos povos não brancos continua a ser um mecanismo de dominação. A ideia racista de países da Ásia como terras distantes e exóticas repletas de selvagens faz com que sejam objetos ideais para servir de chacota ou espantalho. Basta ver quantos artigos de ‘coisas estranhas que só tem no Japão/China’ que existem por aí, cuja inteira premissa é uniformizar milhões de pessoas com base em uma ou duas notícias que em maior parte das vezes são tiradas fora de contexto e mal traduzidas para que pessoas brancas possam rir e apontar na cara dos ‘aliens estranhos e exóticos’. No caso da charge, a desumanização de um país inteiro e de seu povo é aplicada em uma disputa, tanto pela direita, quanto pela esquerda, sem o constrangimento de estar instrumentalizando uma série de construções racistas para fundamentar uma argumentação.

A luta contra as opressões deve ser uma luta solidária. A crítica e a reflexão devem estar presentes. Enquanto a esquerda branca não entender que racismo, capitalismo e colonialismo andam juntos, continuaremos a reproduzir os sistemas de dominação, em vez de combatê-los. A revolução não será branca.

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