Boicote o Oscar descobrindo o Cinema e a TV feitos por asiáticos e asiáticas

Com a colaboração de Lucas Pascholatti e Walter Porto

O Oscar é uma celebração branca, e ninguém aguenta mais. Por isso, nas últimas semanas vimos crescer uma mobilização, partindo de artistas e coletivos negros estadunidenses, para boicotar a festividade, reivindicando maior representatividade de minorias. Jada Pinkett Smith, Spike Lee e Snoop Dogg foram porta-vozes de peso nesta movimentação. Alguns artistas brancos também resolveram se posicionar, por vezes favoráveis ao boicote, e algumas vezes bastante fora da realidade – nesta categoria, estão Charlotte Rampling, que disse que se tratava de ‘racismo contra brancos’  e o apresentador de um programa de auditório, Bill Maher, que atribuiu a falta de diversidade no cinema americano aos “asiáticos racistas”, que supostamente gerariam uma demanda exclusiva para consumo de histórias brancas.

Chegando à sua 88ª edição, o Oscar conta uma história na qual as minorias não participam. Atores e atrizes negras foram nominadas 56 vezes e premiadas apenas 15 vezes. Latinos e latinas, 14 nominações e 5 prêmios. Asiáticos e asiáticas, 11 nominações e 3 prêmios. Indígenas, somente 4 nominações e uma premiação. Esses números não dizem respeito somente à falta de apreciação do público geral a respeito da projeção artística de pessoas não-brancas, mas explicita também uma crise gerada pelo mercado de representações da cultura branca. A participação de artistas racializados na mídia muitas vezes fica restrita ao cumprimento de papéis ‘étnicos’, coadjuvantes, complementares, acessórios. Enquanto toda história contada, interpretada e representada por pessoas brancas serve de apologia a experiências e valores universais, se há uma história representada por mais de uma pessoa asiática, por exemplo, ela automaticamente se torna uma produção de nicho. O racismo institucionalizado na indústria cultural afeta a todos e todas, pois silencia as narrativas das minorias, violenta e instrumentaliza seus corpos e impede que nós, público não-branco, possamos nos reconhecer na vida cultural compartilhada.

Tomados desta consciência, falando sobre o que nos diz respeito, preparamos um pequeno guia para acompanhar o que vem acontecendo no mundo das produções asiáticas ou da diáspora, para cinema e televisão. Enquanto o mundo branco estiver se autocelebrando, na noite do Oscar, as minorias não-brancas continuarão lutando. Porque contar a nossa própria história, nesse mundo, é sempre uma batalha.

Guia: Descobrindo o Cinema e a TV feitos por asiáticos e asiáticas!

Prólogo: 10th Asian Film Awards – uma celebração que pode ser nossa

Dando início ao nosso guia, dia 3 de Fevereiro serão anunciadas as nomeações para a décima premiação do cinema asiático! As diferentes tradições de cinema da região, somadas a uma rica variedade de estéticas e temáticas contemporâneas são motivos suficientes para explorarmos e celebrarmos outros universos artísticos que não o mundinho etnocêntrio branco! Confira: http://www.asianfilmawards.asia/

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TV

Fresh Off the Boat (2015) – o favorito da diáspora

Inspirada na obra autobiográfica de Eddie Huang, uma personagem midiática dos EUA, a segunda série da história da TV estadunidense a compor um elenco inteiro de protagonistas asiáticos abre caminhos para toda uma nova cultura de produção audiovisual – Fresh Off the Boat teve um grande impacto na forma como as séries subsequentes Master of None, Dr. Ken e Quantico foram recebidas pelo público. No formato de um sitcom de família, a série apresenta a vida cotidiana de imigrantes taiwaneses e seus filhos estadunidenses, que tentam se adaptar à vida branca dos subúrbios de Orlando. A estreia, em 2015, agitou as redes sociais e foi assunto de todos os canais de comunicação de jovens de ascendência asiática nos EUA, justamente por contar uma história que permite que milhares e milhares de pessoas encontrem uma identificação, que diz respeito a sua história e, principalmente, à sua geração. Fresh Off the Boat fala de racismo com sensibilidade e apresenta um humor aprazível ao público geral, sem restrições. Escalada para a produção, temos uma mulher de origem iraniana, Nahnatchka Khan. Como destaque, temos a maravilhosa atriz Constance Wu, nominada duas vezes para o Critics’ Choice Television Award como Melhor Atriz em série de comédia.    fresh.jpg

 

Master of None (2015)  – a unanimidade

Produzida por Alan Yang, Aziz Ansari e o Netflix, sucesso de público e crítica, premiada pelo Critics’ Choice Television Award como Melhor série de comédia, Master of None foi a prova de que um programa não precisa ser embranquecido para ter uma boa repercussão. Com um formato bem original, cada episódio da série trata de um tema específico da juventude da nossa geração. Feminismo, racismo, representatividade e estereótipos na mídia, a memória imigrante, as mudanças que os 30 e poucos trazem, são temas presentes, tratados com o devido respeito que a contemporaneidade exige. Ao receber o prêmio do Critics’ Choice, Alan Yang agradeceu a “todos os homens brancos héteros que dominaram o cinema e a televisão, tão fortemente, por tanto tempo, que histórias sobre qualquer outro tipo de pessoa parecem novas e originais”.

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Dr. Ken – a redenção

Como fã da série Community, sempre fiquei incomodado com o papel que o Señor Chang (Ken Jeong) cumpria: um asiático muito intenso e caricato, um antagonista acessório, um outsider bizarro. De uma forma ou de outra, Ken Jeong acabou representando muitos personagens exagerados e ridicularizados, como por exemplo, Mr. Chow, o vilão da série Se Beber, Não Case. Em Dr. Ken, apesar de não ter sido muito bem recepcionado pela crítica, Jeong é finalmente um protagonista e não uma caricatura. A série apresenta um humor familiar leve e muito bem digerível, além da estrela-mirim Albert Tsai (que também faz um bico em Fresh Off the Boat).

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Quantico – nas graças do público

Quantico é um tradicional thriller policial sobre uma trainee do FBI envolvida na investigação de um ataque terrorista. Longe de ter chamado a atenção dos críticos, a série teve uma ótima recepção de público, garantindo a Priyanka Chopra, estrela indiana estreante na TV americana, o prêmio de Atriz Favorita em Série Nova do People’s Choice Awards.

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Cinema

Segue abaixo dicas sobre filmes asiáticos que podem ser vistos enquanto boicotamos a 88ª edição do Oscar:

Sabor da Vida (2015): Único filme asiático atualmente em cartaz nos cinemas de São Paulo. O filme conta a história de Sentaro, dirigente de uma padaria de dorayakis (deliciosas panquecas recheadas com doce de feijão), quando uma idosa, Tokue, se oferece para ajudá-lo na cozinha. Após relutar em aceitar sua ajuda, Sentaro descobre que Tokue tinha uma poderosa receita secreta, despertando uma profunda relação entre os dois. Dirigindo pela celebrada Naomi Kawase, com duração de 113 minutos. Pode ser visto no Espaço Itaú de Cinema, Rua Augusta.

Prêmios: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Audiência), Cork International Film Festival (Audiência), Hochi Film Festival (Melhor atriz – Kirin Kiki).Valladolid Film Festival (Melhor diretora – Naomi Kawase), mais três nomiações. http://www.imdb.com/title/tt4298958/awards?ref_=tt_awd

 

Tui na (2014): Drama chinês que conta a história dos empregados de uma casa de massagem em Nanjing, a diferença é que todos esses funcionários são deficientes visuais. O filme é dirigido por Ye Lou, com duração em 114 minutos e falado em mandarim.

Prêmios: 18 prêmios e 10 nomeações, incluindo “Melhor Filme” no Festival Asiático de Cinema. http://www.imdb.com/title/tt3469964/awards?ref_=tt_awd

 

A Assassina (2015): História que se passa na China do século XVII, onde uma assassina treinada nas artes marciais desde a infância recebe a missão de eliminar um líder político, pelo qual fora prometida como esposa e que mantinha o maior exército do norte chinês. Dirigido por Hsiao-Hsien Hou e tem a duração de 105 minutos, em mandarim.

Prêmios: Melhor diretor, festival de Cannes 2015. Incluindo mais 10 premiações e 42 nomeações. http://www.imdb.com/title/tt3508840/awards?ref_=tt_awd

 

Para o Outro Lado (2015): Yusuke se afogou há três anos, enquanto isso Mizuki, sua esposa, não se impressione ao vê-lo voltar, três anos mais tarde, pelo contrário, irrita-se pelo fato dele ter demorado tanto. Em seguida, Mizuki aceita ser levada a uma viagem por Yusuke. Dirigido por Kiyoshi Kurosawa (não é parente do Akira), 127 minutos de duração.

Prêmios: Un Certain Regard, diretor Kiyoshi Kurosawa, em Cannes 2015. Mais quatro outras indicações. http://www.imdb.com/title/tt4173478/awards?ref_=tt_awd

 

Nossa Irmã Mais Nova (2015): Drama japonês que conta a história de três irmãs que vivem com sua avó, mas que tem suas vidas mudadas após a vinda de uma meia irmã de treze anos de idade. Por Hinokazu Koreeda, 128 minutos.

Prêmios: Vencedor de 5 prêmios e 2 nomeações, incluindo Palma de Ouro de Cannes. http://www.imdb.com/title/tt3756788/awards?ref_=tt_awd

 

Dohee-ya (2014): Drama sul coreano, com Doona Bae (conhecida por interpretar Sun em Sense8) vencedora do prêmio de melhor atriz no Asian Film Award. O filme conta a história de Young-nam, uma jovem promissora da academia de polícia, transferida para uma vila periférica, devido a suas más condutas de comportamento. Em seu primeiro dia na vila conhece Dohee, uma garota local. Enquanto tenta se acomodar com o nome local, Young-nam passa a ter que lidar com um acidente que ocorre na vida de Dohee, enquanto tenta protege-la dos abusos de seu padastro, abrigando-o. Youg-nam passa a ter que lidar com situações cada vez mais misteriosas.

Prêmios: Vencedor de quatro prêmios, incluindo o prêmio de melhor atriz para Doona Bae, e 14 nomeações. http://www.imdb.com/title/tt3661798/awards?ref_=tt_awd

 

Descubra mais:

WildGrounds, filmes asiáticos – Para quem quiser acompanhar tudo o que acontece por dentro do cinema asiático, acompanhem o canal WildGrounds http://www.wildgrounds.com/

7 atrizes asiáticas que merecem estar em evidência: http://news.yahoo.com/7-asian-actresses-could-change-235000217.html

 

Publicações do Movimento Negro sobre o embranquecimento inerente ao Oscar:

O Racismo que Exclui, Desvaloriza e Mata http://www.geledes.org.br/o-racismo-que-exclui-desvaloriza-e-mata/

O boicote necessário dos negros à festa branca do Oscar http://www.geledes.org.br/o-boicote-necessario-dos-negros-a-festa-branca-do-oscar-por-cidinha-da-silva/

11 filmes de hollywood previstos para 2016 com protagonistas negros http://www.geledes.org.br/11-filmes-de-hollywood-previstos-para-2016-com-protagonistas-negros-2/

 

Discurso de Viola Davis ao receber o prêmio de Melhor Atriz em Drama, na celebração do Emmy: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/21/cultura/1442859738_251035.html

Angry Asian Man: Todos os asiáticos no filme Star Wars: O despertar da Força.

 

 

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