A japonesa que ouve rap: a não individualidade da pessoa de cor

Idas e vindas a drogarias e laboratórios não são raras, uma vez que a minha lista pessoal de patologias e sintomas do DSM não cabe no sentido estrito de “breve”.

Depois do segundo ou terceiro ano, já estava acostumada com os formulários que pedem nome completo, contato, CEP, RG, CPF, número de lote, assinatura de quem vende e quem compra, retenção da receita, “não realizamos troca” e as tantas formalidades da venda legal dessas tarjas controladas. Você também se acostuma com os eventuais comentários – ligeiramente desagradáveis, às vezes um tanto constrangedores, porém bem-intencionados o suficiente para serem ignorados – sobre a quantidade de medicações.

Um dia desses, no entanto, um funcionário me surpreendeu. Enquanto eu vagava entre as sessões de pasta de dente e desodorantes à procura da dipirona sódica, a cura para a ocasional dor de cabeça paulistana, ele me abordou com um sorriso meio tímido, meio curioso:

— Moça, você precisa de ajuda?

Apesar de saber muito o bem o que ele tinha perguntado, tirei os fones de ouvido e, por educação:

— Perdão?
— Precisa de ajuda?
— Ah, não, não preciso. Obrigada.

Continuei apreciando as escovas de dente e os fios dentais. Alguns segundos depois, notei que ele ainda estava me olhando. No momento seguinte, ele resolveu se manifestar:

— Você gosta de rock pesado? Tipo, heavy metal?

Naquele instante, achei a situação hilária. Primeiro porque eu estava vestindo o que estivera ao alcance naquela manhã; segundo porque eu estava ouvindo Anaconda. Meu guarda roupa de fato varia quase que exclusivamente dentro de um espectro de cinzas escuros e pretos, mas, embora essa tenha sido minha realidade desde a adolescência, era a primeira vez que alguém questionava meu gosto musical como se estivéssemos num quadrinho de Facebook.

tipo isso

Tipo isso. Fonte: ryotiras.

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