A japonesa que ouve rap: a não individualidade da pessoa de cor

Idas e vindas a drogarias e laboratórios não são raras, uma vez que a minha lista pessoal de patologias e sintomas do DSM não cabe no sentido estrito de “breve”.

Depois do segundo ou terceiro ano, já estava acostumada com os formulários que pedem nome completo, contato, CEP, RG, CPF, número de lote, assinatura de quem vende e quem compra, retenção da receita, “não realizamos troca” e as tantas formalidades da venda legal dessas tarjas controladas. Você também se acostuma com os eventuais comentários – ligeiramente desagradáveis, às vezes um tanto constrangedores, porém bem-intencionados o suficiente para serem ignorados – sobre a quantidade de medicações.

Um dia desses, no entanto, um funcionário me surpreendeu. Enquanto eu vagava entre as sessões de pasta de dente e desodorantes à procura da dipirona sódica, a cura para a ocasional dor de cabeça paulistana, ele me abordou com um sorriso meio tímido, meio curioso:

— Moça, você precisa de ajuda?

Apesar de saber muito o bem o que ele tinha perguntado, tirei os fones de ouvido e, por educação:

— Perdão?
— Precisa de ajuda?
— Ah, não, não preciso. Obrigada.

Continuei apreciando as escovas de dente e os fios dentais. Alguns segundos depois, notei que ele ainda estava me olhando. No momento seguinte, ele resolveu se manifestar:

— Você gosta de rock pesado? Tipo, heavy metal?

Naquele instante, achei a situação hilária. Primeiro porque eu estava vestindo o que estivera ao alcance naquela manhã; segundo porque eu estava ouvindo Anaconda. Meu guarda roupa de fato varia quase que exclusivamente dentro de um espectro de cinzas escuros e pretos, mas, embora essa tenha sido minha realidade desde a adolescência, era a primeira vez que alguém questionava meu gosto musical como se estivéssemos num quadrinho de Facebook.

tipo isso

Tipo isso. Fonte: ryotiras.

De qualquer forma, disse que sim, gosto de um estilo mais pesado. Afinal, Metallica e Pantera ainda estão entre minhas bandas favoritas, mesmo que isso não signifique muita coisa na minha opinião. O funcionário ficou estranhamente surpreso e deu continuidade à conversa enquanto eu rezava para que ele não entrasse no mérito da distinção entre gêneros do metal. É um papo chato que pode se prolongar dependendo do quão pretensioso seu interlocutor é.

Porém, ele parecia estar muito mais investido em descobrir sobre mim. Perguntou minha banda favorita (não tenho) e sobre o que eu ouço (praticamente de tudo), etc. E finalmente perguntou o que eu estava ouvindo. Quando eu disse Nicki Minaj, esperava tudo menos a reação que ele teve.

— É rock japonês?

Fiquei sem reação. Disse que não, que era a Nicki, a rapper americana.

A curiosidade dele de repente se transformou em fascínio, do tipo que brilha nos olhos de um cientista perante uma descoberta revolucionária.

— Você ouve rap?! Como assim!

É… eu ouço.

— Mentira! Nossa… nunca vi uma japonesa que ouve rap! Você não é japonesa de verdade, é?! Não é possível!

Meu desconforto cresceu exponencialmente. Sem graça, eu disse que minha ascendência é legítima, sim. Não argumentei que não me considero japonesa, mas sim Uchinanchu, e resolvi não apontar que etnia e nacionalidade são coisas diferentes, porque não queria dar nenhuma brecha para aquilo continuar. Ele exclamou mais algumas interjeições e eu lidei com elas só balançando a cabeça.

Depois de me desvencilhar da conversa, fui mais metódica e peguei o que eu procurava, paguei tudo no caixa e fui embora numa velocidade recorde para quem gosta de fazer tudo com calma num sábado de manhã.

Fiquei genuinamente perplexa com o que tinha acontecido. Fiquei me perguntando: o que japoneses ouvem, afinal? Ou melhor, o que as pessoas acham que japoneses ouvem?

Massificação e exclusão

Depois que o choque inicial passou, vagas lembranças de cenários similares começaram a surgir. Numa análise nem tão profunda, é fácil de reconhecer que em todas essas ocasiões há dois pontos em comum.

Quando a ascendência de um asiático explica, quase que lógica e empiricamente, uma performance acima da média, ou quando se fala da tal “cultura oriental”, ou uma mulher asiática é considerada “diferente” por ser extrovertida e engraçada, ou o pênis de um homem asiático é isso ou aquilo – tudo isso expressa a massificação de quem somos e não somos, e a remoção de asiáticos da realidade brasileira como se fôssemos inteiramente incompatíveis com ela.

Processo cognitivo vs. estereótipos

Pela aparência, esperamos que as pessoas ajam de uma forma ou de outra até que elas provem ou refutem nossa suposição de quem elas são; expectativas são naturais e um meio através do qual lidamos com todos à nossa volta. Mas quando se trata de minorias de todo e qualquer tipo, um indivíduo se agarra teimosamente a um determinado conjunto de crenças preconcebidas sobre o grupo do qual ele não faz parte, delimitando sua singularidade, mas negando a individualidade do outro.

O Leste Asiático tem costumes que indubitavelmente contrastam com o Ocidente, cada nação tem suas tradições. Mas há uma dualidade rigorosa na forma em que somos vistos. Nossa ascendência é uma categoria que está constantemente justificando nossas habilidades e comportamentos, sem nos permitir nuança nem personalidade, continuamente nos classificando como parte do grupo ou exceção dele.

O Brasil tem caras e cores, mas nosso fenótipo continua estrangeiro; nunca estamos no nosso país, nunca é a nossa origem. Preservar a cultura é um privilégio que muitos não tiveram – mas as nossas são iguarias, um tipo de espetáculo estranho que beira ao bizarro. Nossas mesas servem golfinho ou cachorro, o nosso arroz é empapado e sem gosto. Nossas meninas são ensinadas a serem submissas, quase que treinadas. Temos que saber a língua ou simplesmente não somos. Tudo é rígido dentro de casa, nossos pais se comportam invariavelmente da mesma maneira.

“Eles” sabem tudo sobre “nós”: como agimos e pensamos e sentimos, porque tinham aquela vizinha, ou aquele colega de trabalho, ou um conhecido no clube que era como “nós”. Somos o Outro unificado, simplificado e previsível num coletivo de fácil compreensão. O que “eles” sabem são suposições que o estereótipo dita, é a identidade própria que nos é roubada.

Nossa ancestralidade se torna um artifício usado para tirar o que é particular de cada um, defendendo o discurso de que a raça traz algo de intrínseco em si – exceto pelo branco, o não racializado. Todos os Outros, agrupados em diversas minorias, são tomados pelos papeis do imaginário da maioria.

Mas não somos uma massa homogênea do mesmo. Não somos um “vocês orientais”. Não somos o estranho porque “eles” são a norma. Não é nossa obrigação imitar uma caricatura de personalidade unidimensional, quase inexistente, seguindo um padrão do que devemos ser sob a ameaça de sermos invalidados. Cada um de nós faz parte do “nós”, mas somos também um “eu” que foi formado através possibilidades que convergiram em experiências distintas, dando forma a cada aspecto do que nos torna únicos.

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