Diversidade é uma piada e o Oscar é a prova disso

 

Estie Kung, 8, filha de mãe branca e pai asiático-americano, tornou-se uma celebridade mirim no programa “Man vs. Child: Chef Showdown”, em que chefes adultos e chefes crianças se desafiam na cozinha. Com o sucesso internacional do programa, Estie saiu em turnê em Hong Kong, em Singapura, nas Filipinas e na Malásia, concedeu mais de 50 entrevistas e encontrou seu rosto estampando grandes anúncios nas laterais dos ônibus.

No último dia 28, Estie foi uma das três crianças de origem asiática a servirem de escárnio na apresentação do grande piadista Chris Rock. “Como sempre, os resultados da premiação desta noite foram tabulados pela empresa de contabilidade PricewaterhouseCoopers. Eles nos enviaram seus mais dedicados, precisos e aplicados representantes: Ming Zhu, Bao Ling e David Moskowitz“, chamando as crianças ao palco. Se alguém se ofendeu com esta piada, basta tuitar sobre isso em seu telefone, que também foi feito por estas crianças, conclui. Na majestosa farsa que é a mídia branca se esbaforindo por diversidade, à promissora Estie sobrou um único papel: o estereótipo. E como única representação possível no imaginário branco, mais uma vez, asiáticos são não mais que mão de obra a ser explorada. Tudo isso em uma hilariante piada sobre trabalho infantil.

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“Expor criancinhas no palco, sem nenhuma fala, simplesmente para servir a uma piada racista é reducionista e nojento. Antítese de progresso.”

 

Por um momento, o nosso lado otimista até encontra aconchego nas reações públicas indignadas das nossas celebridades favoritas, como Constance Wu, estrela da série Fresh off the Boat e Jeremy Lin, nosso mais querido jogador da NBA. Mas ninguém esperava que teríamos de nos rebaixar ao nível de PIADA DE PINTO. Como fez Sacha Baron “O Racismo Está Nos Olhos de Quem Vê” Cohen, ator de Borat. Como pode não ter nenhum Oscar para esse esforçado povinho amarelo de pinto pequeno? Vocês sabem os minions.”

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“Sim, Sacha Baron Cohen fez uma piada sobre pintos asiáticos. Esse programa é uma pilha de lixo.”

Pois é, o circo foi montado e nós somos a atração. Hollywood é o show de horrores privativo do público branco. E nós somos as aberrações. Enquanto isso, apreciamos os aplausos fortes demais quando Chris Rock desdenha da mobilização de artistas negros e negras que optaram por não participar desse contínuo massacre, da violência do silenciamento. O discurso de Chris nos deixa confusos, não sabemos se ele está sendo um gênio incisivo ou completo idiota, mas os brancos seguem aplaudindo e não é por acaso. Não se trata de Chris e muito menos das vidas negras. Quem está sendo ovacionado é a culpa e a condescendência branca. Porque este Oscar é o Oscar da diversidade.

Falemos a verdade, diversidade é como os brancos falam de raça quando se sentem desconfortáveis pra falar de raça. Diversidade é uma nova commodity. Hoje, já podemos encontrar diversidade logo ao lado da seção de orgânicos. A diversidade, produto na prateleira, não tem passado e não tem valor em si e só adquire significado enquanto transação. A diversidade é um preço que o mundo branco pode pagar. Mas raça, por outro lado, é história. E história não se resolve pagando.

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Estie Kung dominando tudo. Foto: Cortesia de Laura Kung, publicada no portal pri.org

Para ler mais:

*Créditos da foto: Mario Anzuoni/Reuters

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