Globo faz novela sobre imigração japonesa e os protagonistas são brancos #boicoteamarelo

“Luís Melo vai interpretar o patriarca da família japonesa de “Sol nascente”, próxima novela das 18h.” foi a notícia que interpelou a nossa rotina tranquila desta segunda-feira (11), veiculada pelo blog televisivo de Patrícia Kogut. Em tese, a série trata de um patriarca japonês que imigra para o Brasil na década de 60 e ele e suas filhas vão viver as mais loucas aventuras, incluindo muito drama romântico com pares brancos, na vila fictícia do Arraial do Sol Nascente. Das 30 pessoas cotadas e/ou confirmadas para o elenco, divulgados por aí, apenas 4 são de fato amarelas (Dani Suzuki, Carol Nakamura, Geovanna Tominaga e Miwa Yanagizawa) e menos ainda são negras. Outra estrela confirmada é Giovanna Antonelli. Ainda não está bem claro se o seu papel será de filha do tal patriarca, filha adotiva, ou melhor amiga da Dani Suzuki, mas já está muito bem definido que ela será a protagonista. O par romântico cotado é o Bruno Gagliasso, que fará o papel de um filho de italianos. O ator também esteve envolvido na interpretação de uma personagem transexual na série internacional “Supermax”, ou coisa que o valha.

O recurso empregado pela Globo não é novidade, a mídia normativa e tradicional utiliza-se destes artifícios para transformar histórias “étnicas” em narrativas mais apetecíveis ao público geral (leia-se: público branco). As narrativas tradicionais ocidentais estão sempre em busca de construir trajetórias universais, falar sobre temas essenciais e construir arquétipos bem definidos nos quais as pessoas possam se espelhar, obviamente, fabricando modos de vida moral e subjetiva que se enquadrem nas expectativas de normalidade. Por outro lado, histórias “étnicas” só encontram serventia enquanto representarem aquilo que for exótico e diferente, desviante e até ridículo.

Na terminologia dos movimentos sociais, principalmente derivada da crítica que surge dentro dos Estados Unidos, esse fenômeno é conhecido como whitewashing. O whitewashing, enquanto recurso da construção civil e do design de interiores, consiste em jogar uma tinta branca barata feita de cal por cima de uma parede colorida. A prática tornou-se inclusive um grande fetiche, por permitir uma aparência rústica com aspirações bem ajeitadas. Dentre os vários usos políticos, o termo é utilizado também para descrever o embraquecimento das narrativas das minorias étnico-raciais. A reminiscência de algo que já foi colorido e plural assegura o discurso da inclusão e da diversidade e a demão de branco apaga os rastros desviantes, garantindo a boa deglutição da indústria cultural.

Como desdobramentos desse tipo de prática, temos a reiterada invisibilização e o esquecimento das histórias não-normativas, que reproduzem e reinventam um único modo de ser. Acontece que as minorias nunca fizeram parte da história em sua plena potencialidade, com suas contradições e subsequente valor transformativo. A trajetória das minorias políticas é homogeneizada, pasteurizada e apresentada da forma que melhor convir. Nós, amarelos e amarelas, descendentes de imigrantes, não sabemos falar da nossa própria experiência enquanto construção sócio-histórica, uma vez que a os modelos dados de representação já falam por nós. Somos constantemente silenciados e apagados das dinâmicas do nosso tempo, porque justamente não sabemos nos situar nele. Os nossos corpos estão inteiramente à disposição dos desejos alheios e a nossa existência torna-se mais um problema a se questionar. As clássicas indagações da vida moderna “de onde viemos?” e “para onde vamos?” ou, em outras palavras, “por que existimos?”, para nós é apresentada como “será que eu existo?” ou, reformulada, “eu deveria existir?”. A minha cara não está nunca em público. Eu não me reconheço nas formas de existência que são apresentadas. Eu não me sinto representado.

A representatividade foi um grande tema na celebração do Oscar 2016. Pela iniciativa de artistas negros e negras e de movimentos sociais organizados, a crítica à inexistência de artistas não-brancos indicados para as grandes categorias da premiação provocou uma série de discussões. Não se trata da assimetria dos talentos, mas da falta de oportunidades. A indústria não investe naquilo que não é normalizado e os papéis que surgem para as minorias geralmente são interpretações de estereótipos. A produção do Oscar se mobilizou e tentou criar um espaço de reflexão sobre a tal da diversidade. Nos termos brancos de ser. E às custas da raça amarela, mais uma vez.

Voltando à novela, preocupa ainda a inadvertida apropriação cultural em curso. “Minha cultura está na moda, mas eu não”. Enquanto tratar do exótico pode ser um recurso caro ao entretenimento em massa, não é de interesse geral abrir-se para viver a diferença. A pessoa acha lindo te consumir enquanto mais uma mercadoria, mas não está disposta a aceitar as consequências de te enxergar enquanto um agente de conflito, de dissonância. Então, quer dizer que o Luís Melo vai se fantasiar da minha raça. Vai vestir uma interpretação branca sobre o que significa ter a minha cara. E provavelmente o público vai achar graça, porque a minha cara é engraçada. Mas a minha história não. Ano passado, a peça de teatro “A mulher do Trem”, do grupo Os Fofos, foi cancelada por valer-se do blackface como recurso cênico. É 2016 e a gente ainda não superou isso. A pessoa até passa tinta na cara,  veste-se de kimono, bota cocar no dia do índio, redface, brownface, yellowface, a imaginação do dominador não tem limites, mas quem sente o peso de sua imagem sendo violentada não tem como tirar a maquiagem quando tudo acaba.

Finalmente, chama atenção o fato das únicas pessoas amarelas cotadas para o programa serem mulheres. Não é por acaso. A mulher asiática significa no imaginário branco a possibilidade única e fatalista da dominação e da submissão. O homem asiático não é mais do que uma peça da engrenagem, sem desejo e sentidos próprios. No começo do século XX, quando o Brasil engata seu projeto de modernização branca, já descartada a possibilidade de fomentar a imigração chinesa, pelas várias representações racistas que se tinha a seu respeito, uma série de missões pseudo-científicas vai ao Japão para se admirar com os tensionamentos do que se acreditava ser o encontro do tradicional com o moderno. Nas palavras do historiador Jeffrey Lesser:

“Constratando homens modernos e engravatados com mulheres japonesas, dóceis, domésticas e totalmente não-modernas, os brasileiros afirmavam sua superioridade primeiro-mundista (isto é, europeia) e, simultaneamente, expressavam seu senso de inferioridade terceiro-mundistas (isto é, brasileiro) […] A dualidade com relação aos gêneros, portanto, permitia às elites representarem a si próprias como totalmente modernas e avançadas, embora suas opiniões deixem claro que elas eram conservadoras e tradicionais” (Jeffrey Lesser, 2001, p. 270)

Hipersexualizar a mulher asiática e, simultaneamente, castrar o homem asiático é um projeto político inerente à trajetória da modernização capitalista e masculina da nação brasileira. Não há nada de natural nestas escolhas da Globo, bem como não se trata de uma mera falha de caráter. A novela “Sol Nascente”, assim como a série “O Sexo e as Negas” e, praticamente, toda a produção desta e de todas as outras emissoras e canais de mídia hegemônicos levam a cabo um modelo de sociedade ao qual não devemos e nem podemos nos submeter. O boicote é imperativo e a crítica radical se apresenta como uma alternativa na qual podemos reivindicar a nossa própria forma de produzir a nossa existência coletiva.

Para ler mais:

Huff Post: 25 vezes que negros, latinos, índios e asiáticos foram substituídos por brancos

Blog Outra Coluna: Guia de boicote asiático ao Oscar

Blog Outra Coluna: Diversidade é uma piada e o Oscar é a prova disso

Tess Paras: “Typecast”

Alex Dang: “What Kind of Asian Are You?”

Jeffrey Lesser. A negociaço da identidade nacional: Imigrantes, minorias e lutas pela etnicidade no Brasil. 2001, Editora UNESP.

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12 comentários sobre “Globo faz novela sobre imigração japonesa e os protagonistas são brancos #boicoteamarelo

  1. Gostei do texto, super bem escrito e concordo com ele, não é aceitável que em país como o nosso, em que brancos correspondem menos da metade de sua população total, as outras etnias(principalmente da população negra) sejam invisibilizadas PROPOSITALMENTE(o tal #whitewashing).

    AGORA nesse trecho da conclusão eu fiquei confuso: “Hipersexualizar a mulher asiática e, simultaneamente, castrar o homem asiático é um projeto político inerente à trajetória da modernização capitalista e masculina da nação brasileira”
    O QUE seria “modernização capitalista e masculina”?
    e O QUE o “capitalismo” tem a ver com isso??

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  2. Isso é responsabilidade de quem deu o tanto de audiência que tiveram essas novelas estilo O Clone e Caminho das Índias com essa pseudo-cultura de outros países sendo tratadas como yakisoba de miojo e interpretadas à sátira quase as tornando em piada. Juntamente com a famosa expressão “japa” e “olho puxado” isso é o que temos dos resultados rápidos e práticos conseguidos nessas encenações desonestas e grosseiras de culturas tão complexas e equivalentemente mal compreendidas por um povo despreparado pra um aprendizado profundo sobre a real vivência e características exóticas para nossos padrões desses países.

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  3. Quando eu vi que a Globo lançaria uma novela falando sobre imigração japonesa, a primeira coisa que pensei foi “OI? Mas não tem atores japoneses suficientes na Globo para compor um elenco inteiro”…

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  4. Muito boa a matéria. Isso é uma coisa estranha dá uma conotação preconceituosa e discriminatória, chegando a ser racista para representar os orientais, me dando a impressão de um “branqueamento”, tanto como o ator com durex no rosto, como o black-face. Mas que é muito estranho é, fora do lugar de um país como o nosso que foi criado e desenvolvido por uma pluralidade étnica e multicultural.

    Seria quase a mesma coisa que eu fosse interpretar uma outra pessoa dentro de um contexto representando uma minoria étnica mudando até minha aparência e ainda de forma esteriotipada. Isso não é ético fazer, eu nunca não teria o direito de interpretar um afro-descendente, mudar minha aparência, tingir os cabelos, colocar lentes de contato etc dentro desse contexto. Nesse caso, até por uma questão de verossimilhança, deveria ter contratado um ator já dentro do perfil oras. Mesmo no teatro que não há a necessidade tanto da verossimilhança, mas nesse caso é evidente o “branqueamento”.

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  5. A mais de 100 anos a mídia brasileira nos tratou de forma racista tentando a todo custo nos mostrar de forma pejorativa, ridicularizada, satirizada e ironizada, as propagandas zombatórias parece que cessaram já a uns 5 anos, talvez com medo de processos porque a nova geração de orientais, com mais estudo e consciência política, não mais está disposta a aceitar calada determinado tipo de coisas, agora que deveriam nos mostrar porque querem mostrar orientais, querem colocar brancos no nosso lugar, negando nossa existência quando se trata de papéis de respeito e ou protagonistas, só querem nos mostrar de forma ridicularizada e estereotipada, não devemos aceitar isso calados, devemos protestar, nos unir, se preciso for nos unirmos em viagens e caravanas para tal.

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  6. A rede Globo ainda teve estar achando que está enriquecendo a cultura de quem assiste novela.
    Eu nao aguentava o Programa da Xuxa e suas paquitas tingidas. Quantas meninas queriam ser paquitas, eles só colocavam meninas claras, e no carnaval uma Globeleza mulata, e resto do ano mulata, era só empregada ou prostituta. Asiaticos, sempre com restaurante japones. A india nua sempre terminava com o branco vencedor, e o indio morto ou perdia a india para o branco dito civilizado.

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  7. O que a Globo e a mídia em geral precisam entender é que ver só brancos na TV não é o mais “apetecível para o público geral”… Pelo contrário, o público geral não é branco e começa a se cansar de tanta falta de representatividade.
    Pra variar, não verei esta novela pois me parece até ridículo que o patriarca de uma família japonesa seja um homem branco. Me uno ao boicote amarelo!
    #senaomevejonaocompro #senaomevejonaoassito #boicoteamarelo

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  8. Ótimo texto! A Globo tem saudades dos tempos da ditadura até nas novelas! Não aprendeu nada com a patética A Cabana do Pai Tomás em que Sérgio Cardoso se sujeitou e aceitou fazer um blackface, entre 1969/70? Já pensou que coisa mais maluca seria se um asiático fosse fazer o papel de um branco? Vamos boicotar ainda mais a Globo!

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  9. O sucesso individual depende basicamente de três fatores: esforço pessoal, talento e oportunidade. Os japoneses e seus descendentes, desde muito cedo, são orientados a vencer na vida pelo esforço, porque acreditamos que são raríssimos os que nascem com talento suficiente para vencer na vida sem precisar de muito suor. Daí que a grande maioria dos descendentes de japoneses estudam e trabalham com esforço e dedicação para terem uma vida confortável mesmo que sem grandes luxos. Este é o motivo porque temos tantos dentistas, médicos, engenheiros, advogados, administradores de empresa e outros profissionais de curso superior e quase nada de artistas famosos. Isso vai demandar tempo, pouco a pouco vão começar a aparecer jovens nikkeis com talento, que irão se infiltrar lentamente no mundo artístico e daqui a duas ou três gerações e, certamente, uma novela contando a história da imigração de nossos pais e avós, poderá ter elenco todo de olhinhos puxados. Não vejo porque essa revolta toda sobre um assunto tão banal. Qual o ator nikkei poderia fazer o papel principal? Mesmo não sendo conhecedor do assunto, acho que não tem nenhum com talento e bagagem para tal. Mulher, sim, temos a bela e talentosa Dani Suzuki. Mas para por aí, o resto é para figuração. Quanto ao boicote, o meu dura já 36 anos. Desde que nasceu meu primeiro filho, nunca mais assisti novela, nem da Globo e nem de outra emissora. E o parágrafo final do texto foi muito infeliz. Como hipersexualizar a mulher asiática, que tem peitos pequenos e as pernas curtas e grossas? Quanto a castrar o homem asiático, nenhuma política precisa se preocupar, a natureza já se encarregou em grande parte do assunto.

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  10. Ótimo texto!
    É estranho a Globo não promover atores nipo-brasileiros para o elenco, quem vai ser o filho? Gianechinni? Rorschach
    Encontrem mais japa para para o elenco #redeglobo!

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