Memórias da resistência asiática na ditadura civil-militar

História e Memória são campos de batalha. Os verbos que acompanham esses nomes sempre provocam tensionamento: narrar ou contar uma história, explicar ou revisar uma memória. Falar do tempo implica uma geografia historicamente situada, uma forma de ser, uma visão cosmológica, uma vontade direcionada. História e memória são falas políticas, ou políticas de fala. O fascismo apagou línguas para que não falassem mais pelas suas próprias palavras. O colonialismo impôs suas línguas para que só se falasse através das verdades estabelecidas e apresentadas. O sonho do liberalismo é que a história fique restrita ao passado e que a memória não seja mais do que capacidade de processamento das transações do aqui e agora. O dominador moderno apaga as possibilidades do sujeito, transforma tudo em objeto e cria representações que melhor convêm às suas próprias vaidades.

Aprendemos a questionar a história oficial e a bater de frente com a memória do vencedor, e já o fizemos mais de mil vezes. Entretanto, às vezes não nos damos conta de que até a história da resistência configura moldes hegemônicos e trajetórias normativas. A história marginal também é contada por homens brancos e, enquanto isso, os rastros de nossa existência são meros espectros residuais em uma realidade ilusória e fetichizada.

Hoje, em meio à crise da democracia liberal e da liberdade que os oprimidos de sempre nunca viveram, recobramos nossas memórias para por em curso a história pela qual lutamos. Antagonizamos aqueles que prestam homenagens a torturadores da ditadura e combateremos até o fim o avanço conservador e autoritário do republicanismo colonial, racista e golpista. Hoje, contamos a história de pessoas asiáticas que morreram, desapareceram e/ou foram torturadas na ditadura civil-militar. Revolucionários, radicais, militantes que dedicaram suas vidas à luta contra o fascismo. É também pela memória dessas pessoas que seguimos em luta pela libertação de todos os povos, pela autonomia popular e pela emancipação da classe trabalhadora. E reivindicamos: existe uma história que ainda é marginal, porque ela é radical, porque ela não foi embranquecida, e nós nos juntamos a ela!

Os relatos reunidos aqui e os trechos reproduzidos foram coletados da Comissão Estadual da Verdade e não teriam tomado forma como parte de uma narrativa maior se não fosse o esforço do Projeto Abrangências e de todos/as envolvidos/as. Também foi coletado um relato do portal Memórias da Ditadura e do Museu da Pessoa.

Para que nunca mais aconteça:

Memória da resistência asiática na ditadura civil-militar brasileira.

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Suely Yumiko Kanayama

Era a primeira filha de um casal de imigrantes japoneses. Com 4 anos de idade, mudou-se com a família para Avaré (SP). Em 1965, vieram para a capital paulista residir no bairro de Santo Amaro. Estudou licenciatura em língua portuguesa e germânica na Universidade de São Paulo. Na USP, tornou-se amiga de Rioko Kaiano e, juntas, ingressaram na Ação Popular (AP). Mais tarde, Nair Kobashi, as convidou para militarem no PCdoB.

Em fins de 1967, e nos anos que se seguiram, as principais lideranças estudantis foram perseguidas e passaram a viver na clandestinidade ou no exterior, e novas lideranças surgiram. Suely foi uma delas. Chegou à região próxima do rio Araguaia, no Sudeste do Pará, em fins de 1971, sendo uma das últimas a integrar-se ao destacamento B.

Suely foi morta com rajadas de metralhadoras disparadas por diversos militares, deixando seu corpo irreconhecível. Foi enterrada em Xambioá (TO) e seus restos mortais foram, posteriormente, exumados por estranhos.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/suely-yumiko-kanayama

Depoimento feito em parceria com o Projeto Abrangências (dramatização): https://www.youtube.com/watch?v=GWH0QZCTw7U

Comissão da Verdade fala sobre as mulheres paulistas desaparecidas no Araguaia: http://www.al.sp.gov.br/geral/noticia/noticia.jsp?id=333317

 

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Francisco Seiko Okama

Nascido em 2 de maio de 1947, em São Carlos (SP). Operário metalúrgico, militante da Ação Libertadora Nacional. De acordo com a versão oficial, foi morto em uma emboscada na rua Caquito, em São Paulo, em confronto armado, junto aos seus companheiros Arnaldo Cardoso Rocha e Francisco Emanoel Penteado.

Francisco Seiko Okama recebeu cinco tiros. No laudo da necropsia, alguns pontos merecem destaque, especialmente o fato de que pelo menos três tiros foram desferidos de cima para baixo, indicando que, provavelmente, ele se encontrava dominado ao receber tais tiros. As circunstâncias da morte ainda não foram esclarecidas e a justiça ainda não foi feita.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/francisco-seiko-okama

Depoimento feito em parceria com o Projeto Abrangências (dramatização): https://www.youtube.com/watch?v=7df3fy_No_c

 

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Hiroaki Torigoe

Nascido em 2 de dezembro de 1944, na cidade de Lins, SP. Estudante de medicina, Molipo (Movimento de Libertação Popular). Preso em 5 de janeiro de 1972, sendo levado para o DOI-CODI, órgão chefiado pelo então major Carlos Alberto Brilhante Ustra e pelo, à época, capitão Dalmo Lúcio Muniz Cirillo.

Em 20 de Janeiro de 1972, sua morte foi anunciada no jornal A Gazeta. Segundo a nota oficial, morreu ao ser levado ao hospital, ferido em conseqüência de um tiroteio. A versão oficial foi desmentida pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. Sua sepultura nunca foi encontrada.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/hiroaki-torigoe

 

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Ishiro Nagami

Nascido em 1941, em São Paulo (SP). Professor do Cursinho Equipe, militante da Ação Libertadora Nacional.

Ishiro morreu devido a um acidente em razão de explosivos que estaria transportando em seu carro. A perseguição de um carro, Chevette, e da radiopatrulha, que poderiam ter provocado a explosão e, principalmente, o fato de Ishiro ter morrido no hospital, após ser “interrogado”, enfatizam a necessidade de mais investigações para esclarecer o caso.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/ishiro-nagami

 

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Issami Nakamura Okano

Nascido em 23 de novembro de 1945, em Cravinhos (SP). Iniciou sua militância política no movimento estudantil quando era aluno da Faculdade de Química da USP, onde se tornou assistente de laboratório no Departamento de Engenharia Química e no Instituto de Física da mesma universidade.

Foi preso em setembro ou outubro de 1969, acusado de ser militante da ALN e de manter contatos com pessoas ligadas a VAR-Palmares. Condenado em 24 de março de 1971 a dois anos de reclusão pela Auditoria de Guerra da 2ª CJM de São Paulo, cumpriu pena no Presídio Tiradentes, sendo libertado em outubro de 1972.

Em 7 de fevereiro de 1975, o então ministro da Justiça, Armando Falcão, informou à imprensa que Issami havia sido preso, processado e estava foragido. Issami jamais esteve foragido, como contestou seu advogado Idibal Piveta. Na verdade, ele foi condenado, recorreu da sentença, cumpriu pena, foi solto, voltou a estudar e trabalhar para, então, ser seqüestrado.

Seu nome consta da lista de desaparecidos políticos do anexo I, da lei 9.140/95. Na CEMDP, seu caso foi protocolado com o número 155/96. Em sua homenagem, São Paulo deu o seu nome a rua situada no Jardim Nova América.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/issami-nakamura-okano

 

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Luiz Hirata

Nascido em 23 de novembro de 1944, em Guaiçara (SP). Militante da Ação Popular. Estudava Agronomia na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba (SP), mas abandonou os estudos em 1969, quando estava no 4° ano, em razão das perseguições políticas. Com atuação no movimento sindical, ele era um dos cinco coordenadores da oposição metalúrgica de São Paulo, ao lado de Waldemar Rossi, Cleodon Silva, Vito Gianotti e Raimundo Moreira.

Foi preso pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, do DEOPS-SP, em 26 de novembro de 1971. Torturado severamente durante semanas, morreu devido às lesões. Em um laudo forjado, consta que havia colidido com a traseira de um ônibus em uma tentativa de fuga.

Foi enterrado como indigente no Cemitério D. Bosco, em Perus, na capital paulista.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/luiz-hirata

Depoimento feito em parceria com o Projeto Abrangências (dramatização): https://www.youtube.com/watch?v=LkYXZzTVsPw

 

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Massafumi Yoshinaga

Nascido em 22 de janeiro de 1949, em Paraguaçu Paulista (SP). Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) Participou do movimento estudantil a partir de 1966, quando foi eleito para uma das vice-presidências da UPES. Atuou na área de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira (SP), com Carlos Lamarca, José Lavecchia e Yoshitane Fujimori, os três assassinados pela ditadura entre 1970 e 1974.

Ao ser preso, os agentes de segurança o obrigaram a uma retratação pública de suas posições políticas, fato amplamente divulgado pela imprensa na época. A entrevista concedida à TV Tupi, em 2 de julho de 1970, foi dada na presença do coronel Danilo de Sá da Cunha e Melo, secretário de Segurança Pública; de Danton Avelino, comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, e Leonardo Lombardo, diretor de Relações Públicas da Secretaria de Segurança. Esses casos de “arrependimento”, termo utilizado nas notas oficiais dos órgãos de segurança, foram na verdade resultado de intensas torturas.

Libertado pouco tempo depois, Massafumi passou a apresentar distúrbios psicológicos. Dizia repetidamente que a Oban (reorganizada como DOI-CODI em julho de 1970) iria matá-lo. Diante disso, em 1973, começou um tratamento psiquiátrico e chegou a ser internado. Na primeira tentativa de suicídio, Massafumi jogou-se embaixo de um ônibus; na segunda, jogou-se da janela de sua casa; na terceira e última, em 7 de junho de 1976, enforcou-se com a mangueira de plástico do chuveiro.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desapar…/massafumi-yoshinaga

Depoimento feito em parceria com o Projeto Abrangências (dramatização): https://www.youtube.com/watch?v=geI62Jhl_as

Declaração na TV Tupi: https://www.youtube.com/watch?v=SmV4Csiw7ms

 

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Yoshitane Fujimori

Técnico em Eletrônica, atuou “na luta armada desde as primeiras ações da VPR, em 1968, e compunha sua direção regional. Era diretamente ligado ao ex-capitão Carlos Lamarca e foi um dos guerrilheiros que o acompanharam quando houve o rompimento do cerco militar na área de treinamento de guerrilha da VPR, no Vale do Ribeira (SP), em maio de 1969. Era um dos acusados de ter executado o tenente da PM, Alberto Mendes Junior, feito prisioneiro durante o cerco efetuado pela Operação Registro”.

A descrição das circunstâncias da morte dá-se em conjunto com as de Edson Neves Quaresma, posto ambos haverem sido baleados no mesmo local. Sendo Quaresma executado no local e Fujimori levado ferido para o DOI-CODI/SP, e neste centro de torturas foi-lhe negado tratamento médico, tendo sido em seguida torturado e assassinado.

Ambos foram sepultados como indigentes no Cemitério de Vila Formosa, sendo Quaresma identificado com um nome falso.

Dossiê Completo da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”: http://verdadeaberta.org/mortos-desaparecidos/yoshitane-fujimori

 

Takao-Amano

Takao Amano

Um dos principais guerrilheiros urbanos de São Paulo durante a ditadura militar. Era um dos atiradores da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e participou de mais de vinte ações armadas, entre elas, o assalto ao trem pagador da ferrovia Santos-Jundiaí, em 10 de agosto de 1968.

Em 1969, foi preso numa emboscada em São Paulo. Na ocasião, foi novamente baleado e levado à sede do DOI-Codi. Lá sofreu torturas e permaneceu até 1971. Foi libertado junto com outros 69 presos em troca do embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca, no Rio de Janeiro.

Banido do país, Amano se exilou no Chile e, depois em Cuba, onde se reintegrou ao PCB. Retornou ao Brasil em 1979, graças à anistia. Estudou Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), tornou-se advogado e atuou no Sindicato dos Bancários. Militante do Partido dos Trabalhadores (PT), participou de sua história desde a criação. Hoje trabalha no Sindicato dos Médicos de São Paulo.

Biografia completa no portal Memórias da Ditadura: http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/takao-amano/

Depoimento ao Museu da Pessoa: https://www.youtube.com/watch?v=gU6Zre2uIhI

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Um comentário sobre “Memórias da resistência asiática na ditadura civil-militar

  1. UÉ. Pelo que vi ai. vcs colocaram uma lista de TERRORISTAS ASSASSINOS COMUNISTAS, que queriam trucidar o pais como fizeram com a URSS, CHINA, CUBA, Coréia do Norte, e foram COMBATIDOS pelos heróis patrióticos militares.

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