Anti-negritude é global: a participação asiática no racismo anti-negro

Quando falamos de racismo, estamos falando de relações de poder baseados em raça. Essas relações dependem de contexto, o que as torna relativas, assim como seus componentes. Por exemplo, dentro da própria branquitude existe uma hierarquia: um português é branco no Brasil, mas menos branco na Europa ocidental, especialmente quando comparado a um sueco.

Porém, a anti-negritude é a constante global; é o que unifica e sustenta a supremacia branca ao redor do mundo, mesmo que a branquitude não seja a norma, como acontece na Ásia.

Colorismo como facilitador da anti-negritude

Apesar do comercial chinês do detergente Qiaobi ser uma paródia de outro comercial italiano, ele ilustra bem como a pele escura é vista: um problema que, às vezes, pode ser consertado. Com o produto certo, obviamente.

Isso não acontece apenas por conta do colonialismo europeu em partes do continente. Desde antes de influências europeias significativas, o tom de pele sempre foi um fator de classe na Ásia; a pele clara era prova do status da nobreza que não precisava trabalhar exposta ao sol.

Além dos diversos reflexos em cada sociedade – como a indústria de clareamento de pele da Índia –, o colorismo na Ásia facilita a importação da anti-negritude através da mídia ocidental e o culto à pele clara naturaliza a superioridade branca. As constantes representações da pessoa negra como inerentemente violenta ou hipersexual permeiam a percepção asiática e contribuem com a disseminação do racismo anti-negro.

Como nos beneficiamos e como contribuímos

No Brasil, onde os imigrantes e descendentes de asiáticos são predominantemente do leste da Ásia, o colorismo e a anti-negritude auxiliaram na assimilação forçada à branquitude.

A pele clara – ou pelo menos não negra – dos japoneses foi seu passaporte para o Brasil numa época marcada pela busca eugênica da “raça brasileira”, especialmente nas primeiras décadas de 1900. Eram menos inferiores que negros, portanto o menor dos males. A imagem de imigrantes japoneses e seus descendentes mudou ao passo do contexto político: humanoides sujos que tomavam empregos de “brasileiros de verdade”; os Súditos do Eixo, oportunistas traiçoeiros durante a guerra; e, finalmente, minoria modelo.

Esse processo se desenrolou em pouco mais de um século, intimamente atado ao papel do Japão na política e na economia internacional. O mesmo acontece com a China – a ideia da “invasão chinesa” no mundo ocidental, que vem sido construída desde o século XIX, ainda persiste, fazendo com que chineses sejam largamente lidos como desonestos e indesejáveis – e com a Coreia do Sul, cuja imagem no imaginário ocidental tem se transformado positivamente de acordo com seu desenvolvimento econômico, sua aliança com os EUA e a popularização do K-pop.

Nossa aceitação no Ocidente depende da nossa conveniência para a branquitude; ganhamos ou perdemos privilégios se somos aliados ou ameaças à ordem hegemônica. Essa flexibilidade gerou a ilusão de mobilidade na hierarquia racial e faz com que acreditemos nas grandes mentiras que sustentam um sistema fundamentalmente desigual.

Nós nos assimilamos à branquitude porque não estamos e nem queremos estar na posição de negros, conscientemente ou não. Aceitamos e reproduzimos a anti-negritude, permitimos que mercantilizem nossas culturas e permanecemos calados porque isso nos concede privilégios.

Mas precisamos rejeitar o mito da minoria modelo. Urgentemente.

Quando aceitamos uma branquitude honorária e seus privilégios deslocáveis, compactuamos com o racismo e a xenofobia. Fazemos o papel de minoria de estimação, aquela que deu certo porque é melhor que as outras; e isso nos joga contra outros imigrantes, refugiados e minorias étnico-raciais. A meritocracia brasileira precisa de algo que sustente sua falácia e nós somos a testemunha que valida o discurso liberal, nega o racismo através de falsas simetrias e apresenta um exemplo de conduta dócil, disciplinada, domesticada. Somos o argumento e o fetiche da supremacia branca capitalista.

Além de deslegitimar nossa própria luta – seja no âmbito de reparação histórica, por visibilidade e representatividade ou pelas consequências a níveis individuais –, o papel que asiáticos desempenham atualmente impossibilita a única solução para a desigualdade racial e o maior medo da supremacia branca: solidariedade antirracista.

Para que haja justiça, devemos atacar ativamente a anti-negritude dentro das nossas comunidades e nos pronunciar contra o racismo. A militância asiática deve ser aliada da luta negra, não um instrumento da branquitude.

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