Sobre (sub)representatividade

Ano passado, aconteceu uma das coisas mais legais da minha vida nessa (infeliz) fase adulta: fui à Bolívia a trabalho. Mais precisamente, à Santa Cruz, uma cidade da qual não sei muito e não fiquei sabendo de muito mais porque só trabalhei, trabalhei e trabalhei quando estive lá. Uma coisa em especial sobre a experiência ficou muito bem alojada em algum lugar da minha memória, apesar de ser algo que poderia facilmente ter passado despercebido: uma grande peça publicitária no centro da cidade, na qual uma mulher resplandecentemente branca, loira e com aquele biótipo de modelo europeia-caucasiana ostentava suas roupas de marca em uma pose sensual. A moça era de uma brancura que destoava um monte do cinza do céu chuvoso de Santa Cruz, que parecia padecer de uma melancolia crônica; também destoava outro monte da cor da pele mestiça/indígena, do tipo físico mais comum entre bolivianos, andinos. Acho que não preciso dizer que essa brancura toda me incomodou. Muito.

Há pouco, voltei do Festival da Utopia em Maricá, no Rio de Janeiro, onde trabalhei militantemente na organização do Encontro Internacional da Juventude em Luta. Lá pude rever muitas pessoas lindas e de lutas que cruzaram o meu caminho ano passado. Uma delas é mexicana, LGBT e se tornou uma amiga muito querida, que nessa ocasião me trouxe um presente maravilhoso: uma bonequinha indígena mexicana, com as vestimentas e ornamentações coloridas típicas do povo indígena que representa (acabei não perguntando qual, e eu culpo a emoção que senti por ter recebido o presente). Mas essa bonequinha tinha uma peculiaridade que a minha amiga pertinentemente nomeou como um problema de RACISMO: ela era branca. Apesar de ter agradecido a vida pelo presente, que foi um dos mais lindos que já recebi, não pude deixar de reiterar que era uma

boneca indígena mexicana
A bonequinha indígena mexicana branca

bonequinha indígena com cara de europeia, meio que pra zoar a minha amiga, que depois me disse que se ela não tivesse comentado (da brancura racista), eu nada teria dito sobre o fato. Só que não, miga: foi a primeira coisa que eu reparei, até por entender mais ou menos como opera o racismo em países como o Peru, que concentra uma maioria de população indígena e mestiça. Se ela não falasse nada, eu ia apontar o problema mesmo assim. Fiz questão de acrescentar à nossa conversa sobre a boneca que se tratava de racismo internalizado, já que foram as próprias mulheres indígenas quem a produziram. Por algum motivo, elas acharam que seria para o bem que a sua cor não fosse representada tal como é.
Foi recente a minha descoberta da minha identidade como um sujeito asiático, amarelo, ou seja, não-branco. E a confusão anterior muito se deveu ao fato de eu não sofrer as mesmas opressões, marginalização e extermínio sistemático de que são alvo negros e negras deste país e no mundo. Só não tinha me atentado para o fato de que a régua que mede o quanto me adéquo ou desvio de padrões tidos como “normais”, em parte porque representados em todos os cantos, é branca. Ao longo dos anos, oscilei entre rejeição e assimilação do que é visto como o ser asiático, o que me levou a um sentimento constante de não pertencimento, até porque os que estão ao meu redor parecem não querer que eu seja brasileiro, fazem questão de marcar a diferença. Refletindo e discutindo com amigos/as asiáticos/as, tenho tentado identificar o que de fato não tem espaço na minha identidade e o que foi rejeitado quase que numa estratégia de sobrevivência, ao tentar negar (ou até abraçar às vezes) o lugar de inferioridade a que são relegados não-brancos. Nesse processo, um elemento muito empoderador foi descobrir referências asiáticas. Um bom exemplo é o Masahiro Motoki, ator japonês que protagonizou o filme “A Partida”, um dos meus favoritos. Para mim, ele é uma referência importante de masculinidade asiática, principalmente porque o vejo como modelo de beleza e sensualidade, mesmo que um tanto destoante do modelo de beleza masculina hegemônico. Perceber que homens asiáticos também podem ser bonitos e sexualmente atraentes é empoderador, no sentido de negar a castração que nos tentam impor. Outra referência importante é a Ching He Huang, que tem ascendência taiwanesa e é uma famosa apresentadora de programas de culinária no Reino Unido. Além de linda, ela é comunicativa e, sobretudo, uma mulher alfa, o que destoa bastante da imagem de asiáticas submissas e que são fetichizadas por homens brancos como tal. Nesse caso, acho que extrapola o recorte de gênero, por se contrapor à submissão que atribuem aos asiáticos de modo geral, com base em uma percepção geral distorcida da reverência à autoridade que parece estar bastante presente na “cultura asiática”. (E aqui eu tento não colocar asiáticos no mesmo saco, lembrando que “cultura” é algo que parece só existir em se tratando de povos subalternos)

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Masahiro Motoki

Acredito que uma reflexão importante, ainda sobre representatividade, está relacionada às relações de poder que a fundamentam: como a sub-representatividade consiste em um mecanismo que reforça uma ideologia racista e imperialista que hierarquiza povos vencedores e vencidos. E que em última instância, são determinantes na definição de quem são os mais dignos de receberem os holofotes, de serem sujeitos na história; determinam a quem está reservado um lugar de prestígio, reconhecimento e até AFETO. Quem merece ser representado por uma bonequinha. Não preciso dizer que esse lugar é dos brancos. Talvez um bom exemplo no campo do afeto sejam os cartazes de divulgação de baladas LGBT que tenho visto ultimamente. Ninguém parece ver problema nenhum em colocar como objeto de desejo central um homem branco padrão, apesar de estarmos em um país cuja população é composta em mais da metade por negros/as e uma de suas características mais marcantes é a mestiçagem. Nesses espaços, percebe-se uma hierarquia racial em que não-brancos ficam em um segundo plano; para estes, objetificação e fetichização são a norma – o que não tem nada de lisonjeiro, muito pelo contrário, porque limita as possibilidades de afeto ao nos reduzirem a uma experiência EXÓTICA, que tende a se restringir a isto: uma experiência pontual em que o outro, desumanizado, é um mero objeto de curiosidade e prazer. Para além disso, são os brancos que devemos procurar. Como brancos devemos ser, porque são mais bonitos; são os brancos que devemos amar, porque são os mais dignos de afeto.

Meio caricata a maneira como resolvi expor as coisas no final. Mas acho que ilustra como o racismo (internalizado) opera, segundo a minha percepção. E como a sub-representatividade de não-brancos (e aqui entram outros recortes também) não é um mero detalhe: consiste num mecanismo de reforço ideológico para a naturalização de uma hierarquia racial. O que parece uma mera escolha ou um ato neutro, na verdade está carregado de simbologia e significados que extrapolam o âmbito individual. O meu apelo é para que enxerguemos as coisas como inseridas em um contexto maior, sistêmico, em que certas estruturas no campo dos símbolos perpetuam relações de poder e influenciam as nossas vidas cotidianas, muitas vezes de modo opressor.

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