1° Ato – “O japonês é como o enxofre… insolúvel”: identidade nacional, raça e violência de estado.

Observação: Este texto faz parte de uma coletânea de artigos em três atos, acompanhe aqui.

Em dezembro de 2015, o ativista Mario Jun Okuhara, autor do documentário “Yami no Ichinichi – O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil” (2012) e idealizador do Projeto Abrangências protocolou uma solicitação ao Ministério da Justiça “para que o Estado brasileiro, formalmente, reconheça a perseguição política que seus agentes realizaram contra a coletividade de imigrantes japoneses e seus descendentes, por conta de abusos autoritários do Estado de Exceção do governo do presidente Getúlio Dornelles Vargas (1937 – 1945) e do período constitucional do presidente Eurico Gaspar Dutra (1946 – 1951), por meio de um pedido oficial de desculpas.”

A violência de estado marcou a assimilação forçada de imigrantes japoneses e descendentes no Brasil, principalmente durante o período da segunda guerra mundial. Escolas foram fechadas, pessoas foram presas por falar a língua materna em público, outras foram internadas em campos de concentração dedicadas aos “súditos do Eixo”, bens foram confiscados, comunidades inteiras foram vítimas de deslocamento forçado. A vigilância constante e as violações à dignidade humana foram a principal política de estado de integração da raça amarela – em especial, das famílias japonesas – durante a modernização do Estado brasileiro.

Através do decreto-lei n° 4166 de 1942, o governo de Getúlio Vargas congelou os bens de imigrantes japoneses, alemães e italianos como ” garantia ao pagamento de indenizações devidas pelos atos de agressão” praticados pela Alemanha, Japão ou Itália, responsabilizando indivíduos e grupos de imigrantes por possíveis atos de guerra de seus Estados de origem. Em Julho de 1943, aproximadamente 6500 imigrantes japoneses foram removidos da cidade de Santos, separados de suas comunidades e famílias estabelecidas, e alocados na Hospedaria do Imigrante, na região do Brás, como política de segurança nacional do Estado brasileiro, que buscava garantir a soberania da faixa litorânea do país. A imigração, desde então, consolidou-se como uma questão de segurança nacional.

Embora seja possível confundir e até justificar a brutalidade desses fatos históricos com a excepcionalidade dos tempos de guerra, é necessário historicizar a relação do Brasil com a raça amarela dentro da construção da modernidade capitalista brasileira desde quando D. João VI tentou importar trabalhadores oriundos de Macau em 1814 para o cultivo de chá, passando pelos debates da substituição da mão de obra escravizada negra pela chinesa, no final do século XIX, até a mais conhecida história dos japoneses nas plantações de café do começo do século XX. Durante todo esse tempo, cientistas, políticos e “formadores de opinião” criaram discursos sobre a pertinência da incorporação de trabalhadores amarelos aos modos de produção brasileiros, a partir das dimensões culturais, sociais, políticas, técnicas e raciais.

Mesmo antes da segunda guerra mundial, os discursos eugenistas e xenofóbicos já estavam radicalizados. O decreto n° 528 de 1890, a lei de imigração de Marechal Deodoro,  reflete essas preocupações ainda incipientes com a raça amarela, dentro do esquema de racialização moderna brasileira. Em seu artigo 1°, encontrava-se a seguinte redação: “É inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho, que não se acharem sujeitos à acção criminal do seu paiz, exceptuados os indigenas da Asia, ou da Africa, que somente mediante autorização do Congresso Nacional poderão ser admittidos de accordo com as condições que forem então estipuladas.”

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A história da mudança dos modos de produção no Brasil do capitalismo tardio e o projeto de embranquecimento da população estiveram intrinsecamente ligados e impulsionaram fervorosos discursos sobre as raças não-brancas, pois, o que importava de fato era como as raças “inferiores” poderiam servir à manutenção dos privilégios brancos. “Como se os pretos já não fossem o bastante, [agora] teremos os amarelos!” eram os dizeres da Revista Ilustrada a respeito da possível importação de mão de obra chinesa como substituta à do trabalhador negro. Quem se opunha, fazia coro a ideias como a do argentino Adadus Calpe: “o mais sórdido que o Império Celestial tinha a oferecer, o mais obtuso e ignorante, o mais rude, o menos útil, o menos valioso daquela raça retrógrada… O chinês não é forte como o negro e nem tão paciente e constante como o europeu.” Quem se propunha a defender a empreitada, não era por motivação menos racista. Jeffrey Lesser, em “A negociação da identidade nacional: Imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil”, aponta um pronunciamento no Congresso Agrícola de 1878 convocado pelo então Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

Quando um dos delegados expressou seus temores de que o Brasil estava “inoculando em suas veias um sangue pobre e degenerado, tóxico e nocivo às grandes leis do cruzamento de raças” […] João José Carneiro da Silva, representante da província do Rio de Janeiro, discordou. Ele propôs que “a raça branca produziu tantos mulatos de distinção, porque não será também útil o chinês, raça incontestavelmente superior à africana?”

Eis que a política internacional traz um novo ingrediente para a resolução do imbróglio dos trabalhadores não-brancos no Brasil – o processo de modernização da Era Meiji no Japão, sua política expansionista e sua vontade de se integrar ao mundo branco apresentaram ao Brasil uma nova possibilidade: a imigração japonesa. Os amarelos quase-brancos vieram bem a calhar e o japonismo e outras correntes de pensamento orientalista entusiasmaram-se com esta possibilidade. O problema é que desta vez, o projeto tornou-se realidade. Em 1934, Oliveira Viana, um grande expoente do racismo brasileiro declarava: “Em menos de 20 anos, […] o mundo asiático, repululante no seu formigueiro humano, já nos lançou em nosso solo quase cem mil japoneses… Para nós, o problema da assimilação do imigrante japonês é infinitamente mais difícil de resolver do que o dos imigrantes das outras raças aqui afluentes… o japonês é como o enxofre: insolúvel.”.

“Ninguém logrará, com efeito, mudar a cor e a face do japonês, nem a sua concepção da vida, nem o seu materialismo”. Francisco Campos, 1941

Durante segunda guerra mundial, as pressões da geopolítica imperialista estadunidense e o imaginário racista articulam os saberes que já estavam consolidados na ciência, na política e na opinião pública brasileira para criar um novo momento de inquietação racial. Vivaldo Coaracy, autor de “O Perigo Japonês” (1942) expressava seu inquietamento: “O elemento japonês, pela sua nucleação inicial, tem sido comparado a um quisto encravado na nacionalidade a que não se incorpora… os quistos são formados por corpos estranhos que se encapsulam, segregados nos tecidos do organismo a que não pertencem. A infiltração japonesa há de ser comparada a um câncer prolífero, que se desdobra e desenvolve, estendendo raízes, transformando a natureza dos tecidos através dos quais progride, fatal para o organismo em que se implanta”. O político e jurista Francisco Campos, em 1941, desenvolvia seu apreço pelo discurso da condição “inassimilável” do japonês, da ideia de uma “cultura de baixo nível” e concluía: “Ninguém logrará, com efeito, mudar a cor e a face do japonês, nem a sua concepção da vida, nem o seu materialismo”.*

A denúncia dos crimes da segunda guerra mundial e seu período subsequente são importantíssimos como disparadores de uma reflexão mais aprofundada sobre como a construção do Estado brasileiro, a formação da modernidade capitalista e a estruturação da sociedade de raças se articularam através do uso dos corpos não-brancos. A história da vida amarela no Brasil é mais uma chave para compreender as violentas contradições e os abjetos esquemas de dominação e repressão ainda em curso na sociedade brasileira. A busca pela justiça é um passo essencial para a consolidação de novas formas de sociabilidade crítica, no caminho para a libertação dos povos oprimidos em comunhão e na construção de uma sociedade mais justa.

Observação: Este texto faz parte de uma coletânea de artigos em três atos, acompanhe aqui.

Para ler mais:

*Os trechos de Coaracy, Viana e Campos foram extraídos da obra “Paraísos Tropicais” (2014) de Yudi Rafael. Nesse trabalho, uma coletânea de discursos produzidos sobre a raça amarela acompanha, no formato de cartões-postais, imagens de ruas que homenageiam seus autores, cartografando a paisagem brasileira a partir de seus ideólogos eugenistas.

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“Paraísos Tropicais” (2014), de Yudi Rafael.

DEZEM, Rogério. Matizes do “amarelo”: a gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (1878- 1908). São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005.

LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. Trad. Patrícia de Queiroz C. Zimbres. São Paulo: Editora da UNESP, 2001

PERAZZO, Priscila Ferreira, Prisioneiros de Guerra: os “súditos do eixo” nos campos de concentração brasileiros (1942-1945). São Paulo: Humanitas/Imprensa Oficial, 2009.

TAKEUCHI, Marcia Yumi. O Perigo Amarelo: imagens do mito, realidade do preconceito (1920-1945). São Paulo, Associação Editorial Humanitas, 2008, pp.288 (Histórias da Repressão e da Resistência; 7).

 

 

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Um comentário sobre “1° Ato – “O japonês é como o enxofre… insolúvel”: identidade nacional, raça e violência de estado.

  1. Fabio , recomendo a leitura de Ayumi caminhos percorridos (Claudio Seto / Maria Helena Uyeda ) sobre a imigracao no parana…. Se nao achar entre em contato… Parabens pelas colunas … Abraços

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