3° ato: Somos asiáticas/os e resistiremos contra o golpe! Memória, verdade e política.

A identidade da diáspora asiática não é um fim em si mesmo: direito à memória e à verdade, solidariedade nas lutas populares e resistência contra o golpe.

No último sábado (27), jovens asiáticas/os se reuniram para discutir o direito à memória e à verdade no Brasil e a formação da identidade racial amarela e seus reflexos nas lutas contemporâneas. No evento “Asiáticas/os no Brasil: identidade, memória e resistência”, conversamos sobre as relações entre a violência de Estado contra imigrantes asiáticas/os, principalmente durante a Era Vargas, e a consolidação da modernização racista brasileira. A violência racial no Brasil, contra negras/os e indígenas, data do período da colonização e, durante a consolidação de seu capitalismo tardio, no século XX, incrementou-se também com a exploração xenofóbica e racista da raça amarela.

A expulsão de 6500 imigrantes japoneses da cidade portuária de Santos e o decreto-lei de Getúlio Vargas que responsabilizava imigrantes por atos de guerra de seus Estados de origem, por exemplo, tornam-se um marco da política migratória brasileira, que passa a tratar a imigração como uma questão de segurança nacional.  A herança dessa política é o Estatuto do Estrangeiro, escrito na ditadura militar de 64-85 e vigente até hoje. Movimentos e ativistas tentam reverter a lógica que enxerga imigrantes como potenciais ameaças ao país para uma lógica de direitos humanos, luta-se hoje pela aprovação o Projeto de Lei 2516/2015, em trâmite no Senado, mas com o golpe, os setores conservadores estão se mobilizando para impedir avanços na lei. Pensar no racismo do Brasil moderno é entender que, na base da formação de suas instituições, que exploram a classe trabalhadora até hoje, está a exploração das raças não-brancas. (Leia mais sobre isso aqui.)

A solicitação de que o Estado se retrate pelos crimes cometidos contra a coletividade japonesa faz parte de um processo de justiça de transição, tendo surgido no seio das Comissões da Verdade e da mobilização da comunidade, principalmente pelo Projeto Abrangências. Isso significa que o reconhecimento das violações de direitos humanos pelo Estado brasileiro não é importante somente para o público específico a que se refere, mas é essencial para o conjunto de transformações que consolidam a democracia no país. A dificuldade em promover a memória, a verdade e a justiça, é na verdade sintoma de uma sociedade que perpetua e reproduz instituições autoritárias e violentas durante toda sua história e ainda na contemporaneidade. A apropriação deste fato, dentro do contexto de lutas políticas mais gerais, faz mobilizar nossas comunidades e famílias a entenderem a importância, por exemplo, do movimento das Mães de Maio, que luta pela justiça e pela verdade em relação a chacinas cometidas pela Polícia Militar contra jovens negros e periféricos.

O GOLPE, que se consolida hoje (31) com o impeachment da presidenta Dilma, é um desses resultados de uma transição democrática que não aconteceu de facto. Mesmo com as garantias do direito burguês pretensamente progressistas, a força das elites políticas, sustentada pelas instituições e formas de organização social retrógradas e reacionárias, toma de assalto a tentativa do estabelecimento de uma democracia popular no país. Na perspectiva histórica, essas mesmas forças que impedem a construção de outros e melhores projetos de sociedade se construíram também na história da opressão sobre os nossos corpos. Isso nos leva a pensar a formação da nossa identidade racial como intrinsecamente ligada à vida política no Brasil moderno, impelindo os nossos corpos que questionam a tomar compromissos e responsabilidade pelas transformações sociais no país.

Para Chris Ijima, militante e pensador asiático dos EUA que atuou nos movimentos pelos direitos civis, na década de 60, a identidade da diáspora asiática nos EUA

“foi originalmente pensada para ser um meio, e não um fim em si mesmo. Foi criada como uma ferramenta organizativa para mobilizar asiáticos a participarem de movimentos progressistas de cada tempo. Foi tanto um mecanismo para identificação mútua, quanto para identificação com a luta de outros, sejam eles africanos-americanos ou asiáticos em outros lugares, e era menos um marcador do que se era do que um marcador do que se acreditava.” (IJIMA, 2001)

O filósofo George Lipsitz nos explica como a militância e a academia asiático-americana derivaram a identidade da política, em vez de acreditar que a política seria uma consequência natural da identidade. Formar uma identidade da diáspora asiática, neste sentido, não se trata de se guiar por nacionalismos ou por recortes essencialistas, mas de se reconhecer mutuamente na solidariedade das lutas populares. Essa leitura pode muito bem ser adaptada para o contexto brasileiro, a depender de nossas expectativas sócio-políticas.

Estamos, no Brasil, muito recentemente, aprendendo a nos proteger das diversas manifestações do racismo contra nós. Falamos de microagressões, da invisibilização e e dos estereótipos – e essas dimensões possuem bases históricas e materiais em si mesmas. No entanto, isso não basta. Se buscamos memória e verdade para a nossa vida coletiva, para que façamos parte dessa história também, com o horizonte de uma real subversão das estruturas de classe, raça e gênero, devemos, coletivamente, assumir nossos compromissos políticos. É disso que se trata quando falamos da nossa formação identitária: uma formação política por excelência. Somos asiáticas/os e resistiremos contra o golpe!

Esse texto faz parte de uma série em três atos (mas pulamos o segundo, dada a conjuntura).

Referências:

Chris Iijima, “Pontifications on the Distinction between Grains of Sand and Yellow Pearls,” in Asian Americans: The Movement and the Moment, ed. Steve Louis and Glenn Omatsu (Los Angeles: UCLA Asian American Studies Center Press, 2001)

George Lipsitz, “Affinities, Affiliations, and Alliances: Why Asian American Perspectives Matter Now”. Disponível em: https://www.pacifica.edu/pdf/Asian_and_Asian-American_Philosophers_and_Philosophies_1-1.pdf

 

 

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