Como falar de saúde mental entre pessoas asiáticas? #setembroamarelo

Antes de começar o texto, disponibilizamos alguns recursos de prevenção ao suicídio:

O CVV – Centro de Valorização da Vida tem voluntários que recebem treinamento para oferecer apoio emocional e prevenção ao suicídio a quem precisar. O serviço é sigiloso e gratuito por telefone, e-mail, chat e Skype, disponível 24 horas todos os dias.

A Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) oferece atendimento por telefone, palestras, grupos de integração, de apoio mútuo e para adolescentes. Confira a agenda mensal da ABRATA aqui: http://www.abrata.org.br/new/agenda.aspx

Lista de atendimento psicológico ou psiquiátrico gratuito ou com preço simbólico: https://goo.gl/Nif7WG


Texto por Laura Ueno

O mês de setembro foi dedicado à prevenção do suicídio, tema motivado pelas estatísticas alarmantes e pelo silêncio que paira em torno desse fenômeno. Existem várias condições situacionais, subjetivas e sociais que determinam uma falta de horizontes de existência na vida de uma pessoa. Entre os grupos vulneráveis, estão os grupos minorizados: velhos, crianças, desempregados, pobres, vítimas de desenraizamento cultural forçado (povos nativos no Brasil, expulsos de sua própria terra, são um exemplo lamentavelmente), violências de gênero e raciais. Continuar lendo

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Perigo Amarelo com Negro Belchior para vereador (SP): Representatividade importa, mas solidariedade ainda mais. #50075

 

“Pelo menos esse candidato é japonês, né?”. Muitos de nós crescemos ouvindo nossos familiares dizendo que escolhem seus representantes políticos porque compartilham origens asiáticas. “Eu voto nesse porque é japonês” é a fala de quem não entende as sérias consequências da política, quando não levada com responsabilidade como um campo de disputa de interesses de classe.

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Reflexões de um homem asiático e bissexual

Texto de Alex Ka Wei Tso

Como asiáticos, não temos representatividade na sociedade brasileira, nem na mídia nem na política. Somos vistos como eternos estrangeiros em uma terra que também foi construída com a nossa participação. A invisibilidade e a falta de reconhecimento devido à nossa participação na construção sócio-político do Brasil nos torna um grupo extremamente fragilizado em termos representativos, o que por consequência nos prende à tipificações deveras problemáticas. Ao homem asiático, a nulidade de seu desejo sexual, a estigmatização de sua personalidade como dócil, passivo e o famoso “pinto-pequeno” (who cares? Parece ensino fundamental essa fixação que homens não-asiáticos têm com as nossas genitálias). Às mulheres asiáticas, o duplo peso, uma de ser desejada como mulher submissa, “kawaii”, perfeita para um matrimônio patriarcal ao extremo, ou por outro lado, a hiper sexualização, a venda da imagem asiática como figura exótica, o fetiche pelo oriente.
Invisibilidade, deslegitimação de nossas especificidades e opressões, falta de representatividade política, fetichização e a constante interferência externa sobre nossas identidades.
Como bissexual, e como asiático, consigo traçar paralelos muito facilmente.

1) Invisibilidade: não preciso nem comentar. O fato de vocês terem ficado surpresos ao fato de eu ter mencionado esta luta, diz muito do tamanho do nosso desafio. É igual quando questionam: “nossa, mas uma militância SÓ de bissexuais?”

2) Deslegitimação de nossas especificidades e opressões: “Nossa, mas você é quase-branco, você denunciar racismo contra amarelos é mimimi, vocês estão vulgarizando a luta dos negros” / “Nossa, mas vocês bis, são lidos como héteros e não sofrem preconceito, Bifobia não existe, o que vocês passam é homo/lesbofobia, Vocês estão fazendo um desfavor à causa LGBT, só criando mimimi sectarista”

3) Falta de representatividade política: Vale lembrar que por lei, imigrantes não podem se envolver em atos políticos. Isso por si só já desmantela grande parte do potencial organizativo das comunidades asiáticas no Brasil, como classe política. E para além disso, foi-se criado um “”estereótipo positivo”” do asiático como dócil, trabalhador e competente, que na verdade nos faz indagar – Positivo para quem? Oras, para a elite branca que soube, em cima deste discurso, domesticar os conflitos entre amarelos e brancos, colocando-nos em mea culpa como “quase, praticamente” brancos, e instigando um forte sentimento anti-negritude nas comunidades asiáticas. Veja os poucos políticos asiáticos que temos no Brasil, são todos aliados à setores conservadores da sociedade, extremamente meritocráticos.

4) Fetichização: mais com mulheres, mas também acontecem com homens. Abordagem de paquera nas baladas, é sempre um “nossa, nunca fiquei com um/uma asiática. Quero experimentar” como se fossemos seres extraterrenos, alienígenas, pokemons raros para dar “check” na pokedex do amor das pessoas. Para as mulheres, o quadro é muito mais grave, com a extrema voluptuosidade com que se pintam as mulheres asiáticas, se não como meninas passivas próprias para a monogamia patriarcal, como deusas do sexo exótico, do risco, da aventura, do perigo. Similaridades com as mulheres bissexuais?

5) Interferência externa sobre nossas identidades: em termos de racismo, o que não falta é gente não-asiática tentando dizer como ou o que é e deve ser o asiáticos, em todos os campos sociais – como e o que devemos comer, como e o que devemos cuidar dos nossos filhos, como e o que devemos lidar com o racismo, etc e tal. Vejo a mesma coisa com a bissexualidade, tanto héteros quanto a população LLGGGG são experts em cagar regra sobre o que é ser bissexual, como temos que nos relacionar, com quem ou quantos temos que gozar, por quem temos que nos apaixonar, e como devemos ou não participar do movimento LGBT.

Minha passagem e atuação no movimento bi conseguem me trazer à luz situações muito parecidas para os que estão em conflito com suas identidades asiáticas. Basta acompanhar os depoimentos das pessoas que encontram o Perigo Amarelo e lá encontram acolhimento e suporte. É como se tivéssemos que “sair do armário” no sentido de sermos tão invisibilizados que se apoderar de nossa história, cultura e origem étnica é frequentemente razão de muito conflito interno.

No fim, não sei se consigo responder diretamente: “Qual racismo os amarelos sofrem”, mas só sei que por uma conjuntura estrutural do racismo e da cultura etnocentrada no branco europeu, sofremos, por não nos vermos abraçados por ninguém, somente por nossa própria comunidade (por isso não adianta vir com aquele papo de “asiáticos são muito fechados, só andam com semelhantes” – afinal, já pararam para pensar em quem, de fato, não está querendo abrir as portas?)