Como falar de saúde mental entre pessoas asiáticas? #setembroamarelo

Antes de começar o texto, disponibilizamos alguns recursos de prevenção ao suicídio:

O CVV – Centro de Valorização da Vida tem voluntários que recebem treinamento para oferecer apoio emocional e prevenção ao suicídio a quem precisar. O serviço é sigiloso e gratuito por telefone, e-mail, chat e Skype, disponível 24 horas todos os dias.

A Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA) oferece atendimento por telefone, palestras, grupos de integração, de apoio mútuo e para adolescentes. Confira a agenda mensal da ABRATA aqui: http://www.abrata.org.br/new/agenda.aspx

Lista de atendimento psicológico ou psiquiátrico gratuito ou com preço simbólico: https://goo.gl/Nif7WG


Texto por Laura Ueno

O mês de setembro foi dedicado à prevenção do suicídio, tema motivado pelas estatísticas alarmantes e pelo silêncio que paira em torno desse fenômeno. Existem várias condições situacionais, subjetivas e sociais que determinam uma falta de horizontes de existência na vida de uma pessoa. Entre os grupos vulneráveis, estão os grupos minorizados: velhos, crianças, desempregados, pobres, vítimas de desenraizamento cultural forçado (povos nativos no Brasil, expulsos de sua própria terra, são um exemplo lamentavelmente), violências de gênero e raciais.

A questão do sofrimento psíquico, que é vivida solitariamente, precisa implicar a nós todos coletivamente, por meio do fortalecimento de laços comunitários e de redes de apoio onde sofrer emocionalmente não seja “coisa de louco”, mas coisa de gente que está aí, que é afetada pela experiência do mundo.

Quando pautamos nesse espaço a desconstrução da estereotipia de raça, estamos falando de um problema político e também de um problema psicológico. Afinal, ela atinge o psiquismo de quem é estereotipado e interioriza percepções negativas a respeito da própria competência e da viabilidade de ser desejado. E, ao mesmo tempo, daquele que estereotipa, pois quando um sujeito fixa aquilo que o indivíduo de um grupo diferente do seu é, e pode ser, fica impedida a formação de verdadeiras conexões amorosas, onde alteridade e particularidade deveriam ser consideradas.

A subjetividade dos asiáticos no Brasil foi marcada por rupturas em diferentes momentos históricos: interdição da entrada de chineses e japoneses em função do ideal de branqueamento na política imigratória do país, racismo antiamarelo institucionalizado pelo Estado e restrição de direitos civis, impactos na assimilação à nova cultura nos diversos grupos asiáticos, cujas condições de estabelecimento foram diversas, recente emigração dos nipodescendentes ao Japão e constatação em muitos de não pertencer culturalmente, nem como cidadãos integrais à terra de origem, entre outras.

As pessoas biculturais, em quaisquer contextos, passam por stress ao lidarem com escolhas pessoais entre valores conflitantes (por exemplo, “você tem que falar o que pensa e sabe!” X “não se destaque no grupo, seja discreto!”) em muitas áreas da vida: vocacional, familiar, amorosa… No caso dos brasileiros asiáticos, aliás, estamos falando de culturas de origem onde a existência se dá justamente pelo pertencimento ao grupo. Uma identidade étnica fortalecida, que diz respeito aos sentimentos e laços compartilhados de língua, raça, ancestralidade e cultura, que organizam nossa compreensão individual da realidade, está ligada ao bem-estar psicossocial, desempenho escolar e profissional.

E quando no meio em que se está acontece uma valorização desigual na integração dos elementos culturais de origem e do novo contexto?

Nos dias atuais, o racismo tem formas complexas e se expressa através de mecanismos bastante sofisticados – mais indiretos, ambíguos, dissimulados. Derald Sue, psicólogo intercultural de ascendência chinesa nos EUA, publicou pesquisas acerca da experiência de americanos asiáticos com as microagressões raciais, que são ataques sobre a identidade e a autoestima, intencionais ou não, que variam de atos de discriminação agressivos a incidentes menores no cotidiano, sofridos repetidamente por membros de grupos étnicos minoritários na sociedade (ter um traço de seu fenótipo ridicularizado, ou seu estilo cultural de comunicação intuitiva e menos verbal interpretada como desinteressada e ser excluído por um professor, só para citar alguns). Podem gerar sentimentos de irritação, raiva, ameaça, desconsideração. Sutis, mas altamente nocivos, trazem desgaste e frustração que podem perdurar. Demandam desafios de percepção e comportamento: a pessoa precisa avaliar se ocorreram e decidir como reagir a eles.

Que dilema! Como respondo, dada a rapidez de um flash do assalto sofrido? Quando a microagressão vem de um conhecido, como lidar com o mal-estar, a acusação de hipersensível, o abalo numa relação significativa?

Tenho observado que muitos estudiosos das relações raciais insistem em afirmar que, no caso dos amarelos, minoria bem sucedida, a sociedade reage à diferença com um estranhamento natural, mas não com racismo. Com esse ponto cego, acabam contribuindo para a invisibilidade de sofrimentos coletivos contundentes constatados largamente pelo grupo asiático e que geram graus variáveis de angústia: de não fazer parte, existir numa espécie de limbo, não ser visto como sujeito, viver entre lugares, desespero e confusão de identidade. Ficamos sem proteção, negligenciados nas discussões, nas pesquisas e nas intervenções sobre discriminação e saúde mental. O discurso dominante revela um orientalismo incrustado que conserva o asiático no imaginário da estrangeirice distante, incidindo inclusive numa estereotipia: é expresso sem ouvir experiências heterogêneas de um mesmo grupo, sem considerar como operam na vivencia dos amarelos determinados gaps na articulação linguística e no domínio do discurso dentro da estrutura social, citando-se por vezes a amiga japonesa de longa data, a vizinha coreana, algum caso anedótico. Ou então, ressalta-se o caráter positivo de ser considerado estrangeiro no Brasil. Ora, mas para gerações que sente falta de raízes remotas, a demanda é pertencer a esse solo, em que semeamos já nossas casas e sementes.

O mito da minoria modelo produz idealização e paranoia na relação com os asiáticos, duas faces de um mesmo mecanismo que se alternam. Provoca uma armadilha, inclusive, para os próprios asiáticos, em sua heterogeneidade ocultada: os que são de classes mais baixas, os que são de gerações recentes, tendem a se envergonharem, e a se rebelarem respectivamente com a imagem de perfeitos e melhores, com a ideologia do esforço e da meritocracia, rejeitando com isso, porém, a própria cultura e seus saberes. A fim de cabermos no ideal pouco flexível da sociedade, da família, refletido em nós mesmos, e assim sermos amados, adoecemos, mas nos desumanizamos quando ficam interditados em nós sinais de falta de performance pessoal, raiva ou descontrole emocional.

Decifrando alguns enigmas… É numa postura empática e curiosa que se deve ver e escutar com bastante atenção os companheiros de outras raças ou etnias a respeito de suas vivencias e queixas envolvendo preconceito. Mesmo amigos, movidos por sentimento de culpa e sem consciência, costumam reagir com negação, amenizando os conflitos. O que é ruim, pois impede o reconhecimento dessas vivências, perpetuando uma dinâmica inadequada. Essa falta de ressonância é relatada comumente por pessoas não-brancas a respeito das relações psicoterapêuticas, principalmente quando o status do psicólogo ou do psiquiatra é superior nas hierarquias de gênero, raça e classe social. Cabe ao profissional ler os discursos e ideologias a que estão servindo: “Como responder de modo a auxiliar efetivamente e eticamente?” Quando as reações do oprimido são explicadas exclusivamente em termos de sua personalidade, cultura e história familiar, a pessoa revive uma solidão, impedindo-se, entre outras coisas, a possibilidade de enfrentamento político. Se por um lado o enfrentamento psicológico tem a ver com o contato, o reconhecimento, o cuidado e o amadurecimento da dor interna. A outra faceta é o fortalecimento dos laços de identificação e de resistência na luta coletiva dos grupos oprimidos.

Ou seja, não estamos sozinhas/os…

Dar visibilidade ao sofrimento e a algumas possibilidades de acolhimento é uma maneira de desconstruir certos tabus. Que histórias e afetos têm sido produzidos nas experiências pessoais de asiáticos no Brasil?

Laura Ueno é psicoterapeuta intercultural. Nipodescendente, viveu desde cedo conflitos de lugar e pertencimento entre suas mudanças entre Brasil e Japão. Arte, amizade e pesquisa sobre relacionamentos interétnicos são recursos que lhe trazem importantes conexões. Atende em consultório em SP e pelo Consulta do Bem. contato: laura.ueno@gmail.com

Referências:

Centro de Valorização da Vida
Dantas, Sylvia; Ueno, Laura; Leifert, Gabriela & Suguiura, Marcos (2011). Identidade, migração e suas dimensões psicossociais. Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, 18 (34).
Sue, Derald W. et. al (2007). Racial Microaggressions and the Asian American Experience. Cultural Diversity and Ethnic Minority Psychology, 13 (1)


 

Motivados pelo texto da nossa querida amiga Laura, para enfatizar a importância de compartilhar a vulnerabilidade e mostrar e demonstrar as diferentes formas e causas de sofrimento, seguem cinco relatos (dos quais três são anônimos) de amigos/as do Outra Coluna.

la fete.jpg

La fête, Jung-Yeon Min (2009)

[Aviso de Gatilho] Atenção: os relatos contêm menção de ideação suicida, transtornos alimentares, automutilação, entre outros sintomas de depressão.


Quando eu tinha mais ou menos 5 anos, fui parar no hospital por autoinduzir sufocamento, obstruindo minhas próprias vias aéreas com um objeto estranho. A minha família nunca soube explicar muito bem o que aconteceu, mas essa é uma das primeiras memórias que guardo com nitidez da minha infância. E o que eu lembro muito bem era da vontade irreversível de infligir dor a mim mesmo.

A ideia de viver em sofrimento, de atentar contra a minha própria integridade e a vontade de dormir e não acordar mais me acompanharam durante praticamente toda minha vida. O resultado disso é, aos 24 anos, uma série de diagnósticos ainda em aberto de “doenças psicossomáticas” e quadros de degradação do meu organismo que parecem nunca retroceder e que médico nenhum consegue consertar: suspeita de reumatismo, de fibromialgia, sintomas de vitiligo, fígado lesionado, síndrome do intestino irritado, processos inflamatórios difusos nos pulmões e na pele (ambos órgãos associados na medicina chinesa com a tristeza).

A minha adolescência foi marcada por acessos de raiva e a minha entrada na vida adulta, por indisposição e muita dor física, além de uma produção relativamente expressiva de cartas de despedidas que, felizmente, nunca foram veiculadas.

Completei, neste mês, um ano e pouquinho de acompanhamento psicoterapêutico, e alguns bons meses sem sentir um desejo muito forte de simplesmente deletar a minha existência.  O meu corpo ainda me parece uma prisão, muitas vezes. Mas a minha raça vem deixando seu papel de carcereiro, e vem se tornando a chave que me abre, a cada dia, mais portas. Em janeiro de 2016, o Blog Outra Coluna completava um mês de atividade e eu comemorava, finalmente, a superação dos meus quadros de depressão. Ter encontrado uma profissional que soube entender a importância das minhas descobertas a respeito do papel da raça e da política na minha formação emocional foi com certeza um dos principais fatores nesse processo de transformação. Ter encontrado pessoas que compartilhassem experiências nas quais eu me reconhecia, foi a outra peça desse quebra-cabeça. A cereja no bolo foi ter passado o ano novo na praia.

Fábio


Sendo mulher, bissexual, asiática e fora do padrão de beleza — tanto ocidental quanto asiático —, minha experiência é carregada de interseccionalidades.

Eu e meu irmão somos os únicos netos de ambos pais Uchinanchu, então a preferência dos nossos avós nunca foi necessariamente um segredo. Não sei se é coisa de Okinawa, da minha família ou simplesmente piedade filial com um toque de machismo, mas minha mãe, a filha mais nova dos meus avós, sempre agiu como chōnan (長男, o primogênito) e me ensinou o mesmo.

Fui ensinada que meu irmão era minha responsabilidade; temos só dois anos e meio de diferença, mas era meu dever ser um exemplo de comportamento e desempenho acadêmico. Aprendi a não chorar, a não exigir atenção — porque “ querer atenção” era sinônimo de “egoísmo” — e, num geral, a não dar trabalho. Aprendi a sofrer em silêncio.

A minha transição para a adolescência foi caracterizada por inúmeros cortes autoinfligidos, um desconforto imenso com meu corpo, constante ideação suicida, muita raiva e a certeza distinta de que eu só estava sendo fraca. Como já tinham me ensinado a não ser fraca, continuei quieta. Engoli as sugestões da minha tia, quase carinhosamente acusatórias, de que eu devia perder peso da forma que eu deixei de engolir comida: sem dizer nada. Deixei minhas notas despencarem por apatia e resignação, porque eu estava cansada o tempo todo. Comecei a andar com homens bem mais velhos porque aprendi a ficar bêbada, mas era menor de idade. Deixei esses mesmos homens bem mais velhos passarem a mão pelo meu corpo em mais de uma ocasião porque eu achava que pelo menos eles querem. Passei uns cinco anos assim, sem vontade de viver e sem coragem de morrer. Isso é quase 1/4 da minha vida.

Hoje faço terapia quinzenalmente e tomo quatro medicações. Muita gente já me falou que isso não é saudável, mas minha saúde exige medidas diferentes. Às vezes tenho recaídas, às vezes ainda não gosto do meu corpo. Mas, com o tratamento e com a militância, encontrei pessoas como eu, aprendi a amar pessoas como eu. Desaprendi o ódio próprio e aprendi a amar a minha pele e a minha cultura. Não é fácil reverter tantos anos de comportamentos autodestrutivos, mas, com o tempo, sei que vou aprender a me amar plenamente — em alto e bom som.

Kemi


Estava na 4ª ou 5ª série do Ensino Fundamental. Nesta fase escolar, os estudos acabam sendo complementados com o rebuliço da puberdade-adolescência. Meninos e meninas não eram somente meninos e meninas. Dias se passavam e começaram a pipocar pelos corredores fofocas de fulanos e ciclanas, de beijos transgressores (para a idade), de perdas de BVs, de paqueras e romances.

Como um dos poucos asiáticos no colégio, minha condição estereotipada de CDF, passivo e quieto culminaram no apagamento violento da minha sexualidade. Desejos eu tinha (por meninos e por meninas, aliás, só para tornar as coisas mais complicadas). Um fato simbólico desta exclusão foi quando começaram a se tornar comuns brincadeiras de “rankear” as pessoas (meninos rankeando meninas, meninas rankeando meninos) em grau de atratividade. Era um consenso que estas listas fossem feitas a múltiplas mãos e logo depois reveladas à sua contraparte. Era um rebuliço e um jogo de poderes, com meninas e meninos saindo vitoriosos no jogo do desejo da puberdade, enquanto outros, não tão bem colocados, saíam extremamente frustrados.

Minha vivência da exclusão e do anulamento da desejabilidade do homem asiático foi muito forte nesta época de crescimento e experimentação da sexualidade. Nunca fiquei no último lugar, mas a verdade, que me dói e traz cicatrizes até hoje, é que meu nome nunca foi veiculado nestas listas, taí a razão de eu nunca ter sido o “perdedor” – nem sequer me permitiram brincar.

Cresci, por conta disso, extremamente inseguro, e na 6a-série foi a primeira vez que flertei com o suicídio. Me sentia só no mundo, não-desejado, totalmente isolado e extremamente decepcionado comigo mesmo por não ser “normal” como todos os outros meninos da minha classe.

Anos depois, já na vida adulta, fui diagnosticado com bipolaridade, e a minha relação com suicídio sempre se deu no plano da banalidade, um dado alinhavado com toda a minha visão de mundo, uma fragilidade do meu modo de viver que carrego desde aquela época.

Não sei o que é viver sem medo de me matar desde os 10 anos de idade. Passei mais da metade da minha vida pensando que não chegaria longe (inclusive, celebrei em segredo no meu aniversário de 25 anos o fato de ter alcançado esta idade. Tudo indicava que eu não chegaria vivo até lá).

O fato de ter sido excluído das dinâmicas de experimentação amorosa-afetiva entre meus pares me marca até hoje, quase 20 anos depois. Ter encontrado grupos como o Perigo Amarelo e ter começado a criar este senso de comunidade com pessoas que também passaram e passam por estas e tantas outras agressões psicológicas (indiretas ou diretas) hoje me permitem me relacionar com minhas origens e minha etnia de modo positivo, encorajador.

Me permitem resgatar uma integridade pessoal que há anos tento encontrar. Hoje, eu me aceito. Me sinto desejado. Me sinto acolhido. Me sinto em paz para ver estas agressões de uma maneira menos individualizada, e sim estrutural da vivência coletiva que muitos asiáticos passam. Espero, com este relato, que outros asiáticos possam olhar para suas vidas e se sintam acolhidos. Não estamos sozinhos/as.

Nota: o autor deste relato prefere permanecer anônimo, mas se disponibiliza a compartilhar e trocar vivências com leitoras/es que tenham se identificado e queiram conversar. Caso tenha interesse, é só mandar um e-mail para perigoamarelo1@gmail.com e nós encaminhamos para o autor!


Ser o filho primogênito de uma família tradicional japonesa é um peso enorme. Além de eu ser o único que carrega o nome da família, era sempre a minha obrigação ser o melhor exemplo para a minha irmã e meus primos. Quando eu errava ouvia que “Você não pode fazer a família passar essa vergonha” e quando ganhava simplesmente recebia um “Cumpriu com a sua obrigação”. Deveria ser o melhor aluno, o mais educado, o mais maduro, deveria me tornar médico ou advogado, eu sentia que deveria desistir dos meus sonhos e desejos para me tornar em um filho troféu, um objeto para exibição.

Deveria ser o primeiro a casar e ter filhos. Quando eu tinha 12 anos e chegavam com as perguntas “E as namoradinhas”, “Quando terei netos” eu fugia com a clássica resposta “Eu tenho que estudar, preciso focar em tirar boas notas”. Essa mentira eu criei para fugir de duas verdades: A primeira era que me sentia romanticamente atraído por meninos, crime que meus pais deixaram claro com a sentença “Se você virar florzinha, te jogamos para fora de casa”. Depois que eu não me sentia desejado, todos os meninos da minha classe, todas as pessoas que eram consideradas bonitas, todos os modelos de beleza eram diferentes de mim.

Eu não era alto e musculoso, era miúdo, pequeno e magro demais. Não era loiro de olhos azuis, meu cabelo preto e meus olhos castanhos eram algo sem sal. Não tinha um perfil de rosto elegante, meu nariz grande demais. Eu odiava cada parte do meu corpo. Comecei a sentir que as pessoas olhavam para mim com nojo, em minha cabeça eles olhavam para mim e pensavam “Olha o japinha do pau pequeno”, “Olha que feio”, “Que nojo”. Comecei a esconder meu corpo com agasalhos e calças largas, por mais calor que fizesse. Durante o intervalo eu permanecia dentro da sala de aula sozinho ou fugia para a biblioteca. Aos poucos o desejo de desaparecer foi aumentando, não queria que me julgassem, não queria mais causar vergonha, não queria mais ter medo. Foi assim que eu acabei tentando suicídio pela primeira vez.

O meu pânico, as minhas inseguranças, o meu ódio por ser quem sou ainda existem dentro de mim. Mas, foi encontrando pessoas como eu, vendo que não estou sozinho, aprendendo a desconstruir o mundo que nos vendem, que eu estou superando esses problemas e tentando afastar o constante sentimento de desaparecer.


Homossexual, asiático/não-branco, altamente sensível, bem distante do modelo de masculinidade patriarcal hegemônico; filho caçula, inicialmente “afeminado”; sobrinho mais novo dos dois lados da família, composta por primos bullies, vivendo numa cidade relativamente pequena e limitada em vários aspectos… Pra se ter uma ideia mais concreta, na minha infância, eu era uma criança que: andava agarrado com bichinhos de pelúcia, gostava de fazer origami com a tia libriana e só foi largar a chupeta tardiamente, não sei com que idade. Não tinha como não ser complicado ou não resultar em um homem adulto com muitos problemas relacionados à autoestima, dado o grau de desajuste. Mas eu me pergunto o que me resguardou de depressão e pensamentos suicidas até os dias de hoje, ainda que tenha esse caráter tão emocional e à flor da pele… Tenho algumas teorias.

Álcool. Aprendi a beber meio novo. Acho que tinha uns 14 anos. Se relembro essa época, percebo que nem entendia exatamente o que me fazia querer beber – eu não gostava do sabor da cerveja. Mas estava lá eu forçando uma cerveja meio quente goela abaixo. Talvez pra me sentir menos desconfortável ao lado das pessoas, mais desenvolto, mesmo havendo tanto a esconder e sublimar… Sim, o álcool tornou meu desajuste menos intolerável, porque me fez em alguns momentos esquecer o sentimento de desconforto por estar num constante desacordo comigo mesmo – o que arrefecia sob efeito do álcool, quando me permitia mostrar uma fração do que eu era. E posso dizer até que me rendeu um certo reconhecimento, considerando que é um mérito – pra um homem em especial – ser “bom de copo”. De certo modo, o álcool teve a sua importância pra minha saúde mental durante a adolescência e início da minha vida adulta porque forjou uma pertença que não existia nos meios sociais em que tentava me inserir – ou me fez abstrair o não-pertencimento, ao menos ocasionalmente. Nessa mesma fase, de hormônios pulsantes, não por coincidência também desenvolvi uma certa compulsão por doces – eu diria um vicio até -, o que eu intuo ter se sido uma tentativa meio autodestrutiva de suprir uma falta de afeto abismal. Eu simplesmente omiti e reprimi a minha sexualidade então, por não sentir que me encontrava em um entorno seguro para tal, nem conseguir vislumbrar amigos, colegas ou conhecidos como possibilidade amorosa.

Música. Para mim, desde o começo a música teve um papel importante, que é o de servir como um elo entre mim e o mundo. Por um lado, foi um elemento constitutivo importante na formação da minha identidade, porque pela música (cantando e arranhando um violão) e por gostos musicais diferenciados, eu me autoafirmava como alguém digno ou menos indigno do que eu mesmo me julgava. Dessa maneira me rendeu uma (auto)percepção positiva da minha identidade – eu era reconhecido e apreciado como alguém mais interessante por causa disso. Por outro lado, a música também teve uma função um tanto catártica, ao servir como esse meio de expressão de sentimentos com os quais me identificava/identifico, criando também a possibilidade de me relacionar com pessoas que tinham a mesma paixão. Em alguma medida, me sentia conectado com uma banda, um/a cantor/a, e por isso menos solitário. Ao mesmo tempo, o simples fato de eu me dedicar a aprender a tocar um instrumento ou cantar talvez tenha servido como uma válvula de escape para uma energia que eu não conseguia canalizar propriamente. A energia sexual, no caso.

Resultado. Acredito que uma ferida que boa parte dos homens asiáticos carreguem esteja relacionada uma autopercepção negativa relacionada à castração, por não nos percebermos como alguém com quem as pessoas possam se relacionar amorosa e sexualmente. Não faz muito tempo, passei a me permitir viver a minha sexualidade – o que por si só já revela o tamanho do problema no meu caso – e tenho percebido em mim uma tendência a ficar extremamente defensivo quando não sinto que estou sendo correspondido, quando julgo que a outra parte não está demonstrando interesse suficiente por mim. Se não paro pra pensar ou conversar com alguém sobre, a tendência é que coloque tudo a perder, antecipando que esse interesse por mim não existe.

Conexão. Mais recentemente, ao entrar na faculdade em SP e me perceber em um entorno mais seguro para meu “Self”, percebi a minha tendência a ser mais aberto e transparente com os outros, no que diz respeito à expressão de sentimentos e emoções. Não tenho muitas barreiras quando se trata de me mostrar vulnerável, e talvez isso me renda uma certa facilidade em estabelecer conexões mais profundas com as pessoas, uma vez que sentem poder abaixar suas defesas estando comigo. As conexões que estabeleci ao longo desse tempo tem contribuído para que eu me sinta reconhecido e acolhido, independente de quem mostro ser. Com essas pessoas, posso simplesmente ser. Os sentimentos de desajuste ainda perduram, carrego muitas feridas, mas ao mesmo tempo sou consciente de pertencer a algo maior – seja uma causa, um grupo de amigues, um perfil psicológico em comum com outras pessoas – e me acredito alguém digno de receber afeto, ainda que perceba umas tendências à autossabotagem…

Como eu vejo o mundo. Pela minha vivência, acredito que a depressão seja muito sintomática do sistema socioeconômico vigente e da entranhada ideologia neoliberal – que por sua vez resultam de um projeto civilizatório homogeneizante, baseado numa ideia tacanha de progresso. Ao longo da nossa socialização, somos programados para operar como indivíduos solitários que devem se responsabilizar por seu êxito ou fracasso. Crenças e valores arraigados ao longo dessa socialização nos levam a achar que estamos sós, que não estamos seguros, que não podemos contar com os outros, que devemos trilhar um caminho próprio no sentido de “ser alguém na vida”; que para sermos amados, devemos preencher este e aquele requisito, atender a determinados padrões de qualidade; no fundo, que o que buscamos para preencher vazios na nossa vida é externo a nós e vai muito além do que já está ao nosso alcance. O depressivo parece acreditar piamente nisso tudo. E se fracassa, é tudo culpa dele, peça disfuncional de um sistema já podre por dentro…

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Ilustração de Yoshitaka Amano

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