PEQUENO MANUAL EM 15 DICAS DE COMO NÃO OFENDER SEU AMIGO DESCENDENTE DE JAPONESES

Depois de reclamar do apelido de japa, ver que muites amigues se sentiram contemplades pela crítica e perceber que os não-nipônicos não nos apelidam por maldade, aqui vão algumas dicas bem DIDÁTICAS baseadas em dados históricos e no famoso bom-senso de como não dar esse e outros closes errados conosco:
1. Não apelide um oriental de “japa” sem ter qualquer consentimento dele acerca disso. Nossa identidade (aliás, a de ninguém) não deve ser resumida somente a ascendência étnico-racial – a pessoa a quem você se refere pode ter ascendência chinesa, coreana, etc. O contrário também vale: não apelide um descendente que não tenha os traços típicos ou que tenha nome brasileiro com um nome asiático qualquer (por exemplo: se o rapaz se chama Felipe, você pode usar o próprio nome dele ao invés de chamá-lo de Toshiro para estereotipá-lo).
2. Orientais NÃO SÃO TODOS IGUAIS. E você vai tomar um cuidado absurdo se resolver apontar as características físicas que diferenciam japoneses de coreanos e chineses: em 1945, 2ª Guerra Mundial rolando, o maior jornal em circulação da época fez uma matéria ilustrada ensinando a diferenciar um chinês de um japonês, descrevendo o japonês como alguém de “aspecto repulsivo, míope, insignificante”. Não faça isso hoje.
3. Não zombe do nome japonês do amiguinho fazendo trocadilho tosco ou com um sotaque que você imagina ser de oriental. Na época da Segunda Guerra, se instalou um repúdio pela paranoia de que qualquer descendente de japonês poderia ser um espião de guerra. No pós-guerra, com a terra natal devastada pela guerra, sem perspectivas de voltar, os pais decidiram preparar os filhos para a vida no Brasil, dando-lhes nomes ocidentais pra tentar uma aceitação melhor. Nosso nome nipônico é resistência a essa perseguição, você não vai tirar sarro disso. E se o nome for difícil, pergunte a pronúncia de novo e tenha em mente o item 1 dessa lista.
4. 82% dos descendentes no Brasil afirmaram que sabem falar um pouco da língua materna – então não precisa perguntar se a gente sabe japonês, a resposta provavelmente é sim, pergunta nosso filme preferido, sei lá, mas nós somos mais interessantes que isso. Eu não vou perguntar se você fala italiano porque seu sobrenome é Bertolli, por que você precisa fazer essa pergunta pra mim?
5. Não ria do descendente que tem dificuldades com o português. A assimilação do idioma pros japoneses foi mais difícil até que a dos alemães e russos.
6. Não ria do descendente que tem sotaque nordestino. Além de ser duplamente xenofóbico, não faz sentido achar graça em algo que você acha que é “”””exótico e improvável”””” sendo que a terceira maior quantidade de descendentes de japoneses no Brasil é a de Pernambuco.
7. Não pergunte se a gente mora no bairro da Liberdade como se esse fosse o único espaço que nós podemos ocupar. Hoje a Liberdade tem cada vez mais influência coreana e chinesa e os municípios com maior número de nipônicos em São Paulo são Mogi das Cruzes, Osvaldo Cruz e Bastos.

 

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8. Não grave músicas assim, você exotiza uma cultura só porque ela é diferente, reforça esteriótipos e ainda paga um micão (menção honrosa pra essa música micão brasileira)
9. Não fique especulando o tamanho do pênis do seu amigo japonês. APENAS NÃO, pare de alimentar o ego da sua masculinidade frágil. Isso reforça o estereótipo do homem asiático com a sexualidade apagada. Esse estigma veio da imigração japonesa para a América (Brasil e Estados Unidos principalmente) em que, em meio a dificuldades financeiras, famílias orientais investiram em negócios de baixo investimento e lucro rápido, como tinturaria, lavanderia e restaurantes. Acontece que trabalhos domésticos assim que envolvem roupa e comida são vistos culturalmente como tarefas “femininas”, e homens asiáticos nesses trabalhos passaram a ser encarados como homens femininos, e pela própria proibição da mulher como um ser sexual, foram tidos como homens sem sexualidade.
10. Por outro lado, homens asiáticos também não podem ser fetichizados. Vamos sair dessa bolha heteronormativa e falar sobre o meio LGBT: o termo Rice Queen é utilizado para designar homens que têm fetiche por outros homens, só que orientais. O fetiche (que de maneira alguma é uma forma de acabar com o estereótipo do homem asiático sem sexualidade, pois não se resolve o problema trocando um estigma por outro igualmente caricato) tira toda identidade da pessoa e a objetifica sexualmente em sua etnia, o que deve ser combatido.
11. Você vai parar AGORA de fetichizar mina japonesa. Vamos abrir uns parênteses pro feminismo asiático nesse item:
A opressão que uma mina japonesa sofre é diferente (não tô falando que é melhor ou pior, só que é diferente) porque ela é dicotômica – ou a mina é hipersexualizada como se vê na maioria das formas de manifestação da cultura pop japonesa (animes, mangás, etc) ou ela é o máximo do bela, recatada e do lar, nos moldes mais tradicionais japoneses. Ela tem que ter uma bunda e um busto enormes contrastando com uma cintura finíssima e ser a dreamgirl lolita de qualquer cara, que acha que pode controlar a mina igual uma personagem de videogame ou tem que ser completamente submissa a família e seus dogmas tradicionais. Por trás desse fetiche, tem o desejo doentio de poder e controle sobre essas minas que sempre tiveram as próprias vontades suprimidas, sem contar a hipersexualização e romantização da lolita – sentir atração sexual por minas com aparência infantil não é saudável, vide pedofilia e efebofilia (atração por adolescentes).
Mulheres orientais não são uma alternativa socialmente aceitável de dar vazão a esse fetiche doentio por meninas mais novas.
Comentários do gênero “a vagina das japas é horizontal igual o olho?” imagino que não preciso nem explicitar o porquê de serem completamente asquerosos.

 

 

12. Você não vai gongar seu amigo se a opção de curso dele fugir do padrão Engenharia-Medicina-Direito falando que “poxa, mas você tem o potencial nos genes! Ah, se eu fosse japonês…”, jogando o esforço no lixo e culpando a ascendência dele. Também lá pra época do pós-guerra, depois de ter bens confiscados no Estado Novo, sem perspectivas de retornar ao país de origem e buscando estabilidade financeira, japoneses faziam Engenharia por números serem mais acessíveis que português, e Medicina e Direito pelo prestígio, pela aceitação na sociedade apesar de serem japoneses. Teu amigo que sai dessa tríade tá rompendo com uma tradição fortíssima da formação acadêmica dos japoneses, incentive-o, porque a família dele provavelmente não o fará.
13. Falando em família…
A cultura nipônica louva o respeito aos mais velhos e a noção de honra. Isso é lindo até os jovens não terem voz num ambiente familiar dogmático e surgir um grupo nipo-brasileiro que assassinava nipo-brasileiros que acreditavam na derrota do Japão em 1945 (derrota seria uma perda da honra – e sim, o conflito vitorista-derrotista existiu no Brasil pós-guerra). Essa tradição é de uma pressão estrutural da nossa cultura que os não-amarelos não tem, motivada também pela obsessão capitalista dos brancos em criar o mito da minoria modelo sobre os asiáticos, que acaba por tornar o sacrifício da vida pessoal em razão do trabalho para perpetuar esse ciclo de produtividade. Negligenciar o emocional obviamente não é uma boa ideia para a manutenção da saúde mental. O isolamento é uma prática absurdamente presente no Japão. Não à toa, o Japão é o sétimo país com maior número de suicídios no mundo (que são vistos como atos de honra e não pecados igual o catolicismo prega) – e é intuitivo pensar que isso possa se estender as comunidades nipônicas no Brasil, que além de lidar com essa tradição, ainda tem a questão da biculturalidade, da pressão sobre a primeira geração para saber se o sacrifício dos pais em deixar a terra natal valeu a pena, dos desterritórios, do não se sentir parte nem de uma cultura nem de outra .
OU SEJA
não faça um escândalo por tirar uma nota maior que teu amigo oriental tido como o supra sumo da inteligência, não ria se ele não entrou direto na USP ou no ITA, não destrua a auto-estima dele, porque alguém na família ou no próprio asiático já tem todo o potencial pra fazê-lo.
14. Não louve quem coloca ator branco pra fazer papel de japonês ou descendente, tem ator que, olha só, É japonês ou descendente, dá emprego e visibilidade pra ele – e não resuma oriental ao papel do amigo nerd sozinho, do programador salvador do filme, do CEO frígido, do dono do restaurante japonês preferido do casal protagonista… menos estereótipo e mais representatividade, por favor!

 

 

15. Por último, nós NÃO SOMOS BRANCOS.
Sim, desfrutamos da esmagadora maioria dos privilégios que os brancos tem – não vamos ser baleados pela PM porque andamos na rua com um saco de pipoca na mão e não somos uma minoria étnica que tá sofrendo um genocídio sem destaque na mídia promovido por latifundiários, mas os próprios brancos já deixaram bem claro que não somos como eles.
Em 1933 médicos sanitaristas chegaram a pedir o fim da imigração de japoneses em prol da eugenia racial pra embranquecer a população brasileira. O regime de cotas de imigração, que previa um limite para a entrada de japoneses, durou até 1980 e, apesar de em lei ser aplicado a italianos e alemães, não os afetou tanto quanto aos japoneses. No Estado Novo, imigrantes tiveram seus bens confiscados, na Segunda Guerra, foram presos e expulsos do país acusados de espionagem. Na Constituição de 1946, por apenas 1 voto de diferença, a emenda 3165 que proibia a imigração de japoneses ao Brasil e institucionaria a xenofobia antiniponista não passou. Defensores da imigração japonesa e organizações culturais, para reintegrar a comunidade ao Brasil, decidiram mostrar que japoneses poderiam gerar filhos tão “brancos” quanto o dos europeus financiando um álbum com fotos de homens japoneses e suas esposas brasileiras e filhos “brancos”. E, pior, isso funcionou.
Não somos brancos – o que não nos impede de ter privilégios diante de outros grupos étnico-raciais e de oprimi-los (vide dona oriental de loja de acessórios impedindo uma negra de provar um turbante porque o “cabelo crespo dela estragaria o produto”). Mas não somos brancos, e é preciso ter isso em mente pra garantir que as nossas opressões particulares não sejam esquecidas.

 

 

 

*Imagem em destaque: Olivia Park and Esther Fan, do SAD ASIAN GIRLS CLUB

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Webgrafia e outros links relacionados:
2. Sobre a descrição pejorativa do japonês no Brasil 
4. Sobre perguntas pra não se fazer a orientais:
– Se orientais fizessem perguntas que os brancos fazem
– Coisas que orientais sempre ouvem
– Situações que mestiços de asiáticos já passaram
11. Sobre feminismo asiático:

Coletivo artístico americano de feminismo asiático
– Artigo pra se aprofundar (em inglês)
– Página brasileira de feminismo asiático interseccional

 

13. Sobre saúde mental de pessoas asiáticas e o conflito vitorista-derrotista
14. Sobre representatividade asiática:
– Manifesto do coletivo Oriente-se
– Principais estereótipos de asiáticos na mídia
– Globo e o boicote à novela Sol Nascente
– Paródia Sol Poente 
– Necessidade de representatividade da mulher asiática no feminismo brasileiro

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