O que faz de Bruce Lee um cara universal e por que Hollywood continua errando?

Por Fábio Ando Filho e Rodrygo Tanaka.

“Eu vim para São Francisco em 1964, na esperança de me encontrar. Dei minhas voltas, aprendi sobre cogumelos, ácido e amor livre. Mas nada daquilo era o que eu precisava. Então um dia, fui andar pela Chinatown, onde descobri o kung fu. E foi assim que conheci Bruce Lee.” É assim que começa o trailer do novo filme-biográfico (biopic) de Bruce Lee, Birth of the Dragon(2016) (O Nascimento do Dragão, ainda não traduzido para o português): com a crise existencial de um homem branco fictício que apresenta Bruce Lee como um mero suporte narrativo ao seu arco de personagem. Tudo para que, no fim das contas, o homem branco conquiste a mulher asiática.

A fórmula não é nenhuma novidade para o cinema e a TV ocidental: recentemente, vimos a história de Pablo Escobar sendo contada por um insosso agente branco da CIA em Narcos(2015-); vimos a história do sistema carcerário feminino estadunidense ser contada pela pouco carismática Piper Chapman (Taylor Schilling)  em Orange is the New Black (2013-); e no Brasil vimos a história de uma família imigrante japonesa sendo contada através do romance de Giovanna Antonelli e Bruno Gagliasso e uma pitada de yellowface.

A prática do whitewashing – o embranquecimento de uma narrativa composta por elementos étnico-raciais não-brancos – foi denunciada por diversos espectadores, críticos e ativistas, principalmente após sua exibição no Toronto International Film Festival (TIFF), no mês passado. A repercussão negativa fez um dos produtores do filme se manifestar em defesa de sua criação. London disse:

“Fizemos isso primeiramente para permitir que os distribuidores do filme o vissem como uma proposta vendível. De um ponto de vista hollywoodiano, Birth of the Dragon aparenta ser um filme estrangeiro: Ele tem um grande elenco de asiáticos, foi financiado por asiáticos, tem apenas um único ator branco. O que é engraçado é que, é que enquanto somos acusados de tokenismo¹ com os personagens asiáticos, durante a produção ficamos preocupados com o exato oposto, porque tínhamos apenas um ator branco”

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Imagem do filme Birth of the Dragon (2016), editada pelo site The Nerds of Color

O grotesco comentário repercutiu  em todos os cantos das redes sociais e na imprensa na última semana. Dr. Felicia Chan, pesquisadora de cinema da Universidade de Manchester disse ao The Guardian:

“Bruce Lee é um ícone e muito conhecido, e carrega um status quase místico em ambos os mercados orientais e ocidentais. Não é como se o personagem/pessoa precisasse ser explicado para a audiência… Existe algo de ilógico e irônico retratar uma possível forte “influência” que Lee teria recebido no ocidente ao ficar lado a lado com ele (personagem branco)”

O blogueiro Philip da página You Offend Me You Offend My Family destacou quão inadequadas são as ideias de que “precisamos de um cara branco” ou “asiáticos fazem parecer um filme estrangeiro”. A filha de Bruce Lee, Shannon Lee, que havia anunciado em março de 2015 que começaria a rodar um filme para retratar a verdadeira história de seu pai, pronunciou-se nas redes sociais, indignada:

“[…]esse filme é uma bizarrice em muitos níveis. Eu penso que esse filme é um retrocesso para asiáticos no cinema, sem mencionar que o retrato de Bruce Lee  é impreciso e ofensivo. Eu estou desapontada que tal projeto seja financiado e produzido”

O que está por trás desses desajustes todos da cinematografia estadunidense é a vontade ocidental de formular tipos ideais para a humanidade, que seguem modelos-padrão de desenvolvimento de caráter e almejam formatos universais de homem (branco). A pulsão colonizadora ocidental-branca acompanha essa vontade de exportar a utopia/distopia da uniformidade moderna, enquanto a platitude dessa mesma história faz seus sujeitos se apropriarem daquilo que acham exótico para tornarem menos desagradáveis suas próprias existências. O funcionamento básico de um colonizador é usar o Outro de adereço para se sentir menos desinteressante, enquanto carrega em si o fardo de aperfeiçoar a humanidade. Esse é o fardo do homem branco, o mito essencial para qualquer aspirante a colonizador branco.

Isso tudo implica às minorias étnico-raciais o silenciamento forçado de seus modelos de humanidade. Para o homem branco, as vidas negras, indígenas, asiáticas, são todas desviantes, passíveis de correção, que devem ser endireitadas, recauchutadas. A realização da experiência humana é impossível num corpo de outra cor. Para eles, as histórias de cor nunca serão universais.

Quão universal de fato é Bruce Lee?

Em 2006, quando Bruce Lee completaria 65 anos de vida, o Mostar Urban Mouvement, um grupo de ativistas na Bósnia, financiados pela Alemanha e endossados pela embaixada chinesa, inaugura na cidade de Mostar o primeiro monumento à memória do ator-filósofo-lutador-cineasta. Outros dois monumentos do tipo foram erguidos em Tsim Sha Tsui, Hong Kong, de onde vem a família Lee e em Los Angeles, nos EUA, mas o monumento na Bósnia ganhou atenção especial das mídias pelo seu valor simbólico.

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Inauguração da estátua de Bruce Lee em Mostar, Bósnia.

A Bósnia foi historicamente uma rota conflituosa entre ocidente e oriente, a cidade de Mostar é famosa pela ponte construída pelo império Otomano, destruída durante a guerra e reconstruída heroicamente pelos habitantes da cidade. A história das famosas pontes bósnias de contato intercultural foi imortaliza na obra A ponte sobre o Drina, de Ivo Andrić. A cidade de Mostar também ficou conhecida pelo “sucesso” da limpeza étnica empreitada pelos regime fascista na Croácia, que dividiu a cidade em duas: uma região de bósnios-croatas e uma região para as etnias e religiões remanescentes.

Veselin Gatalo, um dos jovens responsáveis pela ideia, explica o quê o monumento representa para ele: “Nós seremos sempre muçulmanos, sérvios ou croatas. Mas uma coisa que todos nós temos em comum é o Bruce Lee”. Nino Raspudiæ, outro ativista envolvido com o movimento explica:

“Eu odeio dizer para as pessoas que sou de Mostar, porque elas me perguntam imediatamente se eu venho do Leste, bósnio, ou do Oeste, croata. Essa é uma das razões para construir esse monumento. Espero que um dia as pessoas dirão: Ah, eu conheço Mostar. É a cidade com o monumento do Bruce Lee.”

Horas depois da inauguração da peça, um grupo de jovens atacou a estátua, tirando de Lee a sua arma (nunchaku). Algumas pessoas atribuem esse evento à barbaridade da juventude, outras a uma retaliação por parte de grupos das duas etnias majoritárias, que identificavam na arma e na postura da estátua um símbolo demasiadamente bélico. Um jornalista estadunidense de origem eslava contrapõe: ninguém nunca realizou um massacre com nunchakus ou armas inventadas antes da dinastia Han.

Por mais simplistas e contraditórias que possam parecer essas manifestações, ela ilustra bem como a humanidade pode buscar universalidade naquilo que parece desviante, que nasce do conflito, que se expressa na ambiguidade.

O que faz de Bruce Lee um sujeito universal?

É possível se reconhecer na trajetória de Bruce Lee sem entrar no mérito de sua filosofia e de suas artes. Para além dos pensamentos incisivos, da luta inovadora e da cinematografia atrativa, a vida de Bruce Lee se desdobra em múltiplas narrativas de desencaixe e reterritorialização. A transitoriedade de sua identidade entre a Chinatown de São Francisco, onde nasceu, e a China, especialmente Hong Kong, de onde veio sua família e onde construiu grande parte de sua carreira, representa a história de desterritorialização de milhões de pessoas em trânsito no mundo todo. O confronto entre as expectativas projetadas sobre a masculinidade do homem asiático na diáspora nas Américas desvela o desajuste entre padrões do patriarcado no ocidente e no dito oriente. O embate com as ficções do perigo amarelo, do Fu Manchu, da minoria domesticada, a resistência às investidas do colonizador que torna o mundo um acessório das fábulas que conta para escapar do marasmo de sua vida medíocre é uma luta convidativa para nós do sul global, das margens, dos não-lugares.

Em sua própria carreira, Lee batalhou contra o achatamento de sua própria identidade: “É sempre aquele rabo de cavalo, sair pulando, “chop-chop”, sabe? Com os olhos puxados e tudo mais. E eu acho que isso é muito, muito antiquado […] Eles querem que eu faça muitas coisas só por eu ser exótico. Talvez, no contraste da comparação, algo novo possa surgir”. Esse conflito de expectativas fez Lee afirmar reiteradamente a sua autenticidade, justificando nas artes marciais a busca pela expressão de seu “eu” verdadeiro.

A universalidade de Bruce Lee é a dinâmica da dualidade, das bifurcações, da ambivalência, da dialética, do Yin Yang. A sua trajetória desmonta os idealismos purificados e constrói uma vida em contradição, uma vida de negociações, uma vida real.

As tentativas de Hollywood em fabricar uma humanidade única e o autoritarismo da ficcionalidade branca não são capazes de dar conta dos verdadeiros dramas humanos. O sucesso de suas produções que continuam nos cativando reside na mágica/ilusão de cumprir as expectativas que eles mesmos há décadas inculcaram em nossos imaginários. A doutrina do destino manifesto, o fardo do homem branco, a missão civilizatória, a Odisseia e a Jornada do Herói, a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo são os produtos vendidos pela máquina de propaganda branca-ocidental, principalmente estadunidense. É por isso que Hollywood continua errando.

Falando em propaganda. Segue uma lista com obras da propaganda anti-asiática, compilada pelo site AsAmNews:

  • Quebrando a banca (21)História real de estudantes asiáticos do Instituto de Tecnologia de Michigan (MIT) e que foram interpretados por atores brancos
  • O reino proibido (The Forbidden Kingdom)(somente um homem branco que aprende Kung Fu pode salvar a China e a garota asiática do mal)
  • O Imperador (Outcast)(Navegadores brancos chegam e salvam a China e a garota asiática de um maléfico príncipe chinês)
  • Wolverine: Imortal (The Wolverine)(Todo homem asiático é inútil e more, enquanto Wolverine salva todas as mulheres asiáticas mas volta para casa com a garota branca que é seu verdadeiro amor)
  • Nascido para matar (Full Metal Jacket)(“eu amo você muito tempo, eu tô tesão”)
  • O ultimo mestre do ar (The Last Airbender)(Todos os heróis étnicos foram substituídos por brancos, mas os vilões permaneceram étnicos)
  • O homem com punhos de ferros (The Man With The Iron Fists)(Todas as mulheres asiáticas são prostitutas sexualizadas)
  • O ultimo Samurai (The Last Samurai)(um homem branco vai ao Japão, mata o seu cunhado, dorme com a sua irmã e bate em seu melhor amigo em uma luta de espadas depois de treinar por meses, e salva o Japão)
  • 47 Ronin(Somente um asiático mestiço nascido de um pai branco pode salvar a princesa, os outros 47 ronin são aparentemente inúteis)
  • Amanhecer Violento (Red Dawn)(Chineses são maus, mas eles assistem filmes de Hollywood então vamos fazer eles serem Norte Coreanos)
  • Dragonball Evolution(Vamos fazer Goku ser um homem branco mas manter a menina asiática)
  • Círculo de fogo (Pacific Rim) (Somente um homem branco pode salvar o mundo e proteger os asiáticos pobres e oprimidos e salvar a menina asiática em perigo. Homens asiáticos são inúteis e morrem)
  • Homem de ferro (Iron Man)(O Mandarim é um anão ao invés de ser um mega vilão)
  • Se beber, não case (The Hangover)(Piadas sobre o pênis de asiáticos em pelo século 21. Muito maduro)
  • Gatinhas e gatões (Sixteen Candles)(Long Duk Dong, o asiático nerd emasculado que é a grande piada de uma geração inteira)
  • Bonequinha de Luxo (Breakfast At Tiffany’s)(Aquele asiático nervosa com dentes enormes interpretado em yellowface)
  • Entourage (Lloyd, o cômico asiático gay gordo)
  • 2 Broke Girls (Matthew Moy, outro personagem asiático estrangeiro nerd)
  • Make It Pop (3 meninas asiáticas com um menino branco em um programa sobre cultura pop coreana, é um show para crianças!)
  • A entrevista (The Interview)(Homens brancos vão para países asiáticos pobres e fazem piadas/matam o homem asiático enquanto fazem sexo com uma mulher branca, enquanto o lider supremo da Coréia do Norte é na realidade outro idiota emasculado que secretamente sonha em ser Americano mas na realidade é inútil e morre).
  • The Great Wall(A China recebe um tratamento O ultimo samurai, estrelando Matt Damon).
  • Horas de desespero (No Escape)(Família branca se muda para a Tailândia, descobre que alguns terroristas asiáticos, resolvem escapar do país equanto usam asiáticos locais como escudos humanos)
  • Todas as histórias de Marco Polo, seja a série do Netflix, seja a obra de Ítalo Calvino.

Para quem quiser tirar suas próprias conclusões a respeito do Bruce Lee, além dos próprios filmes dele, há mais de 30 documentários listados no Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Bruce_Lee_filmography

 

 

 

 

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