“Existe toda uma história que constrói meu corpo e ele é percebido por estereótipos” – entrevista com Ana Tomimori

A exposição Pós-poéticas, em cartaz desde o dia 18 de novembro, inaugura o Espaço das Artes, antigo Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo. A mostra traz obras dos artistas Ana Tomimori, Andréa Tavares, Cassia Aranha, Filipe Barrocas, Inês Bonduki, Julia Mota, Juliano Gouveia dos Santos, Pedro Hamaya e Renato Pera, relacionadas às pesquisas de pós-graduação de cada um deles ao longo dos últimos 2 anos.

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Registros da intervenção urbana “Bandeira”

Ana Tomimori, artista visual integrante da exposição, tem nacionalidade brasileira e ascendência japonesa. Seu trabalho apresentado na Pós-poéticas investiga como o discurso hegemônico e colonialista europeu acaba deixando seus rastros de exclusão. Sob o olhar de mulher não-branca, suas obras trazem marcas dessa vivência e da história que ela carrega  reinterpretadas pela própria artista. Ana, com a não-neutralidade que o corpo asiático carrega, apresenta desde bordados até intervenções urbanas, que exploram os estereótipos que automaticamente são associados  a etnias não-brancas.

A entrevista na íntegra, a segunda da seção de Entrevistas Populares, você confere a seguir!

Outra Coluna: A exposição Pós-poéticas fica em cartaz até março de 2017 – quais obras você apresenta nela?

Ana Tomimori: Na exposição apresento um conjunto de trabalhos no qual tento relacionar a história do Brasil e minha origem japonesa, a junção dessas duas culturas que já não se enquadra no estereótipo do “brasileiro” ou no do “japonês”. Apresento uma intervenção urbana intitulada “Bandeira”, em que pedi para que um feirante distribuísse pastéis de vento com um furo no meio, as embalagens ao invés de sabores continham hai-kais em português (poesias de Celso Yokomiso). Também uma série de bordados que pedi para homens fizessem a partir da temática sobre a vagina da mulher oriental ser na horizontal. E um vídeo, com dois objetos, uma bandeira do Brasil preenchida com pó e um sabão feito a partir de óleo de pastel.

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Embalagens de pastel com hai-kais feitas para a intervenção urbana “Bandeira”

 

Outra Coluna: As obras fazem parte da sua extensa pesquisa de mestrado, Descontornos de um mapa – como você escolheu quais obras fariam parte dessa exposição? Por que esse título?

Ana Tomimori: Essa exposição tem a finalidade de apresentar os trabalhos práticos dos mestrandos em poéticas visuais, no antigo MAC da USP, que agora é o Espaço das Artes. Também é uma maneira de ocupar o espaço e dar um outro sentido a ele, não mais de museu, que muitas vezes apenas apresentava artistas já consagrados e oferecer oportunidade a outros artistas, fazendo um vínculo maior com os estudantes da própria universidade. Como isso é algo recente, o local não tem equipamentos como projetor, telas, televisores, então optei por trabalhos os quais refleti no mestrado mas que fossem mais objetos, porque a intenção inicial era apresentar também dois vídeos. Esse título “Descontornos de um mapa” tem relação com essa idéia de país, que se constitui em hinos, bandeiras, mapas, identidade “brasileira”, mas é uma organização que acaba sendo extremamente excludente. A sugestão de descontruir essa linha fechada de um território me pareceu pertinente pois muitas vezes não me senti representada nisso que é considerado o “brasileiro”, mesmo sendo muito brasileira.

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“Desencontros de um mapa”

        Outra Coluna: Tratar sobre diáspora de asiáticos no Brasil e os efeitos negativos que ela gera em nós ainda é bastante difícil, seja por ser um tema pouco debatido ou pela ideia equivocada de que somos brancos, e não amarelos; sua produção dialoga fortemente com essa questão de desterritório, e imagino que nem todo mundo teve contato com essa problemática antes de você apresentá-la  – como foi a recepção (seja de família, amigos ou público em geral) ao seu trabalho?  

Ana Tomimori: Realmente é um assunto muito difícil de tratar, porque apesar de sermos uma comunidade significativa (os asiáticos no Brasil), ainda problematiza-se pouco sobre o preconceito com o asiático. Não é que nunca tinha  a ver com o preconceito, eu associava preconceito ao negro ou nem sabia onde ia buscar as referências, existem muitas coisas interessantes sobre o assunto, mas elas circulam pouco, ficam fechadas na academia. O que vejo mais por aí é uma tentativa de afirmação da comunidade, como celebração dos cem anos da imigração japonesa, eventos, mas quase não vemos o preconceito sendo tratado. E às vezes eu nem sabia onde ia buscar as referências, quais as palavras eu tinha que usar, porque muitas vezes você começa a entrar em questões que não encontra no seu meio. Ninguém nunca me disse que as coisas que aconteciam na minha vivência tinham a ver com o preconceito, eu associava preconceito a comunidade preta.  Mas de certa forma é muito difícil que eu seja vista como intelectual, eu sempre vou ser vista como nerds, ou que “roubo” a vaga de alguém na universidade ou no trabalho, como extensão já percebi que as vezes te enquadram como artista “acadêmica”, porque não posso ser vista como criativa ou sensível? Existe toda uma história que constrói meu corpo e ele é percebido por estereótipos.

Acho que a forma de reagir ao preconceito dos nipo-brasileiros, muitas vezes foi se afirmando através da ascensão econômica, absorvendo certos valores eurocêntricos, sem conseguir processar o que isso implicava. É complicado porque tem muito asiático preconceituoso com os pretos, indígenas, nordestinos, e até consigo mesmo. A gente acaba sendo mal visto quando quer dialogar com outros movimentos sociais, fica sempre difícil dizer que o que vivemos cotidianamente também teve a ver com uma política pública que nos excluiu. Não sei realmente se as pessoas entendem o que quero dizer com meu trabalho, muitas vezes me disseram que isso tem a ver com uma vitimização, com uma questão pessoal minha mal resolvida, acham que o que estou tentando dizer tem a ver com uma comunidade fechada. Mas eu particularmente acho que isso não tem a ver somente comigo, isso tem relação com a história do Brasil, e tento insistir porque considero que é um processo de compreensão que não é imediato, que está sendo pensado, movimentado,  escrito e buscando diálogo.

 

15310620_1248223765216483_2108504320_nHorizontal (2012)

 

      Outra Coluna: Para mim, é muito doloroso precisar expor experiências pessoais para explicar a existência de uma opressão para alguém a quem ela não se aplica. Os bordados de vagina na horizontal chamaram minha atenção mais do que qualquer outro trabalho por se relacionarem com essa prática, porque, além de principalmente mostrar que nossa vivência como não-brancas é outra, é preciso mostrar também para os homens que a nossa vivência não é a mesma que a deles, apesar de termos em comum a ascendência asiática – como foi a construção dessas obras?

Ana Tomimori: Uma vez escutei isso de uns caras, eles riam e eu nem sabia sobre o que estavam falando. Isso ficou na minha cabeça por anos. Porque minha vagina era colocada dessa forma tão escancarada, o que parece que da essa autorização para que digam coisas sobre meu corpo que não dizem a outras mulheres, porque isso é assunto público? Depois de um tempo comecei a associar isso ao machismo, porque isso parte de um universo masculino. A obra surgiu assim, dessa minha inquietude com tal fato e vontade de que isso fosse colocado aos próprios homens. Faz parte de uma exotização do outro, parece que nós somos essas pecinhas que existiam nos “freak shows”, macaco com duas cabeças, máscaras africanas, mulheres com a vagina na horizontal.

Olha, eu tendo achar que para os homens a situação de ser o outro é pior ainda, porque o pênis dele é colocado em questão, o tamanho do pênis do homem asiático é sempre um motivo de humilhação em praça pública, e isso em uma sociedade machista fere muito. A questão não é o tamanho, nem a posição das partes do nosso corpo, acho que o negócio é o porque esse tipo de comentário é uma piada naturalizada? Enquanto o corpo foi um tabu por muito tempo, o nosso pode ser exposto como chacota pública? Antes de eu ser alguém, sou uma piada, sou uma vagina, um falo? Existe aí uma disputa de ideologias entre o ocidente e oriente, que é disseminado nesse tipo de preconceito.

Agora eu acho que nós, mulheres asiáticas, somos duplamente oprimidas pela sociedade ocidental e pelos próprios homens asiáticos. É claro que os homens asiáticos tem muito mais incentivo para ocuparem espaços públicos que nós mulheres asiáticas. Muitas vezes são tratados como melhores, são servidos pela família, isso interfere diretamente na auto estima deles e na nossa, né? Sempre que me colocava em espaços público parecia que estava me intrometendo em um lugar que não me pertencia, essas coisas ficam na gente e é preciso desconstruí-las.

 

        Outra Coluna: Sei que você tem uma relação forte com países da América Latina além do Brasil. Como é sua relação com esses lugares? Eles contribuíram na formação da sua identidade? E na sua produção artística?

Ana Tomimori: A América Latina não teve nenhuma influência na minha formação. Eu aprendi sobre a revolução francesa, a unificação alemã, tive aulas de inglês. Aí chega a cultura pop, os filmes, TV a cabo com séries americanas, todas as imagens. A gente não aprende quase nada de literatura Latino Americana, não sabemos sobre os nossos países vizinhos. Foi quando já estava me questionando sobre ser nipo-brasileira, que não me sentia representada, que comecei a observar o quanto a gente não tinha referências das próprias culturas americanas que são originárias do continente, como os indígenas. E fiz um trabalho sobre isso, fui para a Bolívia. Comecei a observar como eu era muito mais parecida fisicamente com um indígena que com um europeu, e tanto a gente quanto eles não se vêem em imagem de revista nenhuma, ao não ser que seja para simular o “exotiquinho” da “National Geografic”. Sim, as histórias podem ser muito diferentes, mas elas talvez se relacionem quando vemos uma pasteurização do que é considerado “normal”, que na verdade isso é associado a ser uma pessoa branca, de cultura ocidental. Eu já sou uma pessoa asiática de cultura ocidental, onde isso se encaixa? Ai sim comecei a me relacionar com cultura latino américa, ver os países vizinhos, ver que o racismo era uma ideologia política institucionalizada.

   

    Outra Coluna: Quais artistas são referências para você?

Ana Tomimori: A Ana Amorim, por exemplo, é uma artista muito boa que na minha opinião foi meio deixada de lado na história da arte brasileira, ela questionou todo um sistema, foi extremamente coerente com sua escolha de vida. Na performance “artista impossível”, que durou dezesseis anos, ela se negava a participar de qualquer exposição que pudesse colocar a marca da instituição ou que tivesse vínculo com algum esquema financeiro de que não concordasse com o procedimento. Isso era o trabalho, muita gente acha ingênuo, radical, mas na verdade eu acho que questiona pois nós artistas temos uma precarização na nossa condição laboral, a realidade não corresponde ao glamour das vernissages com champanhe que ocorrem por aí, ou aos prêmios e aos curriculuns lattes cheios de quantidades.  Com o trabalho “artista impossível” ela revela esse sistema de arte brasileiro profundamente ligado a ideologias colonialistas, baseado muito mais nas relações pessoais de poder do que num trabalho crítico do pensamento. Outra artista que foi muito bom encontrar foi Liliana Angulo, colombiana, que em sua obra expõe o racismo contra os pretos. Além de um trabalho consistente, ela é uma militante política, sua atuação extrapola o campo artístico e se estende como cidadã mulher e afrodescendente. Os trabalhos são bem pertinentes, ainda mais em Bogotá em que o racismo é grande e não vejo que se fala disso no meio de arte, mas é bom enfatizar que existem referências colombianas e é preciso ir atrás de algumas para compreender o contexto . Às vezes parece que arte política válida é lugar dos caras. As artes visuais (artes plásticas) é um meio com muita mulher mas os consagrados ainda são majoritariamente homens, pode sair por ai contando nos livros de história da arte ou artistas que estão se projetando, isso não é exagero. As coisas estão mudando, mas ainda falta, essa questão ainda é vista como uma “histeria”, uma “moda” e não uma luta. Fico me perguntando, como a Ana Amorim seria tratada se fosse homem? Ainda quero colocar em minhas referências mulheres asiáticas no Brasil, por ver como as novas gerações estão se movendo, com certeza isso vai acontecer rapidinho.

 

15300600_1248224008549792_64895404_nSabão feito para o vídeo “Hino”

 

Outra Coluna: Por fim, quais são seus planos para trabalhos no futuro?

Ana Tomimori: Eu gostaria de seguir criando, não sei como. Às vezes a gente faz planos e sai tudo diferente. Hoje penso que o racismo, preconceito é algo que quero continuar explorando, principalmente porque dentro dele existem matizes, nuances, existe também racismo contra os asiáticos e seria bonito que a luta pudesse ser feita com pessoas de todas as raças, que pudesse haver empatia com a causa. O que a “Lótus Power, “Outra coluna”, “Asiáticos pela diversidade, etc tem feito tem sido muito importante pois estão repensando conceitos, reescrevendo nossa própria história. Tanta gente te fala que você esta viajando que às vezes começa a pensar “talvez eu esteja exagerando, talvez eu esteja delirando”. Acho que até agora continuei com isso pois percebi que eu mesma tinha preconceito contra mim, isso é foda e às vezes a única coisa que me provava que ele sim existia. Essa temática até agora me fez sentido. Acho que os trabalhos não tem que estar presos, eles tem que fluir, se um dia quiser falar sobre outras coisas, tá tudo certo também. Os planos vão acontecendo no decorrer da caminhada.

 

Exposição Pós-poéticas

Períoda da exposição:  24 de novembro de 2016  a 18 de março de 2017

Horário: segunda à sexta, das 9h às 18h |  sábados e domingos, fechado

Local: Espaço das Artes: Rua da Praça do Relógio, 160.

Entrada gratuita

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