Que minha pequena voz alcance a sociedade: Uma mensagem de Aya Kamikawa

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No dia 29 de Fevereiro comemora-se o Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais. Esse dia foi criado em 2004, quando o Ministério da Saúde e entidades da sociedade civil lançaram a campanha “Travesti e Respeito”, em reconhecimento à dignidade dessa população.

Segundo o Relatório de Violência Homofóbica publicado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, travestis e pessoas trans são as mais suscetíveis à violência, manifestada na forma de injúrias, agressões físicas e psicológicas, tratamento abusivo e assassinatos. E segundo o Projeto de Monitoramento de Assassinatos de pessoas Trans da Europa (TMM), o Brasil é o país que mais matas travestis e pessoas trans do mundo. E por causa da transfobia e rejeição, pessoas trans são nove vezes mais propensas a cometer suicídio.

Apesar de tanto sofrimento, pessoas trans no Brasil e ao redor do mundo tem lutado para melhorar a condição de vida e alcançar o direito de viver plenamente a sua identidade de gênero. Uma dessas pessoas é a militante, autora e a primeira pessoa abertamente trans a conseguir ser eleita no Japão: Aya Kamikawa.

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Aya Kamikawa nasceu na cidade na cidade de Tóquio no ano de 1968, formou-se em administração pela Universidade de Hosei e trabalhou por cinco anos no departamento de relações públicas de uma empresa de Tóquio. Foi no ano de 1998, com trinta anos, que Aya se identificou como pessoa trans.

Entre os anos de 2000 e 2003, ela trabalhou no Trans-net Japan (TNJ), um grupo de acolhimento e estudos das questões trans. Em 2003 ela se candidatou ao cargo de membro da assembléia municipal de  Setagaya e foi eleita, tornando-se a primeira mulher trans a conseguir um cargo político do Japão.  Foi reeleita no ano de 2007, 2011, 2015 e atua agora no seu quarto mandato.

No ano de 2005 conseguiu que a mudança de gênero para pessoas trans fosse reconhecida através da Lei referente ao gênero e ao tratamento de pessoas transgênero, e no ano de 2012 foi premiada pela Embaixada dos Estados Unidos com o Woman Of Courage Award.

Hoje trazemos aqui a tradução da mensagem que Aya Kamikawa abre seu livro “A coragem que muda – Uma mensagem de uma mulher trans ” (Sem tradução no Brasil)

São as pessoas que estão sofrendo que tem mais dificuldade de levantar a própria voz.

Esse é o sentimento que eu, uma pessoa identificada como trans, tem.

Eu vivi até os 27 anos como “homem”, e a partir dos 30 anos passei a viver como mulher.

Apesar de ter nascido com um corpo designado masculino, desde criança eu não me via como homem.

Se eu me comportava como eu realmente me sentia, me culpavam por ser “pouco homem”, e todas as minhas paixões eram homens.

Eu mesma não entendia quem eu era, e não tinha ninguém para me aconselhar. Por isso, eu vivi enganando o meu coração.

Afogada em um ambiente que afirmava firmemente que o mundo tem uma única forma, eu temia estar fora daquilo que era “normal”.

E como eu consegui recuperar o meu eu verdadeiro a ponto de eu conseguir me candidatar nas eleições municipais?

Nesse livro eu tento, primeiramente, tecer essas minhas experiências.

Quando eu me abri publicamente e comecei a trabalhar, percebi que na sociedade existiam muitas minorias além das minorias sexuais que, assim como eu, vivem sem conseguir levantar a própria voz.

Depois de me sentir acuada e de sofrer, depois de tatear as possibilidades, hoje sinto que nessa sociedade, se você não levantar a sua voz, tomarão você como inexistente. Se continuarmos em silêncio, nada irá mudar.

Na segunda parte deste livro tento falar sobre as mudanças que ocorrem quando cavamos as necessidades que costumamos enterrar, assim como dicas de como levantar a sua voz para mudar a sociedade. Mas é necessária muita coragem para dar o primeiro passo.

Mas, na minha experiência pessoal, se você conseguir pensar em modos de levantar a sua voz, com certeza irá encontrar pessoas que respondam ao seu chamado.

Ficarei muito feliz se, ao ler esse livro, você conseguir, nem que minimamente pensar:

“Eu não fui descartada pela sociedade!”

Originalmente publicado pela Editora Iwami no ano de 2007, o livro de Aya Kamikawa conta a sua vida como mulher trans e os caminhos que ela teve que percorrer para encontrar a própria voz.

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