Representação trans e a grande estréia de Ian Alexander em OA

ian-alexander-1482874757

Tradução do texto de John Walker para o site Vulture. Para a postagem original clique aqui.


Ian Alexander teve a semana que muitos aspirantes a atores somente sonham. Na última sexta-feira (16/12/2016), esse jovem de 15 anos teve a sua estréia profissional na série de ficção científica da Netflix: The OA. Ele interpreta Buck Vu, um estudante dos subúrbios que se torna amigo de um anjo interdimensinal (ou, pelo menos, com uma mulher que diz ser um anjo interdimensional). E ele também é um homem asiático trans – um tipo de personagem que raramente, ou nunca, foi apresentado na televisão.

De acordo com a GLAAD (Aliança de Gays e Lésbicas Contra a Difamação), somente 16 personagens fixos e recorrentes foram encontrados em roteiros de televisão nessa temporada. Somente quatro desses 6 eram homens, e somente um era asiático. Levando em consideração o mau tratamento de Hollywood com atores trans e asiáticos, não é de se admirar que as pessoas de diferentes nichos da internet tenham gravitado sobre a performance sensível e acalentadora de Alexander. Nessa quarta-feira (21/12/2016), no meio das férias de inverno, a Vulture conversou com Alexander sobre The OA, sua atuação e o que Buck significou para ele.

mgid-ao-image-logotv

The OA sugou boa parte da minha semana. Você já assistiu ela?

Eu sentei com a minha mãe e assisti tudo no Domingo. Uma coisa é você ler o roteiro e ver pequenas partes dela no set de filmagem, mas ver ela completa foi incrível.

Que tipo de devolutiva você recebeu?

Até agora, foram bastante devolutivas de apoio. Eu sei que os meus seguidores aumentaram astronomicamente desde que o show foi ao ar. Eu fiquei abismado como muitas pessoas amaram e se conectaram com o personagem. Pessoas tem mandado mensagens contado o quanto eu ajudei elas a saírem do armário para a família e como eu as ajudei a serem mais confiantes a respeito da própria identidade. Foi tudo o que eu queria que o show proporciona-se para as pessoas.

Buck é um jovem homem trans. Como você se identifica?

Eu me identifico como um home trans, porém eu ainda estou experimentando com gêneros não-conformistas e a possibilidade de ser não-binário. Eu normalmente uso o pronome “ele”. Sobre a sexualidade, eu me identifico como pansexual, o que significa que me sinto atraído por pessoas independentemente do seu gênero.

Você é bem ativo no Tumblr e no Twitter. Como é a sensação de passar da posição de pessoa que compartilha material para a pessoa que é o material de compartilhamento?

É incrível. Parece que eu estou sonhando com tudo isso, tipo, eu vou acordar e perceber que continuo sendo uma criança normal. Eu era assim, uma pessoa que criava e compartilhava conteúdo sobre os programas que eu gostava. Hoje, eu vejo isso acontecendo com algo que eu estou envolvido. Eu gostaria de encorajar essas pessoas o máximo que eu puder. Eu estou seguindo todas as tags relacionadas ao The OA e ao meu personagem e curtindo todas as postagens. É tão engraçado ver as pessoas respondendo as próprias postagens com fotos das minhas curtidas e compartilhamentos com a frase “Ai meu Deus, ele me curtiu”. Eu realmente nunca me vi como o objeto do interesse de alguém.

The OA foi a sua primeira grande atuação, certo?

Sim, foi a minha primeira experiência fazendo algo diferente do teatro comunitário ou peças de escola. Eu tenho realizado mais trabalhos de bastidores recentemente, trabalhando em detalhes técnicos. Mas eu já fiz alguns personagens de Shackespeare. Eu interpretei vários papéis masculinos quando estava crescendo; Eu nunca realmente questionei isso. Interpretar personagens masculinos simplesmente era algo natural para mim, mas olhando para trás, isso realmente faz todo o sentido agora. (Risadas)

Eu li que você encontrou a chamada de elenco através de uma postagem do Tumblr. Isso é verdade?

Sim.

De acordo com Brit Marling, ela e Zal Batmanglij estavam determinados em chamar um ator asiático trans para o papel de Buck. Você se surpreendeu  com uma oportunidade tão direta?

Com certeza foi uma surpresa agradável. Eu nunca fui aqueles que saem e procuram ativamente papéis. Se em minha escola havia uma peça, eu ia e tentava, mas eu realmente nunca imaginei que haveria uma oportunidade para alguém como eu na série. A chamada de elenco era bem específica. Procuravam por um “homem trans asiático de 14 anos para interpretar um personagem trans asiático de 14 anos”. Na hora eu pensei “Bem, eu tenho 14. Eu sou asiático. E eu sei atuar. Eu acho que eu deveria tentar. Por que eu não deveria?”. Eu estava tão animado. mas eu realmente nunca imaginei que receberia uma resposta. Eu era somente uma criança sem nenhuma experiência que não morava em Nova York ou Los Angeles. Eu tentei mais como uma declaração para mim mesmo, do tipo, “Por que não me expor ao mundo?”

Depois que você entrou no elenco, como você se preparou para o papel?

Como eu disse, eu não tinha experiência profissional. Eu não sabia por onde começar. Eles providenciaram um instrutor de atuação para mim, que me ajudou a montar o meu personagem. Eu tinha todas essas emoções e características em comum com o personagem, eu acho, mas eu não sabia como colocar tudo isso na minha atuação para que fosse capturada em cena. (O instrutor) realmente me ajudou a dominar o meu personagem e aperfeiçoá-lo. E como eu tenho muitas experiências em comum com o meu personagem, eu só tive que reviver esses momentos, e as mesmas emoções que eu tive naqueles momentos voltariam.

Que emoções e momentos você compartilha com o Buck?

Não eram momentos específicos, mas mais a emoção, que era realmente algo pessoal. A relação com meus pais é muito parecida com a de Buck com os pais dele. Em qualquer uma dessas cenas particulares eu tinha que voltar para as memórias que eu tive e reviver aqueles momentos. Foi bastante intenso. Foi muito pessoal. Obviamente, eu nunca passei por muitas situações que o Buck passou, mas haviam muitos aspectos da minha vida que eu poderia me relacionar.

Como você se preparou para toda a sequência de “Movement” que Ryan Heffington coreografou? Você tem experiência com dança?

Com exceção de alguns anos de balé quando criança, eu não tenho nenhuma experiência. Foi um processo e tanto aprender a coreografia. Nós treinamos por quase um mês – mais que isso – só aperfeiçoando todos os detalhes. Nós tínhamos que fazer em uníssono. Nós temos níveis diferentes de experiência. Brandon Perea é um dançarino profissional, então foi bem fácil para ele. Mas pessoas como eu e Brendan (Meyer),foi muito mais difícil para nós conseguirmos já que não eramos muito flexíveis e não tínhamos muita estamina. (risadas)

Uma parte do The OA que sempre volta para mim foi como ele cria a ideia de famílias queer e famílias por escolha, a rede de apoio não tradicional que amigos criam entre si. Estou curioso, como foi a relação sua com os outros atores do set de filmagem?

Isso é uma coisa incrível de se ouvir. Eu realmente esperava que a química que nós tivemos na vida real pudesse ser transmitida, que vocês pudessem sentir (o que eu senti). Eu, os meninos, Brit e os adultos nos tornamos amigos próximos rapidamente. Nós realmente nos tornamos uma família, e ali era um ambiente de apoio. Houve momentos nas gravações que eram improvisados, e eles mantiveram isso no show porque a química entre os personagens era real.

Você se lembra de alguma cena improvisada que foi mantida?

Tem um momento (no episódio sete) que os meninos estão subindo a montanha com OA. Steve estaca com o seu interesse romântico e se sentia tonto. Ele estava correndo na colina com os outros personagens e Buck estava comendo uma Clif Bar. Buck diz para Steve, “Hey, eu divido isso com você”. Steve abraça Buck e pega a Clif Bar, mas esquece completamente de dividir. OA se vira para pegar uma mordida e simplesmente ri dessa troca. Foi completamente genuíno. Estou realmente feliz de que eles mantiveram essa cena. Foi um momento simplesmente natural.

No começo desse ano, você apareceu nas manchetes por causa de um tweet não relacionado com o The OA, onde você responde à placas anti-trans de estudantes da UCLA. Você estava segurando uma placa com a mensagem “Calem a boca”. O tweet ganhou milhares de curtidas e retweets.

Sim, Eu sempre me manifestei sobre coisas que são importantes para mim. Redes sociais proporcionam uma ótima plataforma para a militância. Eu estou realmente feliz que o show tenha dado para mim um espaço para falar com uma ampla audiência e lutar por pessoas e ter a minha voz ouvida.

ianalexander03

Eu sei que só se passou uma semana, mas você mudou a sua postura com as redes sociais desde o lançamento de The OA?

Na verdade não. Eu estava preparado, de certa maneira, que a minha plataforma se tornaria bem maior depois do lançamento do show. Eu com certeza não esperava uma resposta tão grande assim, mas eu continua ativo tentando promover causas que são importantes para mim e dedicar tempo respondendo aos fãs do show. Eu sempre tive um Twitter público dedicado para coisas importantes e todos os assuntos pessoais eu mantive para um público bem menos de amigos próximos.

Hollywood é historicamente terrível na chamada de um elenco trans. O mesmo acontece com atores asiáticos, e muito pior para atores asiáticos trans. Você tem algo a dizer sobre a representatividade na televisão?

Lógico. É muito importante ter uma representação adequada, especialmente em Hollywood. É quase 2017 e nós continuamos sendo uma mísera porcentagem quando falamos de diversidade (na televisão e no cinema). Eu acredito que a existência de personagens diversificados na televisão e no cinema é muito importante, principalmente porque os Estados Unidos é um paós assim, diverso. Por que não temos essa diversidade representada no país? Eu acredito que é muito importante não apenas chamar atores não-brancos, mas escrever personagens diversos também.

Quais são os seus próximos planos?

Eu realmente não tenho nenhum projeto estabelecido, mas algumas pessoas que estão produzindo filmes estudantis em escolas e faculdades me procuraram. Eu adoraria fazer isso, ajudar pessoas como eu – artistas de escolas e faculdades procurando realizar um curta metragem, ou algo do gênero.

Se você pudesse trabalhar com qualquer pessoa, com quem você gostaria de trabalhar?

Hipoteticamente, eu gostaria de trabalhar com Amandla Stenberg e Rowan Blanchard e toda essa nova geração de atores. Eu me refiro a eles porque eles são tão abertos sobre fazerem parte da comunidade LGBTQ e lutarem intensamente em suas redes sociais.

Que tipo de personagens você gostaria de interpretar?

Existem tantos. Eu simplesmente amaria continuar atuando. Eu adoraria interpretar personagens que estão passando por uma transição e passando pelo processo de sair do armário. Eu acredito que seria muito legal interpretar um personagem que ainda não tenha cortado o seu cabelo e ainda usa maquiagem. Também, talvez um personagem que está lutando com alguma condição psicológica porque eu também me relaciono com isso. Eu realmente amaria ser parte de quantas coisas for possível

 

Essa entrevista foi editada e encurtada

___________________

Links relacionados:

Matéria original do The Vulture (Em inglês)

Que minha pequena voz alcance a sociedade: Uma mensagem de Aya Kamikawa

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s