Solidariedade indígena: Ryukyu, Ainu e Standing Rock

No dia 19 de março, o casal Kamiyui publicou um vídeo declarando o apoio de Okinawa à resistência em Standing Rock contra o oleoduto na Dakota do Norte, que passa pelo território indígena da tribo Sioux.

Mais do que apenas uma demonstração em prol de direitos humanos, a solidariedade de Okinawa é uma expressão do movimento de descolonização; diante da ameaça da construção de mais uma base militar estadunidense em Henoko, local que carrega em si a ancestralidade okinawana, os povos de Ryukyu se identificam com a dor dos Protetores da Água em Standing Rock. É o reconhecimento da dor que todos os povos indígenas ao redor do mundo enfrentam, lutando pela preservação de suas identidades e de suas terras, não como propriedade, mas como um legado de seus antepassados e campo de sua cultura.

Num manifesto breve e marcante, o casal Kamiyui conta como foi viajar até Standing Rock, onde conheceram Lee, de Red Willow, que fez um tambor para eles: “a luta de Okinawa [também] é minha. O som do tambor é a batida do nosso coração. Quero que vocês levem este tambor ao povo de Okinawa.”

No dia 4 de março, Dia do Sanshin — instrumento central na música tradicional okinawana —, houve um protesto em frente ao local onde os governos japonês e estadunidense pretendem construir a nova base. Em vez do tambor tradicional, os manifestantes usaram o tambor com o qual Lee os presenteou, um símbolo material de união entre povos indígenas.

O vídeo começa ao som de Asadoya Yunta, uma música folclórica vastamente conhecida por okinawanos e sua diáspora, que funciona como um vínculo com Okinawa apesar de barreiras culturais, nacionais e da língua. Asadoya Yunta conta a história de uma linda mulher, Asadoya nu Kuyama, que rejeita o pedido de casamento de um oficial do governo. A invasão japonesa ocorreu na mesma época em que a música foi supostamente criada; dado o contexto, há um sentimento anti-colonialista pouco sutil em Asadoya Yunta.

A melodia acolhedora acelera o ritmo e os manifestantes, dançando kachāshī, começam a performar Okinawa wo Kaese. Inicialmente interpretada como um hino de retorno da diáspora à sua terra, a letra original pedia que retornássemos a Okinawa. No entanto, ao decorrer dos anos de invasão e ocupação, a letra foi alterada para que se expressasse uma exigência: devolva Okinawa aos okinawanos. Nos protestos de 1995, depois de um soldado estadunidense ter estuprado uma menina okinawana de 12 anos, a letra de Okinawa wo Kaese grita pela descolonização:

Acabando com a terra inimiga
A Ilha ardendo com a ira de um povo
Oh, Okinawa
Nós e nossos ancestrais
Com sangue e suor
Protegidos e criados nesta Okinawa
Gritaremos—Okinawa!
Ela é nossa—Okinawa!
Devolva Okinawa!
Devolva [a terra] a Okinawa!

(Tradução retirada do livro Islands of Discontent: Okinawan responses to Japanese and American power.)

A música e a dança são expressões culturais importantes para povos indígenas, cuja tradição é passada oralmente. Em cantos e ritmos, essas culturas mantêm seu sagrado, seus valores e suas histórias; unir os povos da América do Norte e os povos de Ryukyu através da música é um ato intenso e genuíno de solidariedade.

Os Ainu, cujo território é no norte do Japão, também prestam solidariedade a Standing Rock. Em fevereiro deste ano, representantes Ainu e manifestantes japoneses exigiram que três bancos japoneses — Mizuho Bank, Bank of Tokyo-Mitsubishi UFJ e Sumitomo Mitsui Financial Group — desinvistam no projeto do oleoduto na Dakota do Norte.

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Fonte: amer-ainu.

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Fonte: amer-ainu.

Nas palavras de Akemi Shimada, representante Ainu: “[O oleoduto] é uma violação contra os direitos de povos indígenas […] de viver em harmonia com a natureza.”

Como asiáticas e asiáticos, queremos que nosso fenótipo deixe de ser estrangeiro e exótico no Brasil, mas toda e qualquer mudança que não inclua a exterminação da antinegritude e da colonização de terras indígenas é apenas um pacto com a branquitude e o neoliberalismo. Para que nossa presença não se transforme em assimilação e não corra o risco de sabotar os movimentos negro e indígena, devemos nos comprometer com a solidariedade a outros movimentos.

Por isso, nós, do Blog Outra Coluna, como descendentes dos povos Uchinanchu e Ainu, estendemos nossa solidariedade aos povos indígenas do Brasil.

Quem pode cuidar da terra é quem verdadeiramente a ama.

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