Da flor que (não) se cheire: Reflexões sobre ser amarela

Texto por Nassim Golshan

Sobre a autora: Brasileira, com pai iraniano e mãe brasileira nissei. Psicóloga, ama trocar ideias, organizar no papel pensamentos – seja em forma de poesia, textão ou até origami e buscar o lado da história que não contam.

Da flor que (não) se cheire

Reflexões sobre ser amarela 

Não tão discutida em diversos círculos, a resistência asiática se faz necessária ao se pensar em uma sociedade inclusiva. Este texto se propõe a pincelar a intersecção¹ da resistência mencionada com outras lutas de minorias. Corpos, culturas e histórias antagonizam tensões de uma sociedade estruturada em opressões das mais diversas. Compreender a raiz singular mas de lugar também minoritário de outras lutas pode ser meio de fortalecimento coletivo e tomada de consciência sobre determinantes históricos que recaem em relações cotidianas. Não temos pretensão de discorrer longamente sobre certos conceitos, mas tomá-los como ponto de partida para encadeamento das reflexões.

As mulheres negras e/ou trans são grande exemplo de força e luta. Com toda a licença, sem intenção de tomar seu lugar de fala, digo com humildade que me descobri mulher amarela quando tive empatia pela solidão da mulher negra e/ou trans².

Quando em posição de minoria social seja na família, nas amizades, na vida afetiva, no ambiente profissional, há os grandes e pequenos questionamentos se somos feitos para esses espaços. Uma vez pessoa, temos o desejo de viver em trocas, dar e receber contribuições ao mundo, com nosso ofício, carinhos, afetos eróticos ou não, parcerias e laços amistosos. Não sendo nada disso como gostaríamos, indagamo-nos se chegamos a ser algo que valha para esse mundo.

Falemos de Mundo. Mas qual mundo? As coisas não têm andado bem, segundo alguns de nós aprenderam na escola, desde 1500, pelo menos por aqui. Aprendemos a história de vencedores e não a dos vencidos. No Brasil, a onda de imigração de povos asiáticos não teve o maior alarde de intolerância em termos absolutos. Mas houve e há das gritantes às sutis opressões. Apesar de enaltecida por ser uma terra da diversidade, alguns parecem não caber nesta.

Sobre povos de origem asiática. Sendo asiáticos diferentes do hegemônico, que sejam esse tal de  diferente dentro do que recortes feitos por outrem reproduzem, ou não é o que ocorre?. Da islamofobia, que oculta os responsáveis por trás de indústrias bélicas dentre outros mercados, ao mito da minoria modelo³, que concede mérito racial posto oprimir menos do que poderia, vide genocídios, racismos descarados contra negros, trans, índios que no Brasil são considerável parte da estatística4 de homicídio, dentre outras formas de violência .

Contudo, mesmo sendo de grande continente, asiáticos são colocados como farinha de uma mesmo saco por regiões. Se há neste Brasil asiáticos que vieram como mão de obra barata,  nossa história torna-se ainda mais alienada. Guerras, conflitos separatistas, movimentos sociais em territórios asiático são, sim, história nossa. Mas mesmo sendo tão pequenos frente à infinitude da existência, conseguimos nos segregar nas discretas artimanhas do cotidiano. Este é o mundo ao que não queremos pertencer.

 

Acerca opressões simbólicas5 do dia a dia. Sempre lidei com rejeições afetivas, das mais diversas, pensando que ninguém é obrigado a gostar de mim. Mas como se edifica um gosto e um interesse no próximo? O gostar não se trata de um desejo ou ausência de desejo per se. Construímos uma estética inevitavelmente em torno de padrões. Pessoas cis e brancas têm sua beleza ao certo. Mas como fica se a contemplação desta filtra o contato com outras formas de beleza? E quando você nem ao menos é considerado como uma possibilidade de estética por não reproduzir um padrão. Eis a solidão. Nascemos e morremos sozinhos, e mais do que isso, descobrimo-nos sozinhos nos percalços que a opressão nos coloca. Gostar e ser gostado, falar e ser ouvido, formam seres com bagagem cultural e história, em suma, seres humanos. Deixar de ser considerado como possibilidade bela na existência, por conta de estarem já satisfeitos com um projeto de gosto/desejo/tesão/interesse impede alguns se desenvolverem a  própria humanidade. Muitos são os que deitam ao fim do dia e choram, lamentam, sofrem ao se constatarem sozinhos quando verdadeiramente queriam se sentir parte do mundo. A solidão da mulher trans e da mulher negra são únicas, dignas de atenção e discussão. Não sou estas mulheres, mas dentre tantas foram estas que me permitiram entender que eu nunca sentiria a dor da solidão como uma negra e/ou trans, mas também nunca como uma branca. A depreciação histórica sempre recai no cotidiano de alguma forma.

Das metáforas. Quando me machuco, forma-se um roxo em minha pele. Com o passar do tempo torna-se uma mancha amarelada. Não é mais machucado recente, tampouco pele ilesa. Eu poderia ter me descoberto da cor do sol, do maracujá, do pólen das flores, do céu no raiar do dia, das folhas no outono, mas calhei de me encontrar da cor da pele que não está ferida mas mostra que foi machucada. Sou uma marca em processo de cicatrização que se não cuidada poderá se perpetuar. É triste viver num mundo em que o julgamento sobre mim corre da assexualidade à compulsória disposição para ser controlada por outro; em que inteligência é compensação para a falta de beleza padrão; em que você é constantemente reduzido por outrém a uma palavra estrangeira aleatória, comida, símbolo de paz e amor em fotos; em que bens culturais que trazem bagagem são apropriados como itens de ostentação da tal da desconstrução; que nos desmontam, para recortes de nós serem aproveitados e partes desinteressantes serem ignoradas. Desconstrução, mas nunca revolução para uma sociedade inclusiva e pró diversidade. Ser amarelo nessa estrutura de sociedade infelizmente não é ser da cor de tantas coisas bonitas, mas do soco, que ao começar a cicatrizar vem novamente a cada preconceito.

Poderia ser vasta como a Ásia, plural como a miscigenação, enigmática e complexa em minha forma de expressar como os incontáveis sistemas de alfabetos, idiomas, dialetos, arquiteturas, culinárias, indumentárias ad infinitum. Eu poderia abarcar todas as contradições que se permitem existir dialeticamente. Em algum momento decidiram por mim que minha vastidão deveria caber dentro do patriarcado6. Preferiram entender minha complexidade como complicação para um mundo estruturado em opressões. Se tão múltipla, eu poderia ser tanto uma flor que nunca sentiu o gozo do orvalho pelas manhãs e noites frescas, como também poderia, a qualquer momento, jorrar pólen e brilhar com todas as cores e estar pronta para ser colhida quando bem quisessem. Como uma flor exótica, quanto privilégio ser notada! Por que recusar ser arrancada do solo? Mas se exótica, deve ficar num vaso separado, ela destoaria num mar de flores alvas.

Eu posso ser uma flor incomum para terras tropicais, mas por algum motivo fui plantada, regada e cresci aqui. Dizem que minhas raízes não pertencem a esse solo. Meu caule é muito fino e reto, sem as belas curvaturas das demais flores que amaciam a visão daqueles que creem admirar as flores alvas, mas que no fundo só querem colher todas sem precisar regá-las. Alguns dizem que para uma flor de outras terras até que sou interessante, mas alguns estranham minha diferença e tentam classificá-la. Brasileira do Paraguai quando insisto que sou daqui, samurai ou terrorista quando estressada, Hello Kitty quando meiga. Nunca eu. Não sou mulher bomba do Irã, tampouco rosa de Hiroshima7.

A flor de lótus tem sua peculiaridade enquanto flora. Nasce no brejo, poderia ser a náusea de Drummond8 que todos já sentimos alguma vez. É estranha, mas parem para ver, pois nasceu. TRANSgride normas do que temos por local que uma flor deveria nascer, justamente por florescer ao modo que pôde. Podemos aprender muito com a natureza em sua contemplação, não que seja ruim ver-se em flores, mas triste ser retratado como e por quem não nos representa em mídias. As vezes, quando nos sentimos sozinhos, precisamos buscar o que resta de humanidade em nós fora dela, tal como nas flores.

Acontece que não sou flor. Toda essa confusão me deixa atordoada, fora as adversidades e bizarrices do mundo. Altero-me, choro, xingo, dou risadas escandalosas, posso dizer sacanagens e até fazê-las. Mais do que ser ou não desta terra, sou terráquea, de uma terra, ser vivo, humana, mulher. Como não sofrer com uma solidão apagada da história, mas que existe? Decidiram nomear a minha dor de perigo. Não sou ameaça e nem pretendo ser, mas se minha existência é afronta para aqueles que não querem clamar um nós em que caibamos, sou perigo amarelo, LGBT, feminista. Essa terra é nossa também.

Glossário:

1- Intersecção:

http://blogueirasfeministas.com/2014/07/feminismo-intersecional-que-diabos-e-isso-e-porque-voce-deveria-se-preocupar/

2-Solidão da mulher negra e trans:

http://blogueirasnegras.org/2015/07/16/solidao-da-mulher-trans-negra/

3-Mito da Minoria Modelo e Perigo Amarelo

https://yobanboo.wordpress.com/2016/09/20/recorte-do-encontro-asiaticos-no-brasil/

4-Estatísticas de homicídio no Brasil

http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2012/mapa2012_web.pdf

5-Opressão Simbólica

http://www.esquerdadiario.com.br/A-origem-da-opressao-as-mulheres-esta-na-divisao-da-sociedade-em-classes

6-Sociedade patriarcal:

http://www.ibamendes.com/2010/12/sociedade-patriarcal-brasileira-e.html

7-A Rosa de Hiroshima

http://www.viniciusdemoraes.com.br/pt-br/poesia/poesias-avulsas/rosa-de-hiroxima

8-A flor e a náusea

http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/a-flor-e-a-nausea-drummond-sem-erros/

*Imagem de Tomoko Kashiki.

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