Corte constitucional de Taiwan decide em favor do casamento igualitário

A Corte Constitucional decidiu que as leis atuais, impedindo que pessoas do mesmo sexo se casem, violam o direito à igualdade e são inconstitucionais.

Foi dado ao parlamento o prazo de dois anos para criar emendas para as leis atuais ou aprovar novas leis sobre o assunto.

A decisão histórica de quarta-feira chega num momento em que a comunidade LGBT+ enfrenta um aumento da perseguição na região.

Em um comunicado à imprensa após a decisão, a corte disse que “proibir duas pessoas do mesmo sexo de se casarem, com o intuito de proteger ordens ética básicas” constitui um “tratamento diferente” “sem embasamento racional”.

A corte concluiu que “tal tratamento diferenciado é incompatível com o espírito e significado do direito à igualdade” como protegido pela constituição de Taiwan.

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Às mães ao fogão, às mulheres sem história

Quando eu estava para completar 22 anos, minha avó materna, pela primeira vez em muito tempo, perguntou quando eu pretendia me casar. Dei de ombros e ri; disse que não sabia e, apesar de parecer um tanto redundante, perguntei o porquê do assunto. Ela me olhou com reprovação e acusou: na sua idade, eu já tinha a sua tia mais velha no colo!

Eventualmente, ela revelou que não era só um desejo de ter bisnetos. Eu estava para me mudar para Araraquara, onde moraria sozinha; ela queria saber se eu estava preparada, adulta o suficiente para me virar.

Minha avó perguntou se eu já tinha torcido o pescoço de um frango; quando respondi que não, ela riu e me contou sobre a primeira vez que ela teve que matar e depenar um. Era uma reunião familiar — okinawana, que tende a juntar dezenas de parentes — e as mulheres estavam na cozinha preparando o almoço. Dizem que okinawanos não são pontuais, mas oferecem refeições fartas. Na minha experiência, antes de pensarem numa logística melhor e cada um trazer um prato pronto de casa, essas festas, de fato, conseguem transformar qualquer cozinha num reality show culinário.

Ao som de facas batendo nas tábuas de madeira e panelas borbulhando, quando uma mulher mais velha delega uma função a uma menina, não dá tempo de questionar. Então, quando minha bisavó mandou minha avó, com 14 anos na época, buscar e cozinhar uma galinha, foi isso que ela fez; com uma tia (que provavelmente estava encarregada de mais duas ou três tarefas na hora) recitando as instruções, minha avó aprendeu a matar um frango.

Minha avó gargalhava enquanto me contava essa história, a voz cheia de afeto e saudades. Senti o choro subindo minha garganta, porque ela lembra de ter que juntar os pertences que conseguia carregar nas costas para sair de Santos, onde ela nasceu, para o interior de São Paulo; em julho de 1943, a família da minha avó estava entre os 10 mil imigrantes que tiveram seus bens tomados pelo Estado brasileiro.

Apesar dos traumas que a guerra trouxe; apesar de ser filha de imigrantes perseguidos por brasileiros por serem “japoneses” e perseguidos por japoneses por serem Uchinanchu; apesar da situação de pobreza; apesar de ter cinco filhos e nenhuma comida; apesar do sofrimento de uma vida toda, minha avó lembra de estar na cozinha aos 14 anos, confusa e inexperiente, mas se divertindo num espaço onde mulheres trocavam e passavam receitas okinawanas adaptadas à colheita disponível em Presidente Prudente.

Nguyen Thanh Binh

Nguyen Thanh Binh. Mother and child (series).

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