Nós, feministos e esquerdomachos: comentários sobre o caso Aziz Ansari

Acompanhamos na última semana a denúncia de assédio sexual contra Aziz Ansari, ator e autor da série “Master of None”, aclamada pelas suas formas narrativas e atuações, pelo trato que dá a diferentes pautas “progressistas” da contemporaneidade e devidamente criticada pela Kemi nesse artigo: Por que achei Master of None meio pombo. Para além da obra, a persona pública do artista também se pronuncia em defesa do feminismo e contra as opressões de gênero, colocando-se como apoiador de mobilizações como #MeToo e #TimesUp, contra o assédio sexual na indústria de entretenimento. Esse é um dos motivos pelos quais esse caso específico gerou tanta comoção. Para além disso, a confusão das repercussões nas redes sociais e o fato de Aziz ser um homem de origem asiática e muçulmana também engrossaram o caldo. Por isso, resolvemos pautar aqui um debate, a partir de nós, homens de esquerda, às vezes asiáticos, que usam redes sociais. Reforço também  que a discussão proposta vem a partir de um olhar heterossexual, sem o intuito de invisibilizar discussões LGBT, mas com a cautela de não se fazer qualquer apropriação inadequada de debates com outras especificidades. Continuar lendo

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Por que achei Master of None meio pombo, mas bem melhor do que os lances que os meus amigos brancos curtem

Alternativamente, sobre performance e masculinidade do homem asiático

Antes de começar a assistir Master of None, vi algumas mulheres criticando a série. Fiquei com preguiça de me envolver no assunto até um amigo — muito querido, cis, bi e asiático — atestar que era incrível, eu tinha que dar uma chance. Respondi que talvez, porque sou taurina e lembro que ele gostava bastante de (500) Dias com Ela, um filme que sempre abominei com todas as minhas forças; romance nunca foi meu forte e fiquei apreensiva de Master of None ser só mais uma história de amor. Apesar dos pesares, comecei a assistir por amor à nossa amizade.

Um tempo depois, comentei que não curti muito os primeiros episódios com outro amigo — igualmente querido, cis, hétero e asiático — e ele defendeu que a segunda temporada estava fenomenal. Confio nele, então batalhei para chegar nela, mas continuei achando meio… pombo.

Claro que não é ruim. Na verdade, foi uma experiência infinitamente melhor do que muitos filmes e séries recomendados por amigos brancos. Existe uma sensibilidade na abordagem de muitos assuntos que torna o enredo de Master of None cativante: conflitos intergeracionais de filhos com seus pais imigrantes; a falta de representações genuínas de pessoas não brancas na mídia; a subversão de um homem indiano protagonizar releituras de cenas de inúmeros filmes; o episódio da Denise. Todos os momentos que fazem Master of None valer a pena são genuínos e verossímeis justamente por serem vivências de quem os escreve.

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