Por que achei Master of None meio pombo, mas bem melhor do que os lances que os meus amigos brancos curtem

Alternativamente, sobre performance e masculinidade do homem asiático

Antes de começar a assistir Master of None, vi algumas mulheres criticando a série. Fiquei com preguiça de me envolver no assunto até um amigo — muito querido, cis, bi e asiático — atestar que era incrível, eu tinha que dar uma chance. Respondi que talvez, porque sou taurina e lembro que ele gostava bastante de (500) Dias com Ela, um filme que sempre abominei com todas as minhas forças; romance nunca foi meu forte e fiquei apreensiva de Master of None ser só mais uma história de amor. Apesar dos pesares, comecei a assistir por amor à nossa amizade.

Um tempo depois, comentei que não curti muito os primeiros episódios com outro amigo — igualmente querido, cis, hétero e asiático — e ele defendeu que a segunda temporada estava fenomenal. Confio nele, então batalhei para chegar nela, mas continuei achando meio… pombo.

Claro que não é ruim. Na verdade, foi uma experiência infinitamente melhor do que muitos filmes e séries recomendados por amigos brancos. Existe uma sensibilidade na abordagem de muitos assuntos que torna o enredo de Master of None cativante: conflitos intergeracionais de filhos com seus pais imigrantes; a falta de representações genuínas de pessoas não brancas na mídia; a subversão de um homem indiano protagonizar releituras de cenas de inúmeros filmes; o episódio da Denise. Todos os momentos que fazem Master of None valer a pena são genuínos e verossímeis justamente por serem vivências de quem os escreve.

É um exemplo de representatividade que realmente funciona, porque são histórias do dia a dia de pessoas não brancas. Master of None se sobressai a partir da normalização das nossas vidas, fornecendo um retrato cheio de conflitos, mas providos de nuances e humanidade que permitem que as nossas narrativas — de nos assumir LGBT para a nossa família ou dos nossos pais não expressarem afeto do “jeito ocidental” — não se tornarem tragédias para o público branco. Ninguém vê Master of None achando que as nossas culturas são assim e que carregamos um fardo inerente à “nossa cultura”; as pessoas assistem Master of None e se veem nos personagens porque todo mundo tem date ruim, sofre de paixonites e se desentende com os pais.

Porém, boa parte da série gira em torno da masculinidade do homem asiático hétero (ou que se relaciona romanticamente com mulheres).

Rachel, a primeira namorada séria de Dev, é um exemplo bastante ilustrativo da manic pixie dream girl: espontânea, engraçadinha e entediante pra caralho quando tomada por si própria. Apesar de ser quase interessante, Rachel não tem profundidade o suficiente para cativar espectadores fora de seu relacionamento com Dev; tanto que, ao final da primeira temporada, a decisão — impulsiva, vagamente justificada pelo medo de não viver o suficiente — de se mudar para o Japão é apenas uma catarse para Dev trilhar uma narrativa de realização similar.

Embora a partida de Dev para a Itália pareça repentina, a série estabelece, desde o começo, uma certa relação do personagem com a culinária. Existe uma lógica que torna a escolha de Dev súbita, mas coerente. A resolução de Rachel, por outro lado, transparece apenas uma sensação genérica de escapismo levemente orientalista que assola jovens adultos; quem nunca pensou em fugir para algum lugar na Ásia numa jornada de autoconhecimento e amadurecimento?

O grande interesse romântico seguinte é Francesca, que é igualmente sem sal, mas com sotaque. É possível tomar um homem indiano “ensinando” inglês para uma mulher branca como um elemento subversivo, mas, no final das contas, ela é apenas uma mulher branca, noiva de um homem branco.

Francesca não é a primeira mulher comprometida com quem Dev se envolve. Nina, a crítica culinária da primeira temporada, teve um caso extramarital com Dev que, ironicamente, salvou seu casamento. Em algum momento, Rachel também tinha um namorado. Claro que todo mundo já esteve ou quis estar com alguém, mas a pessoa estava num relacionamento ou emocionalmente indisponível. Porém, em Master of None, parece haver um padrão que conversa com questões de masculinidade e emasculação do homem asiático.

Nina é casada com um babaca que não lhe proporciona a atenção e o afeto devidos. Da mesma forma, o noivo de Francesca, ao final da segunda temporada, parece ser negligente e vaidoso. Em ambos casos, Dev é o cara legal com quem a mulher pode realmente conversar e se divertir, sensível e interessante. O homem asiático que sussurra delicadezas que o homem branco não se dá ao trabalho; o homem asiático é quem realmente merece a mulher branca.

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Isso não quer dizer que a postura de Dev, que nega a arquétipo do macho alfa, seja o problema em si; é imperativo que homens se desfaçam do papel de violência e insensibilidade. Porém, a rejeição da masculinidade tóxica em Master of None cai numa performance que gravita em torno de um tipo específico de misoginia, característica da “síndrome do cara legal”.

O “cara legal” sempre se opõe ao macho alfa. Ele é meio esquisito, mas de um jeito cativante, tem um gosto musical/literário/cinemático “diferente”, não é convencionalmente atraente, etc. Na comédia romântica, ele é o nerd fofo e atencioso que vai para a “friendzone” porque a mocinha prefere o cara gostosão, másculo, quarterback do time de futebol. No entanto, a mocinha logo percebe que o macho alfa é um retrato unidimensional de futilidade e corre para os braços do “cara legal”.

Embora pareça que o “cara legal” esteja quebrando os moldes convencionais de desejabilidade, ele não deixa de uma expressão de um desejo misógino de possuir uma mulher em detrimento de outro homem. A performance do “cara legal” não deixa de usar a mocinha como medida de validação da própria masculinidade; é mais sobre marcação de território do que romance entre duas pessoas inteiramente próprias.

Em Master of None, a figura do “cara legal” converge com a emasculação do homem asiático, cuja masculinidade foi historicamente minada, nos Estados Unidos, a partir de uma série de políticas anti-imigratórias (como o Ato de Exclusão a Chineses de 1882) e estereótipos que deliberadamente procuravam desencorajar mulheres de se envolverem sexual e romanticamente com homens asiáticos, também para dificultar sua naturalização no país. Daí surge o mito do pênis pequeno, a feminilização da ausência de pelos faciais e corporais, a infantilização do silêncio — que, muitas vezes, é socialmente imposto pela alienação que o indivíduo sofre quando é posto na condição de “outro” — lido como timidez, constrangimento ou desajuste social, etc.

Ademais, nos Estados Unidos, o casamento interracial entre brancos e não brancos foi proibido por muito tempo. Desde que essa segregação formal foi banida, para homens não brancos, a mulher branca foi uma forma de elevar o próprio status na sociedade; ela é aquilo que eles desejavam, mas não podiam ter — simbolicamente almejando aos privilégios da branquitude, literalmente enquanto tida como a beleza ideal.

Dessa forma, quando um homem asiático como Dev é “melhor” que um homem branco, a relação afetiva se torna uma competição pela atenção da mulher branca, que é despida de autonomia e uma narrativa própria. O foco não é a decisão da mulher, mas a rivalidade implícita entre masculinidades, onde também está inferida a negação da mulher não branca enquanto sujeito autônomo e potencial interesse romântico, já que ela não tem o poder de conceder o status de branquitude ao homem asiático. Tanto numa relação intrarracial quanto numa interracial entre duas partes não brancas, a mulher racializada aprofunda a não branquitude — o não pertencimento, a não desejabilidade e a alteridade — do homem asiático.

Além disso, há um elemento tácito em Master of None: não é qualquer mulher, branca ou não, que é atraente.

Ao final da segunda temporada, Dev e Francesca estão num momento ambíguo entre “apenas amigos” e uma investida romântica. Na festa onde Dev pretendia iniciar uma conversa honesta, Francesca eventualmente decide que está cansada e vai embora; aí entra Kristy, uma mulher alta de cropped e batom vermelho, cujo convite para uma festa de yoga estendido a Dev é feito num sotaque que se ouve de maquiadoras de YouTube. Enciumada, Francesca deseja que Dev curta a festa com Kristy. No diálogo que se segue, ela diz não ter imaginado que Dev gostasse de garotas desse tipo; ela o imagina com alguém… como ela mesma.

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Aqui há uma divisão classicamente misógina: mulheres como Kristy, que são bonitas, mas desinteressantes, que chamam o protagonista para festas e para curtir versus mulheres como Francesca, que são para se relacionar. Afinal, as Francescas são lindas sem maquiagem, belas e recatadas.

São pistas aparentemente pequenas, mas são esses indícios que tornam a exposição de Aziz Ansari como perpetrador de abuso sexual inteligível. Dan Harmon, criador de Rick and Morty, também foi recentemente acusado de assédio sexual por uma antiga colega de trabalho. Ele assumiu total responsabilidade num monólogo de sete minutos, admitindo que, mesmo proferindo valores progressistas e se dizendo a favor do feminismo, ele não teria feito o que fez se realmente tivesse um mínimo de respeito por mulheres.

Comparar esses casos talvez soe desproporcional, mas ainda são histórias de dois homens que sabem forçar mulheres até o limite da legalidade. Nenhum dos dois cometeu um ato tipificado em códigos penais, mas não deixaram de vitimar mulheres ao ignorar sua linguagem corporal e protestos verbais.

A acusação contra Aziz Ansari pode parecer fraca por soar corriqueira e familiar, mas é justamente este aspecto que denuncia a prevalência da cultura de estupro e do machismo: a situação é manipulada de forma que a vítima duvide dos próprios sentimentos e das próprias memórias, que são invalidados por termos estritamente legais.

Na mais subjetiva e generosa das interpretações, talvez ainda haja espaço para o benefício da dúvida em relação ao apoio de Aziz aos movimentos feministas, mas é mais do que provável que ele, assim como Dan Harmon fez, esteja escondendo seu machismo por trás de ideais progressistas. Há diversos e discretos sintomas dessa postura ao longo das duas temporadas de Master of None, que fazem com que a série culmine numa expressão de desejo e desejabilidade heteronormativa e misógina.

Por isso achei meio pombo.

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2 comentários sobre “Por que achei Master of None meio pombo, mas bem melhor do que os lances que os meus amigos brancos curtem

  1. Eu realmente gosto da série e fiquei bastante surpresa com a sua análise porque de fato não havia notado isso enquanto a assistia.
    Lendo o texto eu consigo lembrar dos momentos que tudo isso ocorre, mas a representatividade e o fato de mostrar personagens POCs sendo “normais” me deixou um pouco cega e deslumbrada.

    As críticas e o debates que a série propõe são bons e interessante, mas é necessário continuar mantendo o olhar crítico sobre — exatamente como você fez no texto.

    Curtido por 1 pessoa

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