Nós, feministos e esquerdomachos: comentários sobre o caso Aziz Ansari

Acompanhamos na última semana a denúncia de assédio sexual contra Aziz Ansari, ator e autor da série “Master of None”, aclamada pelas suas formas narrativas e atuações, pelo trato que dá a diferentes pautas “progressistas” da contemporaneidade e devidamente criticada pela Kemi nesse artigo: Por que achei Master of None meio pombo. Para além da obra, a persona pública do artista também se pronuncia em defesa do feminismo e contra as opressões de gênero, colocando-se como apoiador de mobilizações como #MeToo e #TimesUp, contra o assédio sexual na indústria de entretenimento. Esse é um dos motivos pelos quais esse caso específico gerou tanta comoção. Para além disso, a confusão das repercussões nas redes sociais e o fato de Aziz ser um homem de origem asiática e muçulmana também engrossaram o caldo. Por isso, resolvemos pautar aqui um debate, a partir de nós, homens de esquerda, às vezes asiáticos, que usam redes sociais. Reforço também  que a discussão proposta vem a partir de um olhar heterossexual, sem o intuito de invisibilizar discussões LGBT, mas com a cautela de não se fazer qualquer apropriação inadequada de debates com outras especificidades.

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Cena da série “Master of None”

O tribunal do facebook e nós, feministos e esquerdomachos

O fatídico caso gerou uma cisão no já estabelecido tribunal do facebook. Para quem não acompanhou, dois principais artigos engatilharam uma discussão maior: Bari Weiss (Aziz Ansari é Culpado. De não ler mentes.)  e Caitilin Fanagan (A humilhação de Aziz Ansari) questionaram o relato publicado com a denúncia, apontando que Grace (nome fictício dado à denunciante) poderia ter encerrado o encontro íntimo de acordo com sua vontade, e que a sua atitude posterior de acusar o artista seria possivelmente uma desserviço às mobilizações #MeToo e #TimesUp, sob a acusação de “trivializar” as campanhas. A preocupação das autoras está bastante fundamentada na ideia de que as mobilizações visam denunciar as relações de poder dentro da indústria e de que não se deve assumir que todas as mulheres estão desprovidas de agência nas suas relações interpessoais. Nas redes, a repercussão foi de muitas pessoas começarem a desqualificar o relato de Grace.

Em contrapartida, uma grande parte das pessoas envolvidas no debate problematizaram a dificuldade em lidar com situações como estas. Biba Kang aponta a não-trivialidade de se colocar em situações que não favorecem a simples tomada de decisão, listando, por exemplo, o fato de que chamar um Uber de madrugada talvez não seja especialmente seguro para muitas mulheres, dentre outros fatores. Kang reconhece que essa situação de Grace possa ser lida como uma “área cinzenta” no debate, mas dadas as infinitas variáveis que tornam esses momentos tão complexos quanto eles são, a autora afirma que não se espera que os homens saibam ler mentes, mas que possam talvez tentar se colocar no lugar das mulheres para entender melhor essas variáveis.

Talvez o fato de Aziz se apresentar como um “cara legal” (leia a análise da Kemi sobre caras legais) torne um pouco mais difícil o julgamento sobre sua conduta. No entanto, talvez seja o julgamento a metodologia errada empregada por nós, grupos políticos que se utilizam das redes sociais como instrumento de mobilização. Nós, do Perigo Amarelo e do Blog Outra Coluna, já usamos desse recurso diversas vezes. Pegar um pra cristo. Expor no tribunal do facebook, encher de prints, dar nome aos bois e desvelar o que não está sendo visto, para que todo mundo saiba onde mirar suas pedras. E já reclamamos do tribunal do facebook também. Talvez falte para nós a compreensão de que essas ferramentas são apenas táticas, dentre as diversas que podem ser concebidas, e que elas são tão úteis quanto os objetivos que lhes são atribuídos. Parece que para a massa amorfa que são as redes sociais e a “opinião pública”, trata-se da criação de novos imperativos morais. O problema disso, sem tentar reduzir um debate mais amplo, é que não há conduta imediatamente pura ou purificada que nos exima da complexidade das nossas relações sociais e interpessoais. E se o Aziz Ansari e muitos outros homens acreditam nisso, é aí que reside o problema.

No movimento de adequar as condutas aos imperativos que criamos, a direção mais evidente para nós, esquerdomachos e feministos, é passar pano para toda sorte de absurdos que cometemos e pensamos cotidianamente. O discurso está criado e todos nós anuímos às suas implicações e entendemos que temos de andar na linha. Mas o encadeamento lógico que aplicamos, da hipótese da infração e da sanção, não corrige as condutas opressoras que temos dentro de nós. Para além da internalização das opressões e dos mecanismos opressores, a forma como registramos nossas emoções não é facilmente subvertida com um discurso de cara legal. Quantos de nós, feministos, entendemos tudo de ruim que tem no patriarcado, mas quando a parceira diz não estar disposta a fazer sexo esta noite, no fundo, no fundo, ficamos chateados. Pensamos até em retaliação. As maneiras que nos ensinaram a desejar e a sermos desejados, a constituição de nossas fantasias, nossos afetos, nossas obsessões, são, com o perdão da palavra, todas cagadas pela masculinidade tóxica e frágil a qual nós nos apegamos tanto durante a vida. Se formos todos homens racionais, seremos todos caras legais. Enquanto não olharmos de frente para as milhares de infrações que cometemos no dia-a-dia, a carapuça vai continuar servindo.

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Ícone feministo nas redes sociais

“Por que ela não foi embora?”: Compartilhar a responsabilidade pelo consentimento

Uma das linhas que conduziram o debate durante essa semana era de questionar o porquê da Grace não ter simplesmente ido embora quando viu que o rolê tava todo errado. Para além dos motivos elencados por Kang, vou me permitir deslocar um pouco o questionamento: Por que o ônus do consentimento sempre recai sobre a mulher? Nós, feministos e esquerdomachos, já entendemos que NÃO É NÃO, mas enquanto a mulher não der sinais claros, cabe a nós performar a masculinidade que nos é atribuída e ter tanta virilidade quanto nos couber.

Nas desculpas formais de Aziz Ansari, ele respondeu que “pelo que tudo indicava, tinha sido completamente consensual” e nas mensagens de texto para Grace, disse que não havia interpretado corretamente os sinais. É a partir daí que encontramos os subsídios necessários para questionar a validade do relato de Grace. Será que Aziz estava de fato enganado? E deixamos implícito que a responsabilidade por entender o consentimento na hora do sexo é exclusivamente da mulher. Se o feministo não entender que as relações de gênero entre homens e mulheres pressupõem desigualdades socialmente estruturadas, e de que a sua posição de fato abre possiblidade para situações de abuso, ele não vai entender o que está fazendo de errado. E mais do que tomar o caso de Aziz como mais um julgamento complicado, podemos usar esse momento para repensarmos a forma como performamos a nossa masculinidade durante o sexo. O problema não é o ato de enfiar os dedos na boca da parceira, mas se a gente perguntasse se tudo bem fazer isso antes de sair fazendo, será que não estaríamos sendo mais responsáveis com a nossa parceira e divindo com ela a decisão sobre o consentimento? Ou isso nos emascularia e nos faria perder o clima? Afinal, quão frágil e ridícula é a nossa masculinidade.

Reconhecer o feito e lidar com as consequências

Recentemente, um outro caso de assédio sexual e emocional ganhou espaço nas redes. Dan Harmon, criador das séries Community e Rick and Morty, foi denunciado por uma funcionária e, quebrando um pouco as expectativas, assumiu todos os seus feitos, detalhando com honestidade a sua conduta e suas ações. Não queremos criar um novo herói esquerdomacho, o novo Ulisses da mea culpa, mas o testemunho ajudou a denunciante a dar materialidade para o que ela achava que pudesse ser coisa da sua cabeça. Dan Harmon se coloca exposto e a justiça que se aplica é antes restaurativa que punitiva. Megan Ganz, a denunciante, dividiu o ônus da denúncia com o próprio abusador. Harmon não deixou de ser menos abusador pelas suas palavras, mas deu espaço para que a vítima pudesse restaurar com mais segurança as suas relações sociais. Harmon não se escondeu atrás da sua fachada de cara legal, e isso não faz dele um cara legal.

A masculinidade do homem asiático

Se Aziz Ansari fosse um homem branco, certamente a repercussão seria outra, talvez até mais dura, porque já estamos habituados com as cagadas do homem branco. Fanagan comenta, com certo cinismo em relação às mobilizações dessa geração das redes sociais, que achava que ia demorar mais tempo para mulheres brancas privilegiadas se voltarem contra um homem de pele marrom.  Para homens asiáticos no ocidente, a emasculação e a castração racial são mecanismos constitutivos da história coletiva de sua sexualidade, de suas emoções, de sua desejabilidade. Isso é inclusive tema da obra de Aziz Ansari. A partir daí, o homem asiático adulto inicia uma jornada de conciliação com uma masculinidade heterossexual, padrão-ocidental. Para alguns, o movimento é de aceitar a posição de “efeminado”, “recatado” e se isolar. Para outros, há a necessidade de compensar tudo aquilo que lhe foi castrado, e a hipermasculinidade afeta as mulheres à sua volta mais do que qualquer outra pessoa.  Para uma masculinidade mais nuançada, os julgamentos ficam um pouco mais complicados. No caso de Ansari, como colocou Kemi, a imagem do “cara legal” vendida pelos seus personagens converge com a emasculação do homem asiático.

Homens asiáticos cisgênero e heterossexuais têm se “empoderado” de sua condição racial e às vezes até “militado”, gerando uma série de desdobramentos perversos. A estruturação da emasculação deve ser discutida, mas a narrativa que se cria em torno dela converge com as expectativas do patriarcado. Temos então asiáticos sexualmente frustrados colocando a culpa nas mulheres e voltando seu ódio às mulheres asiáticas que transam com homens brancos. Temos o movimento do asiático de pinto grande, organizado pelo mesmo cara que disse que o homem asiático sofre como uma mulher negra e depois xingou muito no twitter essas mulheres negras. Temos um artista de origem asiática fazendo sucesso no movimento feminista mainstream, que acabou sendo denunciado por assédio sexual e deixando muita gente confusa sobre o que achar. Devemos começar a reconhecer que a masculinidade do homem asiático no ocidente transita por chaves distintas daquelas às quais estamos mais habituados, mas opera ainda dentro do patriarcado branco e que os resultados adversos das tentativas de conciliação vão provavelmente terminar em misoginia.

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Cena do viral “desabafo de um japa”

Parece que ser feministos e esquerdomachos, asiático de bônus, torna as coisas mais fáceis para nós. Que somos heterossexuais amenos. Que temos bons corações, voz mansa, e somos também até certa medida uma minoria. E assim, continuamos podendo desfrutar do maior dos privilégios dos privilegiados: o de não ter que pensar sobre. Então vamos enfrentar de frente as contradições, criar estratégias para situações mais seguras para todo mundo, compartilhar responsabilidades, assumir nossas má condutas e lidar com as consequências, comunicar nossas questões e ouvir as questões das outras pessoas. Não dá pra ser feministo somente até onde convém.

 

Sugestão de texto legal: No Invisibility Cloak: White Feminism Won’t Save Aziz Ansari From Himself, by Rae Gray

 

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