Ocupando espaços: o não-pertencimento e a solidão em “Pele Suja, Minha Carne”.

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(Resenha escrita por Hugo Katsuo)

– Contém spoiler –

Em seu curta-metragem, Bruno Ribeiro mistura o conflito de sexualidade e raça ao retratar um menino negro e gay de classe média que se apaixona pelo seu melhor amigo branco.

Logo de início, vemos o protagonista isolado de seus colegas após jogar futebol com eles. Por ser de classe média alta, João encontra-se rodeado por pessoas brancas e parece não se sentir pertencido ao grupo. Com o desenrolar do filme, percebemos que, além disso, ele nutre secretamente uma paixão por um de seus amigos.

A manifestação do racismo em “Pele Suja, Minha Carne” não se dá de maneira direta, mas está presente a todo o momento e se intersecciona com sua descoberta sexual. O fato do filme não tratar dessas questões de forma escancarada é extremamente importante para se pensar como o racismo age cruel e sutilmente. Não é necessário um de seus colegas soltarem falas racistas contra João, todas as questões do personagem com a sua negritude estão subentendidas no contexto em que ele vive.  Ocupar espaços nos quais não-brancos são minorias quantitativas é, por si só, uma experiência que nos lembra constantemente o nosso lugar no mundo enquanto pessoas racializadas.

Uma das principais características do racismo no Brasil é sua naturalização no cotidiano – ele é velado de forma a ser difícil identificá-lo como racismo. Bruno Ribeiro, então, com seu curta-metragem, tenta denunciar essas sutilezas e retratar seus impactos na vida de pessoas negras, a nível individual. Pode parecer não haver discursos racistas no filme, mas a realidade em que vivemos (e também a ficção que consumimos, vale lembrar) está permeada por ele.

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O conflito interno do protagonista, como bem sugere o título da obra, remete principalmente à sua relação com seu próprio corpo. As partidas de futebol com seus amigos brancos o coloca em posição de estar cercado por abdomens brancos e desnudos – o ideal estético, que é, inclusive, cultuado pela comunidade LGBT – o tempo todo. Há um momento simbólico e imprescindível para a narrativa em que João olha seu amigo sem camisa. Nesse momento, seu olhar apresenta um desejo duplo: por um lado, revela atração sexual e, por outro, o desejo de também tê-lo, de se embranquecer. Em seguida, o vemos analisando seu próprio corpo no espelho do banheiro. O olhar agora é outro – não há rastros de desejo, apenas descontentamento.

Querer se embranquecer para se sentir suficiente e desejável é uma sequela do racismo porque derruba a possibilidade da construção de uma auto-estima e faz com que pessoas não-brancas reproduzam discursos que somente as prejudicam – reside aí a crueldade do racismo velado, que se internaliza até mesmo em quem não se beneficia dele. Um dos maiores méritos de “Pele Suja, Minha Carne” é retratar essa angústia de tentar enquadrar-se, pertencer, a um lugar que não te contempla ou deseja. Em sua cena mais marcante, João esfrega, com força, sua própria pele com uma esponja.

A homofobia, junto ao racismo, é também uma das causas da sensação de não-pertencimento e solidão que circunda a vida de João. Quando raça e sexualidade se interseccionam, a dificuldade em se sentir menos sozinho é intensificada. Entendemos que o companheirismo entre João e seu amigo vai além de uma amizade e, no clímax do filme, termina em rejeição. Não mais o distanciamento somente por raça, mas, agora, também pela orientação sexual. As angústias da descoberta sexual, presentes na vida de muitos LGBTs, se emaranham, então, com suas questões em torno do seu próprio corpo, de sua raça. Ao final, João escreve em seu espelho: “Preto viado”.

“Pele Suja, Minha Carne” é, portanto, um curta-metragem necessário e de muitos méritos ao retratar vivências negligenciadas pelo próprio ativismo LGBT – que é e quer permanecer branco. Pensar as especificidades do corpo racializado em conflito com sua própria sexualidade é de extrema importância, tanto para luta anti-racista quanto para luta contra a homofobia. O filme não só retrata pessoas negras ocupando ambientes em que não são bem-vindas, como também ocupa um desses espaços – o cinema.

 

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