Entrevista com Rosa Miranda: a primeira mulher negra, no Brasil, a se formar em licenciatura no curso Cinema & Audiovisual.

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Rosa Miranda

Rosa Miranda formou-sem licenciatura em Cinema & Audiovisual pela UFF, sendo a primeira mulher negra no Brasil a conquistar este feito. Cineasta, arte-educadora e ativista, idealizou e fundou o Coletivo Kbça D’ Nêga, que produz audiovisual racializado interseccional e militante de forma independente. Entre os filmes produzidos pelo coletivo, há o mais recente curta-metragem documental, intitulado Privilégios (2018), descrito como “uma provocação sobre as desigualdades sociais mantidas por um seleto grupo social”, que estará disponível para exibição a partir de agosto deste ano.

No intuito de divulgar seu trabalho enquanto cineasta e militante, resolvi convidá-la a uma entrevista para discutirmos a situação diversas questões em torno do cinema, da raça, do mercado e da universidade.

Rosa, você foi a primeira mulher negra a se formar no curso de Cinema & Audiovisual em licenciatura. Você pode contar um pouco da sua trajetória, desde a infância até se tornar graduanda na UFF e, por fim, graduada e agora mestranda?

Rosa Miranda: É, eu comecei, eu vim de Ramos, minha família morava em Ramos, na zona norte aqui do Rio. É uma região bem periférica, né? Mas não era uma família lascada: minha mãe era funcionária pública e aí eu consigo ter acesso ao mundo branco. Porque anos 80, eu nasci em 81, ano da abertura política. E aí eu fui criada em um contexto totalmente diferente hoje. Em relação à negritude, não havia muito debate na minha casa, nos espaços que eu frequentava. Não tinha muitos pretos, e os pretos que tinham eram rechaçados o tempo inteiro, como é hoje, nada muito diferente. A questão é que agora a gente tem acesso a espaços para poder falar virtualmente, anonimamente. Acho que a tecnologia trouxe um pouco dessa abertura pra gente. Não que as nossas pautas deixaram de existir, eu acho que agora a gente está podendo falar – temos voz.

E, então, sobre a minha graduação: eu tentei algumas vezes a UFF, eu não conseguia. Eu queria História porque eu gosto muito de dar aula e aí eu fui tentando e não conseguia. Aí passou muito tempo, eu fiquei trabalhando, porque a gente tem que trabalhar, né, não dá pra ficar em casa esperando a universidade que já era um sonho que eu já tava assim: “Ah, não vou conseguir”. Eu já estava com vinte e poucos anos e tal, aí eu fiz vestibular na Estácio. Eu recebi uma ligação de lá falando que eu podia fazer o vestibular e seria uma redação e eu fui fazer. Eu fiz pra Cinema porque eu já tinha contato com cinema através de um projeto social chamada “Viajando na Telinha”, no Morro Chapéu Mangueira-Babilônia, no início dos anos 2000, na época do primeiro mandato do Lula em que teve vários apoios a projetos pra cinema em comunidades. Lá, tive aula com professores fantásticos, tive aula com Molina, tive aula com profissionais muito bons. E aí me apaixonei pelo cinema, mas vi que era uma parada que não tinha condições de continuar. Então, eu tive que parar. Aí fui seguir minha vida, comecei trabalhar em várias coisas, tipo em secretaria de escolas ou como atendente de locadoras… Trabalhei em uma secretaria de um centro espírita, que tinha um albergue para pessoas que iam fazer tratamento na cidade de Brasília e não tem condição de ir pra casa.

Pré-escola, ensino médio, nunca foi uma parada que eu gostava de ir. Eu gostava dos amigos, dos intervalos. E hoje eu entendo o porquê, mas na época eu achava que eu era uma vagabunda e era isso. Mas não, tem todo um sentido de eu não ter tido uma boa experiência lá, por uma série de coisas: gorda, preta…

E quando eu recebi a ligação da Estácio, eu estava trabalhando num hospital, na parte de administração, então pensei: “Pô, vou tentar, não custa nada, né? Não está me mandando pagar, está suave”. E aí fui lá, fiz o vestibular da Estácio, e aí consegui uma bolsa de um ano em que só precisaria pagar cento e pouco. Aí eu pensei “Vou fazer o máximo de disciplina que eu puder e vou entrar, e vou fazer faculdade de Cinema”. Fiz o bacharelado lá até 2012 (entrei em 2008), e já tava mais velha que a galera de lá. Quando eu tava terminando, eu estava escrevendo a pesquisa da monografia. Aí, então, eu vi que eu queria cinema e educação: eu queria falar sobre como o cinema dentro da escola proporciona aos estudantes uma melhora, mas também proporciona pra indústria cinematografia brasileira, que é fantasmagórica, uma realidade – ter público. Se a gente começa a colocar cinema dentro de uma escola cedo, a gente cria um público para consumir cinema mais tarde. Essa era minha ideia produtora de como conseguir público pro cinema, achando que meu problema tava no público.

Só que não: o problema é outro, a questão não é o público que não quer ir ao cinema, a questão é que há todo um déficit entre a distribuição e a exibição. É por isso que, quando eu falo que o cinema brasileiro é uma indústria fantasmagórica é porque é um tripé: produção, distribuição e exibição. Qualquer indústria, qualquer produto que você coloque no mercado, ele tem que ter esse tripé. E se uma dessas pernas não está funcionando, não é uma indústria. E aqui no Brasil a gente não tem duas pernas funcionando. A gente não tem a exibição e não tem a distribuição. Então, eu tinha essa concepção de que o problema era o público, mas não é essa a concepção que eu tenho agora. Eu acho que sim: tem que haver cinema nas escolas. Mas por outros motivos. Até porque faço toda uma militância a favor da arte na educação porque a arte, com a subjetividade, proporciona a nós ganhos muito maiores que essas disciplinas arcaicas e conservadoras, não desmerecendo elas. Mas eu acho que a arte dá uma potência a essas outras disciplinas, é pela arte que a função escolar é exercida, porque a função da escola é formar cidadãos. E eliminar a subjetividade, eliminar a arte, dentro deste processo de formação de cidadão, você não está formando nada – você está deformando essas pessoas.

Enfim, eu saio da Estácio em 2012 e, nessa pesquisa de TCC, eu descubro o curso de licenciatura abrindo na UFF, primeira turma, 2012. Aí bate aquela neura, não vou conseguir, já tentei três vezes e não consigo. Eu fiz esse vestibular, fiz a inscrição, aí eu estava noiva de uma pessoa e essa pessoa falou que eu ia conseguir, e eu disse que não ia conseguir. E nessa época eu já estava trabalhando em uma distribuidora de filmes – eu saí do hospital e fui para a distribuidora na Zona Norte e eu já estava morando na Taquara. Mas deu tudo certo no final. Ele [o noivo] pagou minha inscrição, e eu sou muito grata a essa pessoa independente de eu estar com ela ou não, por ela ter acredito em mim em um momento que eu não acreditava. Porque gratidão independe de qualquer coisa que a pessoa tenha feito, a gente precisa saber o que ela fez por nós e reconhecer isso. Então, ele pagou a inscrição e eu fui. Eram 24 vagas e eu fui a vigésima quarta, mas depois que está aqui dentro, está todo mundo no mesmo barco.

Entrei e fiquei toda contente, tive meu primeiro dia de aula – aí eu já tava trabalhando em outro lugar, no centro do Rio, numa boate. E aí eu fui me apaixonando pela educação e pelo cinema, aquela coisa. No meu segundo período, falei “Vou abandonar a boate e vou caçar uma escola pra dar aula”. E aí teve o 1º Encontro de Arte-Educadores em Cinema, aqui na UFF, pela Eliany Salvatierra, uma professora incrível – um ser humano maravilhoso a quem devo muito. A Eliany me mostrou esse mundo, ela e o Maurício – todo corpo docente de uma maneira ou de outra, cada um nas suas devidas proporções, me ensinaram alguma coisa, boa ruim, o que for. E aí eu larguei um emprego de carteira assinada e fui dar aula em escola. Eu ganhava em torno de 2 a 3 mil reais por noite, e fui ganhar 240 por mês, mas eu nunca estive tão feliz.

Eu fui trabalhar no Mais Educação, e lá eu aprendi muito, eu fiquei um ano lá e aí eu consegui uma bolsa na UFF em um projeto chamado Mídia e Educação, com a professora Cláudia Ribeiro. Depois de lá, eu consegui a moradia estudantil, e mudei da água pro vinho: eu era uma coxinha, eu achava que eu era magra, que eu era o padrão de beleza Globo, eu achava que era branca bem dinamarquesa de olho azul, eu era assim – pra mim, eu era branca porque meu pai era branco. Tive contato com uma galera partidária, super gente boa, mas acho importante frisar uma coisa: uma coisa é partidária, outra coisa é política. Política todo mundo faz, cada um na sua – seja política de boa vizinhança com seu vizinho, seja uma política escrota com outra pessoa. Políticos todos nós somos, mas partidário é outro rolê. Então, eu tive contato com uma galera de partido, tanto de direita quanto de esquerda, ou da meia-esquerda, de todos os lados. Eu tive contato com todo tipo de gente naquele espaço. Gente pobre, fodida, que vem de realidades mais diversas possíveis, em contraste com uma galera muito rica que tem no cinema, branca – de aluno a professor. E na moradia eu olhava aquele mundo e ficava: “Caramba, mano, não é possível que a galera aqui da sala tenha a mesma realidade que eu”. E eu comecei a perceber essas diferenças. Em 2013, eu já comecei a ler umas coisas pretas, comecei a escurecer o bagulho. Final de 2013, eu já tava bem me aceitando como moreninha, mas eu já estava pegando um rancinho: “moreninha não, eu acho que eu sou negra”, mas ainda aquela coisa do achar.

Quando foi em 2014, eu fui convidada por essa galera partidária que eu tava mais colada – mas deixo registrado que nunca me filiei a nenhum partido no momento que eu estava na UFF, eu participava de coletivos sem saber, porque eu era analfabeta partidária, e eu não sabia como os coletivos tinham a ver necessariamente com um partido, eu não tinha essa noção.  Então, me chamaram para fazer o evento sobre uma pessoa negra e homenagear uma escritora negra – homenagear Carolina de Jesus. Aí eu falei “Você vai fazer de uma que já faleceu, que todo mundo ta homenageando esse ano? Enquanto tem escritoras vivas, negras, produzindo?”. Por acaso, naquela semana, eu tinha assistido a uma reportagem antiga do Jô Soares de um filme que um diretor negro fez sobre uma escritora que está cobradora de ônibus, mas escreve filmes infantis, chamada Sonya Silva. Entrei em contato com ela, exibimos o filme dela com o diretor, chamamos ela e fizemos uma mesa com ela. E foi um sucesso, a gente lotou o auditório Paulo Freire, da Educação.

Começou, então, uma amizade entre eu e o diretor. E ele me indicou fazer um mini-curso de cinema negro com Janaína Oliveira. E aí eu me lembro da primeira pergunta que ela fez: “O que é cinema negro para você?”. E eu, me achando a rainha da cocada preta, falei: “Spike Lee”. E, a partir disso, ela foi explicando que existia cinema africano, tem isso tem aquilo: e eu fiquei “Caraca, tem tanta coisa e a gente não sabe…”. Foi maravilhoso, eu saí desse curso de três dias, e eu nunca ouvi nada do que eu ouvi dali numa sala da UFF. Dentro de uma sala da UFF e da Estácio, e eu fiquei nove anos dentro de duas universidades, não teve nenhuma disciplina que perpassasse o cinema negro, as limitações audiovisuais do negro. E essas limitações audiovisuais eu não falo só das limitações da questão da representatividade dentro e fora da câmera. Eu estou falando das questões da câmera, da fotografia, ser colocada pro corpo branco – por toda uma cultura hegemônica e eugenista, inclusive na criação das câmeras cinematográficas que não são calibradas para o tom de pele negro nem pro sol dos trópicos. E por que isso não é falado nas salas de aula? Porque não tem preto. E aí começa a escurecer um pouco, existe muita resistência: você começa a falar e as pessoas começam a achar você combativa, que é sinônimo de barraqueira na academia.

E a gente também tem que falar de Diego, como temos que falar de Marielle, como a gente tem que falar do Marcus Vinicius que foi assassinado. E quando a gente fala essas coisas as pessoas que não tem argumento para responder o porquê de estarem matando assim, elas entram numa coisa de “Mas o que é que eu…?”. E a gente não está falando de uma coisa pessoal, a gente está falando de uma estrutura – a gente não está falando de você. Se você está se doendo, então sai do seu privilégio; se a carapuça está servindo, tira ela, para, olha pra ela, e vê o que você pode fazer aí para as coisas minimamente se igualarem, se a gente vive numa democracia, se a gente vive num ambiente libertário como se propõem os alunos dessa academia. Eu estou falando dos estudantes. Tá doendo por quê? Porque você está incomodado quando eu aponto pra você e pergunto “Por que você tem e eu não tenho?”. Não é culpa minha, não sou eu que divido, não sou eu que falo que branco é melhor: isso está imposto. Sou eu que crio a divisão? Será que é o colorismo mesmo que cria a divisão? Não é. Isso aí está posto socialmente. E como a gente rompe essa estrutura? Como a gente faz pra essa estrutura que está tão enraizada, que a gente não percebe, que passa batido por mais desconstruidão que você se ache? Uma hora ou duas ou três, você vai repensar ou se você não quiser fazer isso, alguém vai fazer pra você. Então vai continuar sendo apontado.

Eu acho que o povo negro é muito educado, é muito fino. Porque por muito menos o povo branco mata. Essa não é a nossa política, essa não é a nossa cultura. A nossa cultura não é bélica, as nossas tribos viviam de boa. A região subsaariana, onde mais teve tráfico de escravo, era onde as tribos eram de boa. Então, não é essa a nossa raiz, não é essa a nossa ancestralidade. O medo do branco é de voltar contra ele tudo o que ele fez contra os outros – contra todos os outros povos em geral, não só dos negros. Eu acho o cagaço deles é da gente pegar e fazer de volta pra ele tudo o que eles fizeram – e a gente não faz. Às vezes me falam que eu sou um pouco radical, mas a gente precisa fazer as pessoas tirarem a bunda do prego – do prego não: da almofadinha, do trono.

Enfim, desde 2014 eu mudei totalmente o meu ponto de vista, sem me desvincular da educação. Eu entrei na moradia, depois fui estagiária da SUPAV, aí peguei PIBID e FAPERJ, dois projetos em escolas maravilhosas. E todos os resultados que eu tive nessas turmas foi “Eu não quero que você vá embora” quando eu falei que eu falei que tinha que ir porque não tinha como eu me sustentar lá. E também era muita violência, porque uma delas era do lado de uma comunidade – e o problema não era a comunidade, eu nunca fui assaltada, nunca me aconteceu nada lá. A violência que tem é a questão de aluno morrer – é você ir num enterro de uma criança de 11 anos porque ele estava traficando tinha uma semana. E aí depois do segundo enterro que eu fui, porque eu perdi dois alunos no Mais Educação, eu falei: “Eu não tenho estrutura emocional para estar aqui, eu não consigo”. E saí de lá.

Depois disso parei de escrever meu artigo “Teoria da Maçã Podre” e fui pensar na minha monografia e falei: tenho que falar sobre mulheres que estão produzindo. Quando eu entrei pro K’bça, eu pensei isso. A gente precisa colocar elas na academia para elas serem reconhecidas aqui porque é um campo que elas precisam ser faladas porque se não elas vão ser esquecidas. Pra branco é assim: precisa estar escrito senão, não acontece. A gente tem a oralidade, a subjetividade, como caminho. Branco não, a cultura européia não é essa. A cultura do colonizador é pilhar, matar, destruir e roubar. Então, quando gente faz algo diferente disso, é uma afronta.

Eu queria, então, escrever sobre essas mulheres, mas no meio da pesquisa percebi que não tinha como escrever sobre elas sem falar o tanto de coisa que aconteceu antes dessas mulheres assumirem essas câmeras. E de acordo com que a gente foi escrevendo, o Maurício [orientador] foi entendendo toda a estrutura do meu texto e ele falou assim: “Rosa, eu acho que você fez uma releitura da historiografia clássica do cinema, pela ótica do negro”. E eu gostei muito, foi uma pesquisa que eu fiquei toda cagada quando apresentei. Mas veio gente do Rio pra me ver. Olha, eu fiquei emocionada, foi bonito.

Entrei agora no mestrado, pensando já a estética dessas mulheres, analisando os filmes delas, que ainda é curta-metragem. E essa monografia, ela como sempre é uma denúncia, assim como todos os meus textos vão ser uma denúncia, vão colocar o dedo na ferida.

No final de 2014, você idealizou e fundou o Coletivo Kbça D’ Nêga que, segundo a descrição da própria página no Facebook, é um “Coletivo de criações artísticas com a temática da mulher e do LGBTQIA+ negra e das REAÇÕES as violências vividas diariamente”. Você poderia nos contar um pouco sobre ele? 

O K’bça vem muito no intuito de eu criar um site meu para mostrar a minha arte, um site portfólio. E aí eu fiz um ensaio fotográfico com o tema Princesa Africana. Nesse projeto do ensaio, várias pessoas se envolveram, o Lincoln, que é branco, Bernardo, que é preto e gay, Carol, que é branca também, e a Naiara também, que é uma negra cientista social formada agora, na época estava na graduação. E como eu disse, eu morei na moradia estudantil que me transformou nesse ser humano que eu sou hoje, e aí lá em contato com essas pessoas, resolvemos fazer: a gente tinha câmera, maquiagem, guache, panos. E aí a Morgana, que é uma afro-asiática que se formou em design industrial recentemente, ela fez o meu cabelo, que na época eu alisava e a gente fez esse ensaio. A partir do ensaio, teve um momento que a gente tava brisando, e aí a gente fez umas imagens minhas colocando um pano, um xale. Nisso, o Lincoln fez em sequência, eu botei uma do lado da outra e ficou um stop-motion. Eu fiz um poema para Oyá, que é Iansã. No dia dela, eu botei no site do Wix. Aí juntei o poema com as imagens, tudo na gambiarra, áudio gravado em celular. E ficou bom. Mas divulguei pra poucas pessoas.

Em 2015 conheci Diego, no Encontro Nacional de Casas de Estudantes, que aconteceu em Goiânia. E… Diego, um ano depois, foi assassinado. E aí foi bem complicado porque eu dei uma pirada. Eu dei uma pirada. A morte do Diego pra mim foi: podia ter acontecido comigo, podia ter acontecido com meu amigo – e aconteceu com meu amigo. E eu escrevo quando eu fico muito feliz e quando eu fico muito triste. Eu consigo colocar pra fora escrevendo. E eu fiz um poema chamado “Da Minha Pele” porque não foi só o fato dele ser LGBT que ele foi executado – porque foi uma execução, foi uma interrupção da vida de um ser humano que foi muito mais do que aquilo que foi colocado nos jornais. Mesmo ele sendo tutelado por ser estudante de uma universidade e morar dentro dela, isso não o privou de ter a vida ceifada. Então, Diego foi uma pessoa que eu nunca vou esquecer porque a minha militância com relação à moradia vem por causa dele, porque ele pegou e foi me mostrando como era o movimento dentro das Casas dos Estudantes. E, quando a gente fica sabendo do ocorrido e feito esse poema, eu tinha naquela semana filmado pra uma festa negra que aconteceu chamada Requebrada aqui em Niterói – a primeira festa afro com temática negra feita por negros em Niterói. E aí a gente chamou uma galera da UFF, eu fiz um roteirinho e a gente fez um teaser para essa festa pra chamar as pessoas e tal. Filmamos no Palácio, atrás do antigo Bin Laden. E quando eu estou editando esse teaser, é que o Diego foi assassinado. Aí eu pego essas imagens desses corpos negros belíssimos, fiz uma montagem, gravei o poema com a minha voz no celular, coloquei, mandei pra todas as pessoas envolvidas nessas filmagens, pedi autorização para usá-las. E aí, enfim, coloquei o filme em alguns festivais e mostras e foi muito selecionado. Fomos para doze festivais internacionais.

Em um dos festivais a gente foi com o Bixa Preta, com o Felipe Pinto, que é uma bixa preta bem periférica de Santo Aleixo e deficiente – ele tem uma dificuldade de locomoção. O Felipe tinha acabado de se descobrir soropositivo e eu queria imortalizá-lo. E aí muito mais pessoas se agregaram a essa vontade perpetuar a imagem do nosso amigo – que está belíssimo hoje, com taxa viral zero, maravilhoso e trabalhando com cinema, sendo graduado da Darcy como bolsista. Ele tem também outras produções para além do K’bça. Porque o K’bça é um coletivo muito orgânico, a gente tem as nossas frentes, e todo mundo faz alguma coisa paralelo ao que a gente está fazendo nele. Tem uma produção do K’bça, vai todo mundo se juntar pra fazer. Não tem uma produção do K’bça a gente vai fazer os nossos corres para sobreviver. Eu estou muito mais à frente do K’bça, e agora a gente está passando por uma formulação: ali a gente começa a ter um conceito de coletivo, de coletividade, quando a gente faz o Bixa Preta. E aí a gente faz O auto-retrato de uma bixa pão com ovo, que é uma trilogia – a gente quer apresentar as nossas bixas: começa com o Felipe, depois vem o Bernardo e a terceira bixa é o Luan. E a gente faz esses três filmes e roda o Brasil. Enfim, nós temos as produções do K’bça e agora a gente como coletivo de MEI e a gente quer fazer com que o Coletivo se torne uma empresa e possa conseguir edital, angariar fundos através de ONGs, projetos… Então pra isso a gente precisa se profissionalizar, e não é que a gente não seja profissional, mas é necessário que a gente tenha esses instrumentos de papelada, documentação, MEI, essas coisas. Pra gente poder se organizar e ganhar dinheiro através das nossas produções, já que é isso que a gente ama fazer e é por esses trabalhos que somos reconhecidos. Se somos reconhecidos, então por que não nos pagam? Porque a gente não pode receber pelo que a gente está fazendo, entendeu? Então, a ideia é essa: a gente que fazer produtos do cabeça, tipo bottoms, para ajudar nas nossas produções, nos nossos corres. Às vezes, por exemplo, a gente é chamado para ir para Seropédica para debater nossos filmes, mas a gente não consegue ir porque não tem dinheiro da passagem. Eu não tenho como parar de pagar meu aluguel para pagar uma passagem.

Agora, decidimos fazer um filme sobre a Lua Guerreiro e a gente foi e se inscreveu no 72 horas. Assim, o 72 horas é um festival feito por negros, tem um preto na direção do rolê. A maioria dos filmes é feito por uma galera preta. E eu falei: vamos fazer. Mas pensei em como a gente iria conseguir fazer um filme em 72 horas sem dinheiro nenhum, não tinha condições. A gente tinha que alimentar a galera que vai estar com a gente, a gente vai ter que correr com um monte de coisa – a gente não tinha carro, ninguém tinha amigo com carro. A gente precisava de apoio e o que a gente fez para solucionar esse problema, e deu muito certo: a gente entrou em contato com cooperativa de taxi que disponibilizou táxi pra gente de graça, a gente conseguiu um restaurante pra dar comida pra gente, a gente conseguiu frutalha pra dar fruta pra gente, a gente conseguiu uma padaria para dar pão pra gente. E aí foi aquela coisa: 72 horas pra fazer um filme é foda, e a gente não conseguiu entregar a tempo. Mas foi exibido no Festival, e estreou já no MAR – que já é uma coisa.

O seu último filme intitula-se Privilégios (2018), o que te motivou a fazê-lo?

RM: Em 2015 minha mãe me faz uma pergunta: “Qual o problema da meritocracia? Eu trabalhei muito para estar onde eu estou, eu me esforcei muito. É só você se esforçar”. Essa foi a pergunta que minha mãe fez pra mim e eu anotei essa pergunta, aí eu fiz o Privilégios para minha mãe, em 2016, quando ocorreu as ocupações nas universidades. Os alunos tomaram o poder do espaço, que já é nosso, e comandaram aquele espaço, geriram aquele espaço de uma maneira mais libertária, diferente da que é imposta e colocada. Para mim, a ocupação foi uma suspensão acadêmica. Eu achei primoroso como o movimento da ocupação não só nas universidades, mas também no ensino público. E eu acho que a ocupação da UFF também tem seus méritos.

E com essa ocupação a gente viu a oportunidade de usar equipamentos reais sem ser emprestado do amigo. Então, a gente teve a oportunidade de fazer um filme com equipamento bom e num estúdio! Então, o que a gente fez? Aproveitou essa oportunidade. A equipe inteira do K’bça colaborou no Privilégios, de mil formas e ninguém cobrou pra fazer nada. Quando eu contei o que eu queria mostrar com ele, as pessoas só toparam. Então eu fiz uma chamada virtual e fiz também alguns poucos lambes para botar na rua do IACS, indicando o caminho do Estúdio do IACS porque muita gente ali do entorno não tem acesso ao IACS, e o IACS é do lado de uma comunidade, além de ser o campus mais brancos da UFF. Nem a Praia Vermelha, que tem cursos mais ortodoxos, é mais branca que o IACS.

No Campus do IACS, tem os cursos mais subjetivos, artes e comunicação, que é de uma galera branca. Porque quem comanda esses equipamentos são pessoas brancas. Óbvio que eles vão ter acesso a esse lugar. O preto que está lá ou é louca como eu que resolve fazer cinema ou ele tem uma condição de estar ali, ele tem um recurso de classe. E não desmereço ele, mas não adianta só fazer o recorte racial, a gente precisa fazer um recorte de classe também. Porque senão, pra mim, é desonestidade. Por exemplo, no IACS, as pessoas já entendiam que eu era cotista e eu dizia: “Gente, quando eu entrei não tinha cota. Tinha social, mas eu não entrava no escopo da social, eu ganhava muito mais, eu parei de trabalhar e só aí parei de ter as condições que eu tinha”.

Enfim, ali no IACS é muito branco, então eu queria pegar pessoas também brancas, mas eu queria pegar pessoas de fora, da comunidade, e colocar realmente dentro desse espaço que a eles era negados. E ali do lado tinha uma comunidade que nunca entrou lá, que não sabia o que acontecia no IACS. E eu via as pessoas entrando assim: “É aqui que é o negócio do K’bça? Nossa, tem estúdio aqui dentro, tem todas essas coisas. Eu nunca vim aqui, eu moro aqui há 30 anos, eu moro aqui há 20 anos, eu moro aqui há 15 anos, e nunca vim aqui dentro”. A universidade tem, assim como a indústria cinematográfica, um tripé: pesquisa, ensino e extensão. Eu me pergunto: onde que está a parte de extensão do IACS? São oito cursos que funcionam no IACS sem um professor negro. No cinema tem uma mulher indígena estrangeira. Professor, sem ser substituto, 20 horas ou 40 horas do IACS é branco e é homem, a maioria. Não só no curso de cinema, o curso de cinema é só um retrato do IACS, como um todo: a maioria é homem branco, mulher branca e nenhum negro – é importante também frisar que isso é um problema estrutural e não individual. E um número de estudantes negros infinitamente ridículo. E eu acho que todos deviam começar a questionar isso. Ou não? Ou é um problema que só eu posso falar? Aí entra a questão da terceirização da militância.

Entrando nesse assunto da terceirização da militância e também de muitos brancos se isentarem de atuar ativamente na luta anti-racista com um discurso de “Somos todos humanos”. O que você acha dessa tentativa de colocar todos dentro da mesma humanidade sem tentar causar mudanças estruturais que de fato viabilizem isso?

RM: Então, a questão da humanidade é um rolê, porque esse negócio de somos todos humanos, que todo o sangue é vermelho… Ninguém tira exame de sangue pra me seguir no mercado, não. Ninguém faz isso, sabe? É visual, é você andar na rua e ver: eu estou aqui em Icaraí e vou ver poucas pessoas da minha cor circulando na rua que não esteja correndo porque está indo pro trabalho.

Isso me faz lembrar de um ocorrido, aqui em Icaraí. Eu, quando ando com minha amiga e companheira de militância, Caroline Meirelles, que é negra, as pessoas olham muito. E eu sinto que o privilégio de minoria modelo só se estende até o momento em que você está em um meio branco. Porque quando fui com a Carol numa lanchonete, o fato de eu ser asiático e estar com ela não impediu que fôssemos seguidos.

RM: É porque ela não é vista como sua propriedade. Porque se ela está do lado de um branco, ela é propriedade dele. Ainda vivemos no colonialismo no Brasil, ainda estamos num regime que é uma mentira dizer que é democrático. É uma mentira dizer que há igualdade nesse país. Não existe essa coisa de somos todos humanos. Se somos todos humanos, então vamos ganhar os mesmos salários. Se somos todos humanos, então não vamos ser vistos com desconfiança – não atravessa pro outro lado da rua quando eu estiver andando de noite. Não somos humanos, né?

O conceito de humanidade que as pessoas têm quando dizem essa falácia, essa mentira – porque nada mais é do que um modelinho novo da democracia racial, que não é nada novo –, nunca foi proporcionado ao negro, nunca foi proporcionada ao asiático. Em poucos momentos ele é dado ao asiático, e é bem mais do que é dado aos negros.  Mas são poucos. E aí é que surgem os privilégios, que as pessoas brancas não querem saber e quando é apontada como branco fica chateado. Como que pode ficar chateado se você é? Não pode falar preto porque “ah, não fala preto, é moreninho”. O conceito de higiene, eugenista, é nesse modelo que é baseada a sociedade brasileira: aquele quadro A Redenção de Cam, que é bem isso, da gente clarear ao máximo.

Quando esses conceitos racistas chegam no Brasil, junto com o cinema por acaso, ele vem com esse discurso de que daqui a alguns anos não ia ter mais preto. Se continuar matando, realmente… É só matar. Só que já se passaram mais de 100 anos e a gente ainda está aqui. E o que você vai fazer? E ainda continuam matando, e ainda continuam exterminando corpos negros. Marielle está aí, Diego está aí, Anderson está aí, Marcus Vinicius, cinco jovens em Maricá que faziam roda cultural – executados, na cabeça. Então, que conceito de humanidade é esse? Somos todos humanos mesmo? A cor de quem morre, o sangue derramado lá… Por que a intervenção está na Maré, mas não está na Rocinha? Por que a intervenção está na Maré e não está aqui, em Icaraí, que também tem favela. Mas não somos todos humanos? Eu acho muito desonesto, mau-caratismo, falar isso.

Enfim, para terminar a entrevista, me conta um pouco do futuro de Rosa Miranda. 

RM: É, eu estou indo dia 22 para Portugal, vou para Porto. Desembarco lá dia 23, vou para um congresso, apresentar o artigo sobre o Privilégios, que vai falar do meu filme e vai falar de toda uma conjuntura hegemônica de opressão. Depois vou para Lisboa exibir o Privilégios em alguns lugares lá, no UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), que é um local de luta feminina. E vai ter um outro evento no dia seguinte, no Lugar de Fala, que é um pub cultural de referência afro. No dia 03, na Casa do Brasil de Lisboa, vamos fazer a mostra Cinemas Negras.

No Brasil, quando eu retornar em Agosto, aqui no Rio, a gente vai fazer dia 14, provavelmente. A gente está vendo as outras cineastas que estão nessa mostra porque são cinco mulheres negras apresentando as suas obras. São quatro mulheres que eu admiro muito e que eu convidei para exibir junto ao meu filme Privilégios, nessa mostra que vai ter. Eu estou animada! Talvez role uma oficina na Casa do Brasil. Eu estou animada, tô bem feliz com essa viagem porque eu ia voltar dia 05 e acabei estendendo pro dia 08, então até lá role uma oficina de três dias. Aqui, chego dia 09 e dia 11, na Casa Nara, começo a Oficina de Roteiro Afro-Centrado, vai ser nos sábados de manhã e eu estou muito emocionada para isso. Acho que é a hora da gente dar certo, a gente tem que mostrar que a gente bom. Se eu consegui tudo o que consegui acho que é por ter a cabeça no lugar e saber que as porradas vêm, mas a gente não pode abaixar a cabeça e desistir. Então, DIEGO PRESENTE, MARIELLE PRESENTE, ANDERSON PRESENTE, MARCUS VINICIUS PRESENTE, MATHEUSA PRESENTE, e todos os meus que vieram estão presentes. Nossos passos vêm de longe!

 

 

 

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