Desejo, estereótipos e fetiche racial

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Para começarmos a pensar e aprofundar um debate em torno do fetiche racial, é-nos necessário entender, primeiramente, como os desejos da branquitude se articulam na pós-modernidade a partir da sua crise identitária que levou pessoas brancas a olhar para o Outro de uma maneira diferente da de seus ancestrais. Será preciso também recuperarmos um debate sobre as práticas representacionais de estereotipagem, que criam um imaginário sobre a pessoa racializada, reduzindo-a, consequentemente, à sua raça. E, por fim, adentrar, de fato, nas dinâmicas de fetiche racial.

As dinâmicas de desejo e desejabilidade estão atreladas à noção de raça. Emerich Daroya afirma que as as “ideias sobre o que é bonito e desejável são completamente racializadas, mostrando que até nossos desejos estão permeados pela raça” (Daroya, 2011, p. 13, tradução nossa). Partindo desse pressuposto, recuperemos o texto Comendo o Outro: desejo e resistência, de bell hooks. Segundo a autora, a identidade branca ocidental entrou em colapso na pós-modernidade, fazendo com que

A “verdadeira diversão” é trazer à tona todas aquelas fantasias e desejos inconscientes “obscenos” associados ao contato com o Outro, incrustados na estrutura profunda secreta (nem tão secreta) da supremacia branca. De várias formas, é retomada o interesse no “primitivo”, com um viés claramente pós-moderno. Como Marianna Torgovnick debate em Gone Primitive: Savage Intellects, Modern Lives [Tornando-se primitivo: intelectos selvagens, vidas modernas]: “Está claro agora que a fascinação do Ocidente com o primitivo tem a ver com a sua própria crise de identidade, com uma necessidade de demarcar claramente sujeito e objeto, ainda que flertando com outras formas de experimentar o universo. (hooks, 2019, p. 66)

O olhar da branquitude na pós-modernidade, portanto, volta-se para o Outro racializado, em uma tentativa de sofrer uma transformação a partir da diferença racial, da Outridade. É, inclusive, a partir dessa diferença racial que Emerich Daroya vai afirmar que o homem asiático torna-se desejável para o homem branco. Por conta do imaginário Orientalista que retrata homens asiáticos como fundamentalmente diferentes de homens brancos, esses corpos “tornam-se desejáveis para homens brancos em razão da (…) sua ‘Outridade’” (Daroya, 2011, p. 89, tradução nossa). Este desejo pelo “diferente”, pelo Outro, não é mais velado – muito pelo contrário, ele é expresso explicita e orgulhosamente. Acreditando estarem rompendo com o passado supremacista branco, sem perceber que estão reiterando uma estrutura racista, pessoas brancas falam abertamente sobre suas “preferências sexuais”.

Para rapazes brancos, discutir abertamente seu desejo por moças (ou rapazes) não brancos é anunciar em público seu rompimento com um passado supremacista branco que teria articulado tais desejos apenas como tabu, segredo e vergonha. Eles veem sua disposição em nomear abertamente seu desejo pelo Outro como uma afirmação da pluralidade cultural (que influencia na preferência sexual e na escolha). Diferente dos homens brancos racistas que historicamente violaram os corpos de mulheres negras e não brancas para marcar sua posição como colonizadores/conquistadores, esses jovens se veem como não racistas, já que escolhem ultrapassar as fronteiras raciais dentro dos domínios do sexo não para dominar o Outro, mas para que possam ser afetados, transformados internamente. Sem estarem atentos a determinados aspectos de suas fantasias sexuais que irrevogavelmente os unem à dominação racista coletiva, acreditam que seu desejo por contato representa uma mudança progressista nas atitudes dos brancos em relação às pessoas não brancas. Eles não veem que estão perpetuando o racismo. Para eles, o indicador mais forte dessa mudança é a franca expressão do anseio, a declaração aberta do desejo, a necessidade de ser íntimo com Outros de pele escura. O importante é ser transformado por essa convergência de prazer e Outridade. O sujeito ousa – age – na presunção de que a exploração do mundo da diferença, no corpo do Outro, fornecerá um prazer maior, mais intenso, do que qualquer prazer que exista no mundo ordinário de seu grupo racial familiar. E mesmo que a convicção seja de que o mundo familiar permanecerá intacto ainda que o indivíduo se aventure fora dele, a esperança é de que não serão mais os mesmos ao regressar a esse mundo. (hooks, 2019, p. 70-71)

Tal “preferência sexual” está muito atrelada a estereótipos raciais que circundam o imaginário da branquitude e demarcam a diferença racial. Os estereótipos reduzem “a algumas poucas características simples e essenciais, que são representadas como fixas por natureza” (Hall, 2016, p. 190). Stuart Hall coloca que existem três pontos a serem consideradas no ato de estereotipagem: “ele essencializa e fixa a diferença, cria um lugar de normalidade, expelindo dele qualquer coisa considerada o “Outro”, e, por fim, tende a se dar onde há desigualdades de poder” (Okabayashi, 2019, p. 22). Para além disso, Stuart Hall vai afirmar que a dinâmica de exclusão da normalidade é pertinente à luta pela hegemonia, dentro do pensamento de Gramsci.

O estabelecimento da normalidade (ou seja, o que é aceito como “normal”) através de tipos sociais e estereótipos é um aspecto do hábito de grupos de decisão (…) que tentam moldar toda a sociedade de acordo com sua própria visão de mundo, sistema de valores, sensibilidades e ideologia. Essa concepção de mundo está tão clara para esses grupos, que fazem com que ela pareça (como realmente parece para eles) “natural” e inevitável” para todos e, na medida em que têm sucesso nessa empreitada, eles estabelecem sua hegemonia (Dyer, 1977, p. 30 apud Hall, 2016, p. 193)

O ato de estereotipagem é também uma violência. Para ele, há “uma conexão entre representação, diferença e poder” (Hall, 2016, p. 193) e, portanto, o ato de estereotipagem como uma prática representacional, configura-se enquanto uma violência simbólica. Por mais que acreditemos que a violência se dá apenas em termos físicos, ela também pode se dar de outras formas, como na estereotipagem, na representação do Outro. Hall, inclusive, recupera Edward W. Said, estabelecendo um paralelo com Focault, a partir dos conceitos de poder/conhecimento. Na dinâmica do Orientalismo trazido por Said, para Stuart Hall, “o discurso produz através de diferentes práticas de representação (bolsas de estudos, exposições literatura, pintura etc.) uma forma de conhecimento racializado do Outro (orientalismo) profundamente envolvida nas operações de poder (imperialismo)” (Hall, 2016, p. 195). Ele, então, recupera, novamente, Gramsci vinculando-o a Focault para pensar a questão do poder:

No entanto, há também algumas semelhanças importantes. Para Gramsci e para Foucault, o poder também envolve o conhecimento, a representação, as ideias, a liderança e autoridade cultural, bem como a restrição econômica e coerção física. Ambos teriam concordado que o poder não pode ser capturado ao pensarmos exclusivamente em termos de força ou coerção: o poder também seduz, solicita, induz, ganha o consentimento. (Hall, 2019, p. 196)

São a partir destas dinâmicas de poder, a partir dos estereótipos, que o fetichismo emerge. Segundo Daroya, em um contexto racial, a fetichização “é uma forma de desejo sexual na qual o prazer está baseado na objetificação da raça” (Daroya, 2011, p. 5, tradução nossa). Stuart Hall vai colocar a fetichização como uma prática representacional que se configura a partir da “substituição do todo pela parte, de um sujeito por uma coisa – um objeto, um órgão, uma parte do corpo” (Hall, 2016, p. 205).

O fetichismo nos leva para o reino onde a fantasia intervém na representação; para o nível no qual aquilo que é mostrado ou visto na representação só pode ser entendido em relação ao que não pode ser visto, ao que não pode ser mostrado. O fetichismo envolve substituir por um “objeto” uma força perigosa, mas proibida. (Hall, 2016, p. 206)

Quando uma pessoa assume ter “preferências sexuais” por pessoas não-brancas, ela está homogeneizando esse grupo, reduzindo-o a algo, e, portanto, fetichizando-o. No caso de homens negros, por exemplo, reduzem-os ao falo devido aos estereótipos sexuais que os bestializam. Na lógica da crise identitária pós-moderna da branquitude, é necessário entrar em contato com esse Outro racializado, “comer o Outro” (no sentido sexual e cultural). Nesta dinâmica de desejo e poder, corpos não-brancos continuam a ser vistos como um objeto para servir à branquitude.

Referências Bibliográficas

DAROYA, Emerich. Potatoes and rice: exploring the racial politics of gay men’s desires and desirability. 2011. Tese de Doutorado. Carleton University.

HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. Puc-Rio: Apicuri, 2016.

HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Editora Elefante,
2019.

OKABAYASHI, Hugo Katsuo Othuki. Pornografia gay e racismo: a representação e o consumo do corpo amarelo na pornografia gay ocidental. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso. Universidade Federal Fluminense.

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