Da flor que (não) se cheire: Reflexões sobre ser amarela

Texto por Nassim Golshan

Sobre a autora: Brasileira, com pai iraniano e mãe brasileira nissei. Psicóloga, ama trocar ideias, organizar no papel pensamentos – seja em forma de poesia, textão ou até origami e buscar o lado da história que não contam.

Da flor que (não) se cheire

Reflexões sobre ser amarela 

Não tão discutida em diversos círculos, a resistência asiática se faz necessária ao se pensar em uma sociedade inclusiva. Este texto se propõe a pincelar a intersecção¹ da resistência mencionada com outras lutas de minorias. Corpos, culturas e histórias antagonizam tensões de uma sociedade estruturada em opressões das mais diversas. Compreender a raiz singular mas de lugar também minoritário de outras lutas pode ser meio de fortalecimento coletivo e tomada de consciência sobre determinantes históricos que recaem em relações cotidianas. Não temos pretensão de discorrer longamente sobre certos conceitos, mas tomá-los como ponto de partida para encadeamento das reflexões. Continuar lendo

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‘Também temos memória, cérebro, coração, tripas’, Ingrid Sá Lee fala de arte e feminismo asiático.

Artista visual de origem norte-coreana, bissexual e deficiente auditiva traz seu trabalho para São Paulo.

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Entre os dias 13 e 15 de novembro, o Museu da Imagem do Som em São Paulo (MIS-SP) organiza a I Feira Des.Gráfica, com o intuito de promover publicações e quadrinhos que “desenvolvem trabalhos narrativos de experimentação gráfico-visual“. O foco do evento é na produção de vanguarda, abrindo espaço para artistas trabalharem suas autoralidades.

Ingrid Sá Lee, artista visual radicada em Belo Horizonte/MG estará no evento divulgando uma série de trabalhos que tratam da imagem da mulher asiática, fazem crítica ao imperialismo ocidental e aos ideais nacionalistas, ao mesmo tempo que reconstrói sua identidade étnico-racial. A artista estará expondo seu novo zine, “A Boneca“, e, em parceria com o coletivo feminista asiático LÓTUS PWR – Empoderamento do Feminismo Asiático, que se organiza principalmente na capital paulista, também estará vendendo material original colaborativo, com o intuito de subsidiar e fortalecer as ações do grupo.

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Arte para o coletivo LÓTUS PWR

Mestiça de pai norte-coreano, deficiente auditiva bilateral de grau moderado e bissexual, Lee organiza em sua obra as inquietações de uma pessoa que se encaixa frequentemente em uma “zona cinzenta” da militância política. O blog Outra Coluna inaugura sua nova seção de entrevistas populares celebrando essa trajetória, que torna o trabalho de Ing Lee tão autêntico e combativo, transformando a nossa luta também em resistência estética.

Leia a entrevista na íntegra a seguir! Continuar lendo

O que faz de Bruce Lee um cara universal e por que Hollywood continua errando?

Por Fábio Ando Filho e Rodrygo Tanaka.

“Eu vim para São Francisco em 1964, na esperança de me encontrar. Dei minhas voltas, aprendi sobre cogumelos, ácido e amor livre. Mas nada daquilo era o que eu precisava. Então um dia, fui andar pela Chinatown, onde descobri o kung fu. E foi assim que conheci Bruce Lee.” É assim que começa o trailer do novo filme-biográfico (biopic) de Bruce Lee, Birth of the Dragon(2016) (O Nascimento do Dragão, ainda não traduzido para o português): com a crise existencial de um homem branco fictício que apresenta Bruce Lee como um mero suporte narrativo ao seu arco de personagem. Tudo para que, no fim das contas, o homem branco conquiste a mulher asiática. Continuar lendo

Perigo Amarelo com Negro Belchior para vereador (SP): Representatividade importa, mas solidariedade ainda mais. #50075

 

“Pelo menos esse candidato é japonês, né?”. Muitos de nós crescemos ouvindo nossos familiares dizendo que escolhem seus representantes políticos porque compartilham origens asiáticas. “Eu voto nesse porque é japonês” é a fala de quem não entende as sérias consequências da política, quando não levada com responsabilidade como um campo de disputa de interesses de classe.

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3° ato: Somos asiáticas/os e resistiremos contra o golpe! Memória, verdade e política.

A identidade da diáspora asiática não é um fim em si mesmo: direito à memória e à verdade, solidariedade nas lutas populares e resistência contra o golpe.

No último sábado (27), jovens asiáticas/os se reuniram para discutir o direito à memória e à verdade no Brasil e a formação da identidade racial amarela e seus reflexos nas lutas contemporâneas. No evento “Asiáticas/os no Brasil: identidade, memória e resistência”, conversamos sobre as relações entre a violência de Estado contra imigrantes asiáticas/os, principalmente durante a Era Vargas, e a consolidação da modernização racista brasileira. A violência racial no Brasil, contra negras/os e indígenas, data do período da colonização e, durante a consolidação de seu capitalismo tardio, no século XX, incrementou-se também com a exploração xenofóbica e racista da raça amarela. Continuar lendo

1° Ato – “O japonês é como o enxofre… insolúvel”: identidade nacional, raça e violência de estado.

Observação: Este texto faz parte de uma coletânea de artigos em três atos, acompanhe aqui.

Em dezembro de 2015, o ativista Mario Jun Okuhara, autor do documentário “Yami no Ichinichi – O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil” (2012) e idealizador do Projeto Abrangências protocolou uma solicitação ao Ministério da Justiça “para que o Estado brasileiro, formalmente, reconheça a perseguição política que seus agentes realizaram contra a coletividade de imigrantes japoneses e seus descendentes, por conta de abusos autoritários do Estado de Exceção do governo do presidente Getúlio Dornelles Vargas (1937 – 1945) e do período constitucional do presidente Eurico Gaspar Dutra (1946 – 1951), por meio de um pedido oficial de desculpas.”

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Memórias da resistência asiática na ditadura civil-militar

História e Memória são campos de batalha. Os verbos que acompanham esses nomes sempre provocam tensionamento: narrar ou contar uma história, explicar ou revisar uma memória. Falar do tempo implica uma geografia historicamente situada, uma forma de ser, uma visão cosmológica, uma vontade direcionada. História e memória são falas políticas, ou políticas de fala. O fascismo apagou línguas para que não falassem mais pelas suas próprias palavras. O colonialismo impôs suas línguas para que só se falasse através das verdades estabelecidas e apresentadas. O sonho do liberalismo é que a história fique restrita ao passado e que a memória não seja mais do que capacidade de processamento das transações do aqui e agora. O dominador moderno apaga as possibilidades do sujeito, transforma tudo em objeto e cria representações que melhor convêm às suas próprias vaidades.

Aprendemos a questionar a história oficial e a bater de frente com a memória do vencedor, e já o fizemos mais de mil vezes. Entretanto, às vezes não nos damos conta de que até a história da resistência configura moldes hegemônicos e trajetórias normativas. A história marginal também é contada por homens brancos e, enquanto isso, os rastros de nossa existência são meros espectros residuais em uma realidade ilusória e fetichizada.

Hoje, em meio à crise da democracia liberal e da liberdade que os oprimidos de sempre nunca viveram, recobramos nossas memórias para por em curso a história pela qual lutamos. Antagonizamos aqueles que prestam homenagens a torturadores da ditadura e combateremos até o fim o avanço conservador e autoritário do republicanismo colonial, racista e golpista. Hoje, contamos a história de pessoas asiáticas que morreram, desapareceram e/ou foram torturadas na ditadura civil-militar. Revolucionários, radicais, militantes que dedicaram suas vidas à luta contra o fascismo. É também pela memória dessas pessoas que seguimos em luta pela libertação de todos os povos, pela autonomia popular e pela emancipação da classe trabalhadora. E reivindicamos: existe uma história que ainda é marginal, porque ela é radical, porque ela não foi embranquecida, e nós nos juntamos a ela! Continuar lendo