Vini Oliveira e Bolsonaro: de mãos dadas na instrumentalização do racismo

No dia 10/01, o deputado fascista Jair Bolsonaro veiculou em sua página do Facebook um vídeo intitulado “LIVROS do PT ensinam SEXO para CRIANCINHAS nas ESCOLAS. O vídeo conta com uma série de fatos falsos – desmentidos pela revista Nova Escola –, buscando deslegitimar a campanha “Escola sem homofobia”, do Governo Federal. Na compreensão de Jair Bolsonaro, educação contra a discriminação é “uma porta aberta para a pedofilia”. Enquanto o Brasil frequentemente aparece como líder de rankings de países que mais matam homossexuais e transexuais, ainda há gente que resiste às iniciativas de promoção da diversidade e combate aos discursos de ódio e à violência.

No vídeo, Bolsonaro veste a camisa da seleção japonesa de futebol, justificando-se pelo fato de o país ter, supostamente, um currículo escolar que dá ênfase à matemática avançada, e que isso dispensaria a necessidade da educação para a diversidade. Para além das atrocidades que comete em relação à luta LGBT, o deputado reproduz uma série de estereótipos sobre a sociedade japonesa, que fetichiza e distorce a complexidade de todo um povo, de forma a colocá-lo a serviço de seu ideal de civilização. É assim que opera o mito da minoria modelo, reduzindo e instrumentalizando um povo, para a manutenção de valores capitalistas e do domínio do mundo branco.   Continuar lendo

Bowie, identidades e transgressões asiáticas

Eu nasci no Japão. Vivi por lá até aproximadamente o auge do meu um ano e meio de vida, quando vim para o Brasil. Dentre as boas memórias que eu guardo desse período, a lembrança definitiva da minha vida no Japão está em um VHS velho que meu pai montou com recortes de cenas da minha primeira infância. A trilha sonora é Space Oddity, de David Bowie. Sempre que eu perguntava aos meus pais sobre o Japão, eles me mostravam este vídeo. Até hoje, eu não sei diferenciar muito bem o que é Japão e o que é David Bowie e quem sou eu. Mas acho justo, afinal, Bowie passou por aqui para embaralhar as nossas identidades. – Fábio

Mais ou menos aos treze anos, meu despertar para música e estética além do óbvio se deu com uma música do David Bowie, baixada ilegalmente através um dos serviços p2p da época. Space Oddity soava diferente de tudo o que eu havia ouvido até então, e me abriu um mundo de possibilidades para minha expressão pessoal, livre de restrições de gênero ou do que era ‘normal’. Não muito tempo depois ele se tornou meu artista preferido e principal referência estética de moda. E desde que eu reparei que nascemos no mesmo dia, em todos os meus aniversários eu secretamente ficava pensando em como ele havia comemorado, se tinha comido bolo também e onde estava nos dias 8 de janeiro. Na minha imaginação sempre me fazia feliz saber que de alguma forma, em algum lugar do mundo ele também comemorava mais um ano. Assim, é justo dizer que ele representa para mim uma grande influência intimamente ligada à construção de identidade pessoal. – Emi

Curiosamente, não sabemos se por ironia do destino ou pelo fato de compartilharmos o mesmo sol em capricórnio, ascendente em signos de ar, o nosso querido Davy Jones também construiu muito da sua identidade transitando no universo Japão, e no universo Ásia, como um todo. Teve a época em que Bowie quase se tornou um monge budista, acompanhando fielmente o Lama tibetano Chime Rinpoche. Teve a maquiagem kabuki que Bowie aprendeu diretamente com Bandō Tamasaburō V no Japão e que inspirou fortemente a estética de Ziggy Stardust. Teve aquela faixa de Earthling que ele canta em mandarim, orientado por Li Xin. Continuar lendo