Ghost in the Shell: modernidade e identidade pós-colonial

Antes de mergulhar no contexto histórico e cultural de Ghost in the Shell, é preciso desconstruir o argumento mais recorrente em defesa do whitewashing: a major Kusanagi não tem etnia. Essa é uma variação não tão incorreta de outro argumento completamente incorreto, “personagens de anime são brancos”.

A major não precisa ter sua etnia explicitada porque a produção de anime e mangá (A&M) é muito mais voltada para o mercado interno japonês, que é, ou foi por muito tempo, etnicamente homogêneo. O estilo “mukokuseki” (無国籍), que pode ser entendido como “sem nacionalidade”, é a falta de uma nacionalidade, etnia ou raça de personagens; ele é utilizado em A&M sem causar estranhamento graças à percepção de “ser humano padrão”.

O “ser humano padrão” é um viés cognitivo que atribui automaticamente determinadas características humanas, como gênero e raça, a representações que não as possuem inerentemente. No Japão, o “ser humano padrão” é  —  pasmem  —  a pessoa etnicamente japonesa (da etnia Yamato).

No Ocidente, lemos a pele clara e olhos grandes como características brancas por conta da ausência de marcadores explícitos que neguem a branquitude. A major e outros personagens de A&M não se encaixam na visão ocidental do que é uma representação leste asiática, então são lidos a partir da nossa construção do “ser humano padrão”: o branco.

stickman-and-stickgirl

Olhos desproporcionalmente grandes e coloridos não são um retrato realista de qualquer pessoa, assim como um desenho de pauzinho não é um ser humano; mas nós o identificamos como um homem e como branco. Por isso chamamos o lápis salmão de “cor de pele” e assumimos que o banheiro feminino é indicado pela figura de saia.

De qualquer forma, o que indica que Ghost in the Shell (1995) é sobre o Japão (ou, no mínimo, sobre o leste asiático) não está essencial ou exclusivamente circunscrito nos personagens; o contexto político, social, cultural e econômico perpassa pela totalidade do filme, desde a estética até a questão central da narrativa: o que é ser?

Continuar lendo

Da flor que (não) se cheire: Reflexões sobre ser amarela

Texto por Nassim Golshan

Sobre a autora: Brasileira, com pai iraniano e mãe brasileira nissei. Psicóloga, ama trocar ideias, organizar no papel pensamentos – seja em forma de poesia, textão ou até origami e buscar o lado da história que não contam.

Da flor que (não) se cheire

Reflexões sobre ser amarela 

Não tão discutida em diversos círculos, a resistência asiática se faz necessária ao se pensar em uma sociedade inclusiva. Este texto se propõe a pincelar a intersecção¹ da resistência mencionada com outras lutas de minorias. Corpos, culturas e histórias antagonizam tensões de uma sociedade estruturada em opressões das mais diversas. Compreender a raiz singular mas de lugar também minoritário de outras lutas pode ser meio de fortalecimento coletivo e tomada de consciência sobre determinantes históricos que recaem em relações cotidianas. Não temos pretensão de discorrer longamente sobre certos conceitos, mas tomá-los como ponto de partida para encadeamento das reflexões. Continuar lendo

Solidariedade indígena: Ryukyu, Ainu e Standing Rock

No dia 19 de março, o casal Kamiyui publicou um vídeo declarando o apoio de Okinawa à resistência em Standing Rock contra o oleoduto na Dakota do Norte, que passa pelo território indígena da tribo Sioux.

Mais do que apenas uma demonstração em prol de direitos humanos, a solidariedade de Okinawa é uma expressão do movimento de descolonização; diante da ameaça da construção de mais uma base militar estadunidense em Henoko, local que carrega em si a ancestralidade okinawana, os povos de Ryukyu se identificam com a dor dos Protetores da Água em Standing Rock. É o reconhecimento da dor que todos os povos indígenas ao redor do mundo enfrentam, lutando pela preservação de suas identidades e de suas terras, não como propriedade, mas como um legado de seus antepassados e campo de sua cultura.

Continuar lendo

Feminismo Asiático: Identidade, Raça e Gênero

Pela vocalização e empoderamento de mulheres com ascendência asiática no movimento feminista contemporâneo.

1-206Tc4wrBvL5isCURTlfEQ

Atenção: No texto há imagens e relatos de violência contra mulheres asiáticas no curso da História, especificamente em períodos de guerra, sendo a exposição de tais fatos e fotos necessárias no objetivo de não mais perpetuar, ou ser conivente, com o apagamento e silenciamento de mulheres asiáticas na História da Humanidade.

“Cultura”, é um substantivo que designa padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, e assim distinguem um grupo social.

Quando falamos sobre cultura do machismo, está intrínseco a compreensão no qual vivemos sob estruturas patriarcais; patriarcado este criado através de processos históricos simbióticos à hierarquias de poder. A hegemonia construída através do imperialismo colonialista trás consigo um privilégio ainda — infelizmente — duradouro, e que continua à dizer qual é o curso da História. Ou mesmo, quem consta na tão dita “História da Humanidade”.

Esta História contada para nós desde tão pequenos, seja escrita em livros do ensino fundamental, ou imageticamente construída em filmes, traz à superfície o factível e palpável apagamento da vivência de mulheres, e principalmente, indivíduos não-brancos. O que dirá então, de mulheres em recorte racial e suas vivências.

Porque esse prólogo? Porque entender as estruturas do poder é entender sobre dominação e violência de gênero. E principalmente, é entender a história do feminino asiático. Continuar lendo

“Existe toda uma história que constrói meu corpo e ele é percebido por estereótipos” – entrevista com Ana Tomimori

A exposição Pós-poéticas, em cartaz desde o dia 18 de novembro, inaugura o Espaço das Artes, antigo Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo. A mostra traz obras dos artistas Ana Tomimori, Andréa Tavares, Cassia Aranha, Filipe Barrocas, Inês Bonduki, Julia Mota, Juliano Gouveia dos Santos, Pedro Hamaya e Renato Pera, relacionadas às pesquisas de pós-graduação de cada um deles ao longo dos últimos 2 anos.

15218725_1248223891883137_1554581156_n

Registros da intervenção urbana “Bandeira”

Ana Tomimori, artista visual integrante da exposição, tem nacionalidade brasileira e ascendência japonesa. Seu trabalho apresentado na Pós-poéticas investiga como o discurso hegemônico e colonialista europeu acaba deixando seus rastros de exclusão. Sob o olhar de mulher não-branca, suas obras trazem marcas dessa vivência e da história que ela carrega  reinterpretadas pela própria artista. Ana, com a não-neutralidade que o corpo asiático carrega, apresenta desde bordados até intervenções urbanas, que exploram os estereótipos que automaticamente são associados  a etnias não-brancas.

A entrevista na íntegra, a segunda da seção de Entrevistas Populares, você confere a seguir!

Continuar lendo

‘Também temos memória, cérebro, coração, tripas’, Ingrid Sá Lee fala de arte e feminismo asiático.

Artista visual de origem norte-coreana, bissexual e deficiente auditiva traz seu trabalho para São Paulo.

FEIRA ING.png

Entre os dias 13 e 15 de novembro, o Museu da Imagem do Som em São Paulo (MIS-SP) organiza a I Feira Des.Gráfica, com o intuito de promover publicações e quadrinhos que “desenvolvem trabalhos narrativos de experimentação gráfico-visual“. O foco do evento é na produção de vanguarda, abrindo espaço para artistas trabalharem suas autoralidades.

Ingrid Sá Lee, artista visual radicada em Belo Horizonte/MG estará no evento divulgando uma série de trabalhos que tratam da imagem da mulher asiática, fazem crítica ao imperialismo ocidental e aos ideais nacionalistas, ao mesmo tempo que reconstrói sua identidade étnico-racial. A artista estará expondo seu novo zine, “A Boneca“, e, em parceria com o coletivo feminista asiático LÓTUS PWR – Empoderamento do Feminismo Asiático, que se organiza principalmente na capital paulista, também estará vendendo material original colaborativo, com o intuito de subsidiar e fortalecer as ações do grupo.

lotuspwr6

Arte para o coletivo LÓTUS PWR

Mestiça de pai norte-coreano, deficiente auditiva bilateral de grau moderado e bissexual, Lee organiza em sua obra as inquietações de uma pessoa que se encaixa frequentemente em uma “zona cinzenta” da militância política. O blog Outra Coluna inaugura sua nova seção de entrevistas populares celebrando essa trajetória, que torna o trabalho de Ing Lee tão autêntico e combativo, transformando a nossa luta também em resistência estética.

Leia a entrevista na íntegra a seguir! Continuar lendo

Sobre (sub)representatividade

Ano passado, aconteceu uma das coisas mais legais da minha vida nessa (infeliz) fase adulta: fui à Bolívia a trabalho. Mais precisamente, à Santa Cruz, uma cidade da qual não sei muito e não fiquei sabendo de muito mais porque só trabalhei, trabalhei e trabalhei quando estive lá. Uma coisa em especial sobre a experiência ficou muito bem alojada em algum lugar da minha memória, apesar de ser algo que poderia facilmente ter passado despercebido: uma grande peça publicitária no centro da cidade, na qual uma mulher resplandecentemente branca, loira e com aquele biótipo de modelo europeia-caucasiana ostentava suas roupas de marca em uma pose sensual. A moça era de uma brancura que destoava um monte do cinza do céu chuvoso de Santa Cruz, que parecia padecer de uma melancolia crônica; também destoava outro monte da cor da pele mestiça/indígena, do tipo físico mais comum entre bolivianos, andinos. Acho que não preciso dizer que essa brancura toda me incomodou. Muito. Continuar lendo

A japonesa que ouve rap: a não individualidade da pessoa de cor

Idas e vindas a drogarias e laboratórios não são raras, uma vez que a minha lista pessoal de patologias e sintomas do DSM não cabe no sentido estrito de “breve”.

Depois do segundo ou terceiro ano, já estava acostumada com os formulários que pedem nome completo, contato, CEP, RG, CPF, número de lote, assinatura de quem vende e quem compra, retenção da receita, “não realizamos troca” e as tantas formalidades da venda legal dessas tarjas controladas. Você também se acostuma com os eventuais comentários – ligeiramente desagradáveis, às vezes um tanto constrangedores, porém bem-intencionados o suficiente para serem ignorados – sobre a quantidade de medicações.

Um dia desses, no entanto, um funcionário me surpreendeu. Enquanto eu vagava entre as sessões de pasta de dente e desodorantes à procura da dipirona sódica, a cura para a ocasional dor de cabeça paulistana, ele me abordou com um sorriso meio tímido, meio curioso:

— Moça, você precisa de ajuda?

Apesar de saber muito o bem o que ele tinha perguntado, tirei os fones de ouvido e, por educação:

— Perdão?
— Precisa de ajuda?
— Ah, não, não preciso. Obrigada.

Continuei apreciando as escovas de dente e os fios dentais. Alguns segundos depois, notei que ele ainda estava me olhando. No momento seguinte, ele resolveu se manifestar:

— Você gosta de rock pesado? Tipo, heavy metal?

Naquele instante, achei a situação hilária. Primeiro porque eu estava vestindo o que estivera ao alcance naquela manhã; segundo porque eu estava ouvindo Anaconda. Meu guarda roupa de fato varia quase que exclusivamente dentro de um espectro de cinzas escuros e pretos, mas, embora essa tenha sido minha realidade desde a adolescência, era a primeira vez que alguém questionava meu gosto musical como se estivéssemos num quadrinho de Facebook.

tipo isso

Tipo isso. Fonte: ryotiras.

Continuar lendo

Kataguiri, Sakamoto e o Japonês da Federal: experiências de pessoas públicas racializadas

Quando uma pessoa branca se posiciona publicamente, ela geralmente é interpretada e julgada de acordo com o seu posicionamento. Por outro lado, quando uma pessoa racializada está exposta publicamente, ela é reduzida a estereótipos, tratada pelo todo de sua raça, silenciada e violentada. Note-se que estas pessoas assumem um papel praticamente passivo no processo comunicativo, pois por mais que bradem suas convicções, o interlocutor – o crivo branco – só receberá uma mensagem: o evidente sinal de sua raça exposta.

O diálogo público com brancos sempre é um pouco ruidoso, em maior ou menor grau. Digamos que a pessoa esteja discorrendo sobre um tema qualquer, como a extinção das abelhas ou o aquecimento global. A pessoa organiza argumentos, apresenta encadeamentos lógicos. E tudo o que passa na cabeça do interlocutor branco é… “Jackie Chan”.  Ou coisas piores.

É recorrente que, em situações públicas, as pessoas filtrem as informações que recebem a partir de estereótipos e concepções pré-arranjadas. O estereótipo é um mecanismo cognitivo que simplifica as relações sociais e, em determinadas situações, sustenta a ilusão de que se está preparado para a interação. É importante entender que todas e todos operam seus vieses cognitivos, só que, enquanto uma pessoa branca pode se encaixar em quantas categorias existirem, as pessoas racializadas encontram o destino manifesto de um limitado imaginário branco.  No fim, o problema não é individual, mas, justamente, público. Quantas negras vemos ocupando espaços de poder? Quantos negros vemos na universidade? Quantas asiáticas vemos na televisão sem que lhes seja relegado um papel sexualizado? Enquanto a vida pública se organizar em torno do mundo branco, o diálogo é impossível.

Continuar lendo

Bowie, identidades e transgressões asiáticas

Eu nasci no Japão. Vivi por lá até aproximadamente o auge do meu um ano e meio de vida, quando vim para o Brasil. Dentre as boas memórias que eu guardo desse período, a lembrança definitiva da minha vida no Japão está em um VHS velho que meu pai montou com recortes de cenas da minha primeira infância. A trilha sonora é Space Oddity, de David Bowie. Sempre que eu perguntava aos meus pais sobre o Japão, eles me mostravam este vídeo. Até hoje, eu não sei diferenciar muito bem o que é Japão e o que é David Bowie e quem sou eu. Mas acho justo, afinal, Bowie passou por aqui para embaralhar as nossas identidades. – Fábio

Mais ou menos aos treze anos, meu despertar para música e estética além do óbvio se deu com uma música do David Bowie, baixada ilegalmente através um dos serviços p2p da época. Space Oddity soava diferente de tudo o que eu havia ouvido até então, e me abriu um mundo de possibilidades para minha expressão pessoal, livre de restrições de gênero ou do que era ‘normal’. Não muito tempo depois ele se tornou meu artista preferido e principal referência estética de moda. E desde que eu reparei que nascemos no mesmo dia, em todos os meus aniversários eu secretamente ficava pensando em como ele havia comemorado, se tinha comido bolo também e onde estava nos dias 8 de janeiro. Na minha imaginação sempre me fazia feliz saber que de alguma forma, em algum lugar do mundo ele também comemorava mais um ano. Assim, é justo dizer que ele representa para mim uma grande influência intimamente ligada à construção de identidade pessoal. – Emi

Curiosamente, não sabemos se por ironia do destino ou pelo fato de compartilharmos o mesmo sol em capricórnio, ascendente em signos de ar, o nosso querido Davy Jones também construiu muito da sua identidade transitando no universo Japão, e no universo Ásia, como um todo. Teve a época em que Bowie quase se tornou um monge budista, acompanhando fielmente o Lama tibetano Chime Rinpoche. Teve a maquiagem kabuki que Bowie aprendeu diretamente com Bandō Tamasaburō V no Japão e que inspirou fortemente a estética de Ziggy Stardust. Teve aquela faixa de Earthling que ele canta em mandarim, orientado por Li Xin. Continuar lendo