A japonesa que ouve rap: a não individualidade da pessoa de cor

Idas e vindas a drogarias e laboratórios não são raras, uma vez que a minha lista pessoal de patologias e sintomas do DSM não cabe no sentido estrito de “breve”.

Depois do segundo ou terceiro ano, já estava acostumada com os formulários que pedem nome completo, contato, CEP, RG, CPF, número de lote, assinatura de quem vende e quem compra, retenção da receita, “não realizamos troca” e as tantas formalidades da venda legal dessas tarjas controladas. Você também se acostuma com os eventuais comentários – ligeiramente desagradáveis, às vezes um tanto constrangedores, porém bem-intencionados o suficiente para serem ignorados – sobre a quantidade de medicações.

Um dia desses, no entanto, um funcionário me surpreendeu. Enquanto eu vagava entre as sessões de pasta de dente e desodorantes à procura da dipirona sódica, a cura para a ocasional dor de cabeça paulistana, ele me abordou com um sorriso meio tímido, meio curioso:

— Moça, você precisa de ajuda?

Apesar de saber muito o bem o que ele tinha perguntado, tirei os fones de ouvido e, por educação:

— Perdão?
— Precisa de ajuda?
— Ah, não, não preciso. Obrigada.

Continuei apreciando as escovas de dente e os fios dentais. Alguns segundos depois, notei que ele ainda estava me olhando. No momento seguinte, ele resolveu se manifestar:

— Você gosta de rock pesado? Tipo, heavy metal?

Naquele instante, achei a situação hilária. Primeiro porque eu estava vestindo o que estivera ao alcance naquela manhã; segundo porque eu estava ouvindo Anaconda. Meu guarda roupa de fato varia quase que exclusivamente dentro de um espectro de cinzas escuros e pretos, mas, embora essa tenha sido minha realidade desde a adolescência, era a primeira vez que alguém questionava meu gosto musical como se estivéssemos num quadrinho de Facebook.

tipo isso

Tipo isso. Fonte: ryotiras.

Continuar lendo

Anúncios

Kataguiri, Sakamoto e o Japonês da Federal: experiências de pessoas públicas racializadas

Quando uma pessoa branca se posiciona publicamente, ela geralmente é interpretada e julgada de acordo com o seu posicionamento. Por outro lado, quando uma pessoa racializada está exposta publicamente, ela é reduzida a estereótipos, tratada pelo todo de sua raça, silenciada e violentada. Note-se que estas pessoas assumem um papel praticamente passivo no processo comunicativo, pois por mais que bradem suas convicções, o interlocutor – o crivo branco – só receberá uma mensagem: o evidente sinal de sua raça exposta.

O diálogo público com brancos sempre é um pouco ruidoso, em maior ou menor grau. Digamos que a pessoa esteja discorrendo sobre um tema qualquer, como a extinção das abelhas ou o aquecimento global. A pessoa organiza argumentos, apresenta encadeamentos lógicos. E tudo o que passa na cabeça do interlocutor branco é… “Jackie Chan”.  Ou coisas piores.

É recorrente que, em situações públicas, as pessoas filtrem as informações que recebem a partir de estereótipos e concepções pré-arranjadas. O estereótipo é um mecanismo cognitivo que simplifica as relações sociais e, em determinadas situações, sustenta a ilusão de que se está preparado para a interação. É importante entender que todas e todos operam seus vieses cognitivos, só que, enquanto uma pessoa branca pode se encaixar em quantas categorias existirem, as pessoas racializadas encontram o destino manifesto de um limitado imaginário branco.  No fim, o problema não é individual, mas, justamente, público. Quantas negras vemos ocupando espaços de poder? Quantos negros vemos na universidade? Quantas asiáticas vemos na televisão sem que lhes seja relegado um papel sexualizado? Enquanto a vida pública se organizar em torno do mundo branco, o diálogo é impossível.

Continuar lendo

Bowie, identidades e transgressões asiáticas

Eu nasci no Japão. Vivi por lá até aproximadamente o auge do meu um ano e meio de vida, quando vim para o Brasil. Dentre as boas memórias que eu guardo desse período, a lembrança definitiva da minha vida no Japão está em um VHS velho que meu pai montou com recortes de cenas da minha primeira infância. A trilha sonora é Space Oddity, de David Bowie. Sempre que eu perguntava aos meus pais sobre o Japão, eles me mostravam este vídeo. Até hoje, eu não sei diferenciar muito bem o que é Japão e o que é David Bowie e quem sou eu. Mas acho justo, afinal, Bowie passou por aqui para embaralhar as nossas identidades. – Fábio

Mais ou menos aos treze anos, meu despertar para música e estética além do óbvio se deu com uma música do David Bowie, baixada ilegalmente através um dos serviços p2p da época. Space Oddity soava diferente de tudo o que eu havia ouvido até então, e me abriu um mundo de possibilidades para minha expressão pessoal, livre de restrições de gênero ou do que era ‘normal’. Não muito tempo depois ele se tornou meu artista preferido e principal referência estética de moda. E desde que eu reparei que nascemos no mesmo dia, em todos os meus aniversários eu secretamente ficava pensando em como ele havia comemorado, se tinha comido bolo também e onde estava nos dias 8 de janeiro. Na minha imaginação sempre me fazia feliz saber que de alguma forma, em algum lugar do mundo ele também comemorava mais um ano. Assim, é justo dizer que ele representa para mim uma grande influência intimamente ligada à construção de identidade pessoal. – Emi

Curiosamente, não sabemos se por ironia do destino ou pelo fato de compartilharmos o mesmo sol em capricórnio, ascendente em signos de ar, o nosso querido Davy Jones também construiu muito da sua identidade transitando no universo Japão, e no universo Ásia, como um todo. Teve a época em que Bowie quase se tornou um monge budista, acompanhando fielmente o Lama tibetano Chime Rinpoche. Teve a maquiagem kabuki que Bowie aprendeu diretamente com Bandō Tamasaburō V no Japão e que inspirou fortemente a estética de Ziggy Stardust. Teve aquela faixa de Earthling que ele canta em mandarim, orientado por Li Xin. Continuar lendo

Tempo de festas , tempo de racismo

Ano novo. Na praia com dois amigos brancos, cantando e tocando violão. Um estranho branco se aproxima, pedindo para integrar a roda, entusiasmado com a animação do trio. Pergunta os nomes. Fulano, prazer. Ciclano, prazer. Ah, você eu não vou guardar o nome mesmo, posso te chamar de japa? Você vai ser O Japa, ok? Certamente pelo menos um dos meus amigos percebera e se incomodara, mas como eu não havia reagido, resolveram também não se manifestar a respeito. E então, em um acordo tácito, deixamos quieto e resolvemos seguir a festividade. No dia seguinte, comentamos com a outra amiga que viajava conosco sobre a noite anterior, sobre como uma personagem bizarra tinha nos abordado e falado tanta merda, mas nos restringimos a contar sobre o fato dele ser milico, de fazer um beatbox estranho e de cantar como o Rogério Flausino.

Continuar lendo