Por que achei Master of None meio pombo, mas bem melhor do que os lances que os meus amigos brancos curtem

Alternativamente, sobre performance e masculinidade do homem asiático

Antes de começar a assistir Master of None, vi algumas mulheres criticando a série. Fiquei com preguiça de me envolver no assunto até um amigo — muito querido, cis, bi e asiático — atestar que era incrível, eu tinha que dar uma chance. Respondi que talvez, porque sou taurina e lembro que ele gostava bastante de (500) Dias com Ela, um filme que sempre abominei com todas as minhas forças; romance nunca foi meu forte e fiquei apreensiva de Master of None ser só mais uma história de amor. Apesar dos pesares, comecei a assistir por amor à nossa amizade.

Um tempo depois, comentei que não curti muito os primeiros episódios com outro amigo — igualmente querido, cis, hétero e asiático — e ele defendeu que a segunda temporada estava fenomenal. Confio nele, então batalhei para chegar nela, mas continuei achando meio… pombo.

Claro que não é ruim. Na verdade, foi uma experiência infinitamente melhor do que muitos filmes e séries recomendados por amigos brancos. Existe uma sensibilidade na abordagem de muitos assuntos que torna o enredo de Master of None cativante: conflitos intergeracionais de filhos com seus pais imigrantes; a falta de representações genuínas de pessoas não brancas na mídia; a subversão de um homem indiano protagonizar releituras de cenas de inúmeros filmes; o episódio da Denise. Todos os momentos que fazem Master of None valer a pena são genuínos e verossímeis justamente por serem vivências de quem os escreve.

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Ghost in the Shell: modernidade e identidade pós-colonial

Antes de mergulhar no contexto histórico e cultural de Ghost in the Shell, é preciso desconstruir o argumento mais recorrente em defesa do whitewashing: a major Kusanagi não tem etnia. Essa é uma variação não tão incorreta de outro argumento completamente incorreto, “personagens de anime são brancos”.

A major não precisa ter sua etnia explicitada porque a produção de anime e mangá (A&M) é muito mais voltada para o mercado interno japonês, que é, ou foi por muito tempo, etnicamente homogêneo. O estilo “mukokuseki” (無国籍), que pode ser entendido como “sem nacionalidade”, é a falta de uma nacionalidade, etnia ou raça de personagens; ele é utilizado em A&M sem causar estranhamento graças à percepção de “ser humano padrão”.

O “ser humano padrão” é um viés cognitivo que atribui automaticamente determinadas características humanas, como gênero e raça, a representações que não as possuem inerentemente. No Japão, o “ser humano padrão” é  —  pasmem  —  a pessoa etnicamente japonesa (da etnia Yamato).

No Ocidente, lemos a pele clara e olhos grandes como características brancas por conta da ausência de marcadores explícitos que neguem a branquitude. A major e outros personagens de A&M não se encaixam na visão ocidental do que é uma representação leste asiática, então são lidos a partir da nossa construção do “ser humano padrão”: o branco.

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Olhos desproporcionalmente grandes e coloridos não são um retrato realista de qualquer pessoa, assim como um desenho de pauzinho não é um ser humano; mas nós o identificamos como um homem e como branco. Por isso chamamos o lápis salmão de “cor de pele” e assumimos que o banheiro feminino é indicado pela figura de saia.

De qualquer forma, o que indica que Ghost in the Shell (1995) é sobre o Japão (ou, no mínimo, sobre o leste asiático) não está essencial ou exclusivamente circunscrito nos personagens; o contexto político, social, cultural e econômico perpassa pela totalidade do filme, desde a estética até a questão central da narrativa: o que é ser?

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Feminismo Asiático: Identidade, Raça e Gênero

Pela vocalização e empoderamento de mulheres com ascendência asiática no movimento feminista contemporâneo.

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Atenção: No texto há imagens e relatos de violência contra mulheres asiáticas no curso da História, especificamente em períodos de guerra, sendo a exposição de tais fatos e fotos necessárias no objetivo de não mais perpetuar, ou ser conivente, com o apagamento e silenciamento de mulheres asiáticas na História da Humanidade.

“Cultura”, é um substantivo que designa padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, e assim distinguem um grupo social.

Quando falamos sobre cultura do machismo, está intrínseco a compreensão no qual vivemos sob estruturas patriarcais; patriarcado este criado através de processos históricos simbióticos à hierarquias de poder. A hegemonia construída através do imperialismo colonialista trás consigo um privilégio ainda — infelizmente — duradouro, e que continua à dizer qual é o curso da História. Ou mesmo, quem consta na tão dita “História da Humanidade”.

Esta História contada para nós desde tão pequenos, seja escrita em livros do ensino fundamental, ou imageticamente construída em filmes, traz à superfície o factível e palpável apagamento da vivência de mulheres, e principalmente, indivíduos não-brancos. O que dirá então, de mulheres em recorte racial e suas vivências.

Porque esse prólogo? Porque entender as estruturas do poder é entender sobre dominação e violência de gênero. E principalmente, é entender a história do feminino asiático. Continuar lendo

O que faz de Bruce Lee um cara universal e por que Hollywood continua errando?

Por Fábio Ando Filho e Rodrygo Tanaka.

“Eu vim para São Francisco em 1964, na esperança de me encontrar. Dei minhas voltas, aprendi sobre cogumelos, ácido e amor livre. Mas nada daquilo era o que eu precisava. Então um dia, fui andar pela Chinatown, onde descobri o kung fu. E foi assim que conheci Bruce Lee.” É assim que começa o trailer do novo filme-biográfico (biopic) de Bruce Lee, Birth of the Dragon(2016) (O Nascimento do Dragão, ainda não traduzido para o português): com a crise existencial de um homem branco fictício que apresenta Bruce Lee como um mero suporte narrativo ao seu arco de personagem. Tudo para que, no fim das contas, o homem branco conquiste a mulher asiática. Continuar lendo

Sobre (sub)representatividade

Ano passado, aconteceu uma das coisas mais legais da minha vida nessa (infeliz) fase adulta: fui à Bolívia a trabalho. Mais precisamente, à Santa Cruz, uma cidade da qual não sei muito e não fiquei sabendo de muito mais porque só trabalhei, trabalhei e trabalhei quando estive lá. Uma coisa em especial sobre a experiência ficou muito bem alojada em algum lugar da minha memória, apesar de ser algo que poderia facilmente ter passado despercebido: uma grande peça publicitária no centro da cidade, na qual uma mulher resplandecentemente branca, loira e com aquele biótipo de modelo europeia-caucasiana ostentava suas roupas de marca em uma pose sensual. A moça era de uma brancura que destoava um monte do cinza do céu chuvoso de Santa Cruz, que parecia padecer de uma melancolia crônica; também destoava outro monte da cor da pele mestiça/indígena, do tipo físico mais comum entre bolivianos, andinos. Acho que não preciso dizer que essa brancura toda me incomodou. Muito. Continuar lendo

Globo faz novela sobre imigração japonesa e os protagonistas são brancos #boicoteamarelo

“Luís Melo vai interpretar o patriarca da família japonesa de “Sol nascente”, próxima novela das 18h.” foi a notícia que interpelou a nossa rotina tranquila desta segunda-feira (11), veiculada pelo blog televisivo de Patrícia Kogut. Em tese, a série trata de um patriarca japonês que imigra para o Brasil na década de 60 e ele e suas filhas vão viver as mais loucas aventuras, incluindo muito drama romântico com pares brancos, na vila fictícia do Arraial do Sol Nascente. Das 30 pessoas cotadas e/ou confirmadas para o elenco, divulgados por aí, apenas 4 são de fato amarelas (Dani Suzuki, Carol Nakamura, Geovanna Tominaga e Miwa Yanagizawa) e menos ainda são negras. Outra estrela confirmada é Giovanna Antonelli. Ainda não está bem claro se o seu papel será de filha do tal patriarca, filha adotiva, ou melhor amiga da Dani Suzuki, mas já está muito bem definido que ela será a protagonista. O par romântico cotado é o Bruno Gagliasso, que fará o papel de um filho de italianos. O ator também esteve envolvido na interpretação de uma personagem transexual na série internacional “Supermax”, ou coisa que o valha.

O recurso empregado pela Globo não é novidade, a mídia normativa e tradicional utiliza-se destes artifícios para transformar histórias “étnicas” em narrativas mais apetecíveis ao público geral (leia-se: público branco). As narrativas tradicionais ocidentais estão sempre em busca de construir trajetórias universais, falar sobre temas essenciais e construir arquétipos bem definidos nos quais as pessoas possam se espelhar, obviamente, fabricando modos de vida moral e subjetiva que se enquadrem nas expectativas de normalidade. Por outro lado, histórias “étnicas” só encontram serventia enquanto representarem aquilo que for exótico e diferente, desviante e até ridículo. Continuar lendo

Diversidade é uma piada e o Oscar é a prova disso

 

Estie Kung, 8, filha de mãe branca e pai asiático-americano, tornou-se uma celebridade mirim no programa “Man vs. Child: Chef Showdown”, em que chefes adultos e chefes crianças se desafiam na cozinha. Com o sucesso internacional do programa, Estie saiu em turnê em Hong Kong, em Singapura, nas Filipinas e na Malásia, concedeu mais de 50 entrevistas e encontrou seu rosto estampando grandes anúncios nas laterais dos ônibus.

No último dia 28, Estie foi uma das três crianças de origem asiática a servirem de escárnio na apresentação do grande piadista Chris Rock. “Como sempre, os resultados da premiação desta noite foram tabulados pela empresa de contabilidade PricewaterhouseCoopers. Eles nos enviaram seus mais dedicados, precisos e aplicados representantes: Ming Zhu, Bao Ling e David Moskowitz“, chamando as crianças ao palco. Se alguém se ofendeu com esta piada, basta tuitar sobre isso em seu telefone, que também foi feito por estas crianças, conclui. Na majestosa farsa que é a mídia branca se esbaforindo por diversidade, à promissora Estie sobrou um único papel: o estereótipo. E como única representação possível no imaginário branco, mais uma vez, asiáticos são não mais que mão de obra a ser explorada. Tudo isso em uma hilariante piada sobre trabalho infantil. Continuar lendo

Boicote o Oscar descobrindo o Cinema e a TV feitos por asiáticos e asiáticas

Com a colaboração de Lucas Pascholatti e Walter Porto

O Oscar é uma celebração branca, e ninguém aguenta mais. Por isso, nas últimas semanas vimos crescer uma mobilização, partindo de artistas e coletivos negros estadunidenses, para boicotar a festividade, reivindicando maior representatividade de minorias. Jada Pinkett Smith, Spike Lee e Snoop Dogg foram porta-vozes de peso nesta movimentação. Alguns artistas brancos também resolveram se posicionar, por vezes favoráveis ao boicote, e algumas vezes bastante fora da realidade – nesta categoria, estão Charlotte Rampling, que disse que se tratava de ‘racismo contra brancos’  e o apresentador de um programa de auditório, Bill Maher, que atribuiu a falta de diversidade no cinema americano aos “asiáticos racistas”, que supostamente gerariam uma demanda exclusiva para consumo de histórias brancas.

Chegando à sua 88ª edição, o Oscar conta uma história na qual as minorias não participam. Atores e atrizes negras foram nominadas 56 vezes e premiadas apenas 15 vezes. Latinos e latinas, 14 nominações e 5 prêmios. Asiáticos e asiáticas, 11 nominações e 3 prêmios. Indígenas, somente 4 nominações e uma premiação. Esses números não dizem respeito somente à falta de apreciação do público geral a respeito da projeção artística de pessoas não-brancas, mas explicita também uma crise gerada pelo mercado de representações da cultura branca. A participação de artistas racializados na mídia muitas vezes fica restrita ao cumprimento de papéis ‘étnicos’, coadjuvantes, complementares, acessórios. Enquanto toda história contada, interpretada e representada por pessoas brancas serve de apologia a experiências e valores universais, se há uma história representada por mais de uma pessoa asiática, por exemplo, ela automaticamente se torna uma produção de nicho. O racismo institucionalizado na indústria cultural afeta a todos e todas, pois silencia as narrativas das minorias, violenta e instrumentaliza seus corpos e impede que nós, público não-branco, possamos nos reconhecer na vida cultural compartilhada.
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Kataguiri, Sakamoto e o Japonês da Federal: experiências de pessoas públicas racializadas

Quando uma pessoa branca se posiciona publicamente, ela geralmente é interpretada e julgada de acordo com o seu posicionamento. Por outro lado, quando uma pessoa racializada está exposta publicamente, ela é reduzida a estereótipos, tratada pelo todo de sua raça, silenciada e violentada. Note-se que estas pessoas assumem um papel praticamente passivo no processo comunicativo, pois por mais que bradem suas convicções, o interlocutor – o crivo branco – só receberá uma mensagem: o evidente sinal de sua raça exposta.

O diálogo público com brancos sempre é um pouco ruidoso, em maior ou menor grau. Digamos que a pessoa esteja discorrendo sobre um tema qualquer, como a extinção das abelhas ou o aquecimento global. A pessoa organiza argumentos, apresenta encadeamentos lógicos. E tudo o que passa na cabeça do interlocutor branco é… “Jackie Chan”.  Ou coisas piores.

É recorrente que, em situações públicas, as pessoas filtrem as informações que recebem a partir de estereótipos e concepções pré-arranjadas. O estereótipo é um mecanismo cognitivo que simplifica as relações sociais e, em determinadas situações, sustenta a ilusão de que se está preparado para a interação. É importante entender que todas e todos operam seus vieses cognitivos, só que, enquanto uma pessoa branca pode se encaixar em quantas categorias existirem, as pessoas racializadas encontram o destino manifesto de um limitado imaginário branco.  No fim, o problema não é individual, mas, justamente, público. Quantas negras vemos ocupando espaços de poder? Quantos negros vemos na universidade? Quantas asiáticas vemos na televisão sem que lhes seja relegado um papel sexualizado? Enquanto a vida pública se organizar em torno do mundo branco, o diálogo é impossível.

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