Sapporo reconhece a união civil de casais do mesmo sexo.

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Participantes da 15ª Parada do Orgulho de Sapporo, realizada em Setembro de 2011

No dia 1 de Junho, Sapporo tornou-se a primeira Cidade Designada* a oferecer reconhecimento a casais do mesmo sexo.

Diferentemente das outras cinco municipalidades japonesas que reconhecem a união civil entre pessoas do mesmo sexo, Sapporo também reconhece a união de casais héteros trans.

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Corte constitucional de Taiwan decide em favor do casamento igualitário

A Corte Constitucional decidiu que as leis atuais, impedindo que pessoas do mesmo sexo se casem, violam o direito à igualdade e são inconstitucionais.

Foi dado ao parlamento o prazo de dois anos para criar emendas para as leis atuais ou aprovar novas leis sobre o assunto.

A decisão histórica de quarta-feira chega num momento em que a comunidade LGBT+ enfrenta um aumento da perseguição na região.

Em um comunicado à imprensa após a decisão, a corte disse que “proibir duas pessoas do mesmo sexo de se casarem, com o intuito de proteger ordens ética básicas” constitui um “tratamento diferente” “sem embasamento racional”.

A corte concluiu que “tal tratamento diferenciado é incompatível com o espírito e significado do direito à igualdade” como protegido pela constituição de Taiwan.

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Às mães ao fogão, às mulheres sem história

Quando eu estava para completar 22 anos, minha avó materna, pela primeira vez em muito tempo, perguntou quando eu pretendia me casar. Dei de ombros e ri; disse que não sabia e, apesar de parecer um tanto redundante, perguntei o porquê do assunto. Ela me olhou com reprovação e acusou: na sua idade, eu já tinha a sua tia mais velha no colo!

Eventualmente, ela revelou que não era só um desejo de ter bisnetos. Eu estava para me mudar para Araraquara, onde moraria sozinha; ela queria saber se eu estava preparada, adulta o suficiente para me virar.

Minha avó perguntou se eu já tinha torcido o pescoço de um frango; quando respondi que não, ela riu e me contou sobre a primeira vez que ela teve que matar e depenar um. Era uma reunião familiar — okinawana, que tende a juntar dezenas de parentes — e as mulheres estavam na cozinha preparando o almoço. Dizem que okinawanos não são pontuais, mas oferecem refeições fartas. Na minha experiência, antes de pensarem numa logística melhor e cada um trazer um prato pronto de casa, essas festas, de fato, conseguem transformar qualquer cozinha num reality show culinário.

Ao som de facas batendo nas tábuas de madeira e panelas borbulhando, quando uma mulher mais velha delega uma função a uma menina, não dá tempo de questionar. Então, quando minha bisavó mandou minha avó, com 14 anos na época, buscar e cozinhar uma galinha, foi isso que ela fez; com uma tia (que provavelmente estava encarregada de mais duas ou três tarefas na hora) recitando as instruções, minha avó aprendeu a matar um frango.

Minha avó gargalhava enquanto me contava essa história, a voz cheia de afeto e saudades. Senti o choro subindo minha garganta, porque ela lembra de ter que juntar os pertences que conseguia carregar nas costas para sair de Santos, onde ela nasceu, para o interior de São Paulo; em julho de 1943, a família da minha avó estava entre os 10 mil imigrantes que tiveram seus bens tomados pelo Estado brasileiro.

Apesar dos traumas que a guerra trouxe; apesar de ser filha de imigrantes perseguidos por brasileiros por serem “japoneses” e perseguidos por japoneses por serem Uchinanchu; apesar da situação de pobreza; apesar de ter cinco filhos e nenhuma comida; apesar do sofrimento de uma vida toda, minha avó lembra de estar na cozinha aos 14 anos, confusa e inexperiente, mas se divertindo num espaço onde mulheres trocavam e passavam receitas okinawanas adaptadas à colheita disponível em Presidente Prudente.

Nguyen Thanh Binh

Nguyen Thanh Binh. Mother and child (series).

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Ghost in the Shell: modernidade e identidade pós-colonial

Antes de mergulhar no contexto histórico e cultural de Ghost in the Shell, é preciso desconstruir o argumento mais recorrente em defesa do whitewashing: a major Kusanagi não tem etnia. Essa é uma variação não tão incorreta de outro argumento completamente incorreto, “personagens de anime são brancos”.

A major não precisa ter sua etnia explicitada porque a produção de anime e mangá (A&M) é muito mais voltada para o mercado interno japonês, que é, ou foi por muito tempo, etnicamente homogêneo. O estilo “mukokuseki” (無国籍), que pode ser entendido como “sem nacionalidade”, é a falta de uma nacionalidade, etnia ou raça de personagens; ele é utilizado em A&M sem causar estranhamento graças à percepção de “ser humano padrão”.

O “ser humano padrão” é um viés cognitivo que atribui automaticamente determinadas características humanas, como gênero e raça, a representações que não as possuem inerentemente. No Japão, o “ser humano padrão” é  —  pasmem  —  a pessoa etnicamente japonesa (da etnia Yamato).

No Ocidente, lemos a pele clara e olhos grandes como características brancas por conta da ausência de marcadores explícitos que neguem a branquitude. A major e outros personagens de A&M não se encaixam na visão ocidental do que é uma representação leste asiática, então são lidos a partir da nossa construção do “ser humano padrão”: o branco.

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Olhos desproporcionalmente grandes e coloridos não são um retrato realista de qualquer pessoa, assim como um desenho de pauzinho não é um ser humano; mas nós o identificamos como um homem e como branco. Por isso chamamos o lápis salmão de “cor de pele” e assumimos que o banheiro feminino é indicado pela figura de saia.

De qualquer forma, o que indica que Ghost in the Shell (1995) é sobre o Japão (ou, no mínimo, sobre o leste asiático) não está essencial ou exclusivamente circunscrito nos personagens; o contexto político, social, cultural e econômico perpassa pela totalidade do filme, desde a estética até a questão central da narrativa: o que é ser?

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Da flor que (não) se cheire: Reflexões sobre ser amarela

Texto por Nassim Golshan

Sobre a autora: Brasileira, com pai iraniano e mãe brasileira nissei. Psicóloga, ama trocar ideias, organizar no papel pensamentos – seja em forma de poesia, textão ou até origami e buscar o lado da história que não contam.

Da flor que (não) se cheire

Reflexões sobre ser amarela 

Não tão discutida em diversos círculos, a resistência asiática se faz necessária ao se pensar em uma sociedade inclusiva. Este texto se propõe a pincelar a intersecção¹ da resistência mencionada com outras lutas de minorias. Corpos, culturas e histórias antagonizam tensões de uma sociedade estruturada em opressões das mais diversas. Compreender a raiz singular mas de lugar também minoritário de outras lutas pode ser meio de fortalecimento coletivo e tomada de consciência sobre determinantes históricos que recaem em relações cotidianas. Não temos pretensão de discorrer longamente sobre certos conceitos, mas tomá-los como ponto de partida para encadeamento das reflexões. Continuar lendo

Solidariedade indígena: Ryukyu, Ainu e Standing Rock

No dia 19 de março, o casal Kamiyui publicou um vídeo declarando o apoio de Okinawa à resistência em Standing Rock contra o oleoduto na Dakota do Norte, que passa pelo território indígena da tribo Sioux.

Mais do que apenas uma demonstração em prol de direitos humanos, a solidariedade de Okinawa é uma expressão do movimento de descolonização; diante da ameaça da construção de mais uma base militar estadunidense em Henoko, local que carrega em si a ancestralidade okinawana, os povos de Ryukyu se identificam com a dor dos Protetores da Água em Standing Rock. É o reconhecimento da dor que todos os povos indígenas ao redor do mundo enfrentam, lutando pela preservação de suas identidades e de suas terras, não como propriedade, mas como um legado de seus antepassados e campo de sua cultura.

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A origem do Perigo Amarelo: Orientalismo, colonialismo e a hegemonia euro-americana

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(O texto original foi submetido como trabalho final do curso semestral de História da Unesp-Araraquara.)

Introdução

Este trabalho procura explorar a origem do mito do Perigo Amarelo e suas funções no imaginário ocidental durante os séculos XIX e XX, traçando um panorama geral de acontecimentos que levaram à criação de paranoia que culminou em políticas deliberadamente excludentes e, em algumas ocasiões, numa forma de racismo letal. Desde a suposta origem do termo até o final do século XX, aqui estão expostos alguns exemplos de violência, tanto popular quanto institucionalizada, causados pela lógica do inimigo comum.

O tema abordado, aliado ao conceito de Orientalismo desenvolvido por Edward Said, ainda é lamentavelmente atual, dado o contexto contemporâneo da Guerra ao Terror, somado à islamofobia e à xenofobia explicitamente presentes nos debates sobre o acolhimento de refugiados, questões de imigração e direitos humanos no Ocidente.

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Tomoya Hosoda tornou-se o primeiro homem trans a se tornar titular de um mandato em cargo político

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Pela primeira vez na história um homem trans foi eleito a um cargo político.

No dia 17 de Março de 2017, Tomoya Hosoda (細田 智也) conseguiu ser eleito como um dos 22 membros do conselho do município de Iruma, província de Osaka. Formado em medicina pela Universidade Teikyo, ele saiu do armário quando ainda era estudante e logo iniciou a sua transição. No ano de 2015 ele conseguiu ter o seu nome e gênero oficialmente alterados.

“Até recentemente, as pessoas tem ignorado a existência de pessoas LGBT” afirma Tomoya “Nós temos muitos obstáculos a serem superados, mas eu espero conseguir estar à altura das expectativas”

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O caminho que Taiwan tomou para a Igualdade Matrimonial

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Parada do Orgulho realizada em Taipei, foto de William Yang

Tradução do artigo Taiwan’s Path To Marriage Equality, escrito por Sebra Yen para o site Ketalagan Media.

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No dia 24 de Outubro de 2016, dez legisladores do Partido Progressista Democrático (DPP) anunciaram que iriam propor emendas para o Código Civil para legalizar o casamento de duas pessoas do mesmo sexo em Taiwan. Especificamente, isso alteraria o artigo 972 do Código Civil, trocando o texto que coloca casamento como “entre um homem e uma mulher” para “duas partes”. A emenda também permitiria direitos parentais, como adoção.

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Feminismo Asiático: Identidade, Raça e Gênero

Pela vocalização e empoderamento de mulheres com ascendência asiática no movimento feminista contemporâneo.

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Atenção: No texto há imagens e relatos de violência contra mulheres asiáticas no curso da História, especificamente em períodos de guerra, sendo a exposição de tais fatos e fotos necessárias no objetivo de não mais perpetuar, ou ser conivente, com o apagamento e silenciamento de mulheres asiáticas na História da Humanidade.

“Cultura”, é um substantivo que designa padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, e assim distinguem um grupo social.

Quando falamos sobre cultura do machismo, está intrínseco a compreensão no qual vivemos sob estruturas patriarcais; patriarcado este criado através de processos históricos simbióticos à hierarquias de poder. A hegemonia construída através do imperialismo colonialista trás consigo um privilégio ainda — infelizmente — duradouro, e que continua à dizer qual é o curso da História. Ou mesmo, quem consta na tão dita “História da Humanidade”.

Esta História contada para nós desde tão pequenos, seja escrita em livros do ensino fundamental, ou imageticamente construída em filmes, traz à superfície o factível e palpável apagamento da vivência de mulheres, e principalmente, indivíduos não-brancos. O que dirá então, de mulheres em recorte racial e suas vivências.

Porque esse prólogo? Porque entender as estruturas do poder é entender sobre dominação e violência de gênero. E principalmente, é entender a história do feminino asiático. Continuar lendo