Feminismo Asiático: Identidade, Raça e Gênero

Pela vocalização e empoderamento de mulheres com ascendência asiática no movimento feminista contemporâneo.

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Atenção: No texto há imagens e relatos de violência contra mulheres asiáticas no curso da História, especificamente em períodos de guerra, sendo a exposição de tais fatos e fotos necessárias no objetivo de não mais perpetuar, ou ser conivente, com o apagamento e silenciamento de mulheres asiáticas na História da Humanidade.

“Cultura”, é um substantivo que designa padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes, e assim distinguem um grupo social.

Quando falamos sobre cultura do machismo, está intrínseco a compreensão no qual vivemos sob estruturas patriarcais; patriarcado este criado através de processos históricos simbióticos à hierarquias de poder. A hegemonia construída através do imperialismo colonialista trás consigo um privilégio ainda — infelizmente — duradouro, e que continua à dizer qual é o curso da História. Ou mesmo, quem consta na tão dita “História da Humanidade”.

Esta História contada para nós desde tão pequenos, seja escrita em livros do ensino fundamental, ou imageticamente construída em filmes, traz à superfície o factível e palpável apagamento da vivência de mulheres, e principalmente, indivíduos não-brancos. O que dirá então, de mulheres em recorte racial e suas vivências.

Porque esse prólogo? Porque entender as estruturas do poder é entender sobre dominação e violência de gênero. E principalmente, é entender a história do feminino asiático. Continuar lendo

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Votação do impeachment: ainda mais desagradável para asiáticas/os de esquerda

E nós achando que o domingo terminava com essa morte horrível que foi a votação pela admissibilidade do impeachment da presidenta Dilma. Mas sempre tem um gostinho um pouco mais amargo que as pessoas racializadas são obrigadas a engolir. Para quem não acompanhou, viralizou no twitter e em algumas páginas do Facebook (“Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga” e “É por isso que eu amo a internet“, por exemplo) a imagem de um deputado amarelo acompanhado da já clássica e insossa piada do “pastel de flango”. Além de ter que acompanhar a investida fascista na política nacional, encerramos o nosso final de semana lembrando que a nossa raça é odiada, que a nossa história é toda instrumentalizada e que a nossa fala é sempre violentada. Não importa em que contexto, as pessoas racializadas têm de ser sempre lembradas de que, no juízo final, será julgada sua raça, e não suas ações.

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Para quem ainda não entende porque a piada em si é ofensiva, uma rápida passeada pelos comentários deixa muito bem explícito que a piada é a aparência mais elementar do universo histórico, simbólico e material da dominação branca, do racismo e da xenofobia. Veja alguns dos temas mais recorrentes quando o assunto é dominação da raça amarela: Continuar lendo

Kataguiri, Sakamoto e o Japonês da Federal: experiências de pessoas públicas racializadas

Quando uma pessoa branca se posiciona publicamente, ela geralmente é interpretada e julgada de acordo com o seu posicionamento. Por outro lado, quando uma pessoa racializada está exposta publicamente, ela é reduzida a estereótipos, tratada pelo todo de sua raça, silenciada e violentada. Note-se que estas pessoas assumem um papel praticamente passivo no processo comunicativo, pois por mais que bradem suas convicções, o interlocutor – o crivo branco – só receberá uma mensagem: o evidente sinal de sua raça exposta.

O diálogo público com brancos sempre é um pouco ruidoso, em maior ou menor grau. Digamos que a pessoa esteja discorrendo sobre um tema qualquer, como a extinção das abelhas ou o aquecimento global. A pessoa organiza argumentos, apresenta encadeamentos lógicos. E tudo o que passa na cabeça do interlocutor branco é… “Jackie Chan”.  Ou coisas piores.

É recorrente que, em situações públicas, as pessoas filtrem as informações que recebem a partir de estereótipos e concepções pré-arranjadas. O estereótipo é um mecanismo cognitivo que simplifica as relações sociais e, em determinadas situações, sustenta a ilusão de que se está preparado para a interação. É importante entender que todas e todos operam seus vieses cognitivos, só que, enquanto uma pessoa branca pode se encaixar em quantas categorias existirem, as pessoas racializadas encontram o destino manifesto de um limitado imaginário branco.  No fim, o problema não é individual, mas, justamente, público. Quantas negras vemos ocupando espaços de poder? Quantos negros vemos na universidade? Quantas asiáticas vemos na televisão sem que lhes seja relegado um papel sexualizado? Enquanto a vida pública se organizar em torno do mundo branco, o diálogo é impossível.

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Tempo de festas , tempo de racismo

Ano novo. Na praia com dois amigos brancos, cantando e tocando violão. Um estranho branco se aproxima, pedindo para integrar a roda, entusiasmado com a animação do trio. Pergunta os nomes. Fulano, prazer. Ciclano, prazer. Ah, você eu não vou guardar o nome mesmo, posso te chamar de japa? Você vai ser O Japa, ok? Certamente pelo menos um dos meus amigos percebera e se incomodara, mas como eu não havia reagido, resolveram também não se manifestar a respeito. E então, em um acordo tácito, deixamos quieto e resolvemos seguir a festividade. No dia seguinte, comentamos com a outra amiga que viajava conosco sobre a noite anterior, sobre como uma personagem bizarra tinha nos abordado e falado tanta merda, mas nos restringimos a contar sobre o fato dele ser milico, de fazer um beatbox estranho e de cantar como o Rogério Flausino.

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Representatividade e racismo na mídia brasileira: #asiansontv

Em novembro de 2015, o ator estadunidense de origem tamil Aziz Ansari estreou Master of None, uma série co-produzida com o diretor e roteirista estadunidense de origem chinesa Alan Yang.  A série conta a história de Dev, um ator de propagandas nos seus trinta e poucos, vivendo a vida nova-iorquina que, para nós que assistimos Friends e todos seus derivados, deve ser basicamente a vida do estadunidense médio. A diferença é que, em Master of None, não são só brancos. Ansari e Yang pautam o tempo todo a diversidade na TV. Além da namorada branca de Dev, o outro único ator branco que integra regularmente o elenco aparece como um token white friend. Assim como muitas séries que apresentam um personagem secundário engraçadinho e estereotipado pra cumprir a cota de 1 (hum) asiático possível – o token asian friend – os produtores reservaram um espaço especial para que um ator branco pudesse cumprir esse papel. A produtora de Dear White People (2015), Lena Waithe, também integra o grupo de amigos. Originalmente, esse papel não era reservado a uma negra lésbica, mas os autores reescreveram a personagem, para também refletir a experiência da própria atriz.

A questão da representatividade na mídia é especialmente trabalhada no episódio 4, intitulado Indians on TV. Alguns conflitos emblemáticos são desenvolvidos na trama, como o casting que obriga os atores estadunidenses de origem indiana a forçar um sotaque que não lhes é natural, para representarem em um comercial o estereótipo que lhes é cabido. Há também a desconfortável trama da produção de uma série de TV que não deseja contratar dois atores de origem indiana, apesar de seus talentos, porque isso significaria assumir que a série seria um programa de nicho. É exatamente isso que Master of None desconstrói, jogando na mídia convencional um elenco não-branco que é capaz de falar de temas “universais” (olha só que surpresa), assim como temas específicos, mas que são capazes de atingir o público geral mesmo assim.

A abertura do episódio é um copilado de excertos da TV em que indianos são representados de forma racista. Tipo o Apu dos Simpsons, todo mundo conhece ele. Ou tipo aquela vez em que o Ashton Kutcher fez brownface em um comercial. Inspirados e empoderados por esta iniciativa, resolvemos transportar a crítica para a nossa realidade no Brasil e demos luz a este pequeno vídeo.

Para ajudar quem tá começando, sem preguiça, preparamos um pequeno guia de ideologias recorrentes na representação das/os asiáticas/os na TV brasileira, no intuito de dar um panorama pelo qual podemos começar os nossos debates. Continuar lendo